Graciella, Cravo e Canela



Para os homens ela é a personificação da utopia de mulher perfeita: incrivelmente linda, gostosa, atraente, simpática, a perfeição inatingível que só se vê nas revistas. É o mulherão que tem força para desmontar qualquer machismo e fazer até o mais truculento dos homens se comportar como um garotinho que pede atenção. É a deusa grega capaz de desestabilizar qualquer Olimpo e provocar guerra entre deuses que a disputam como o grande prêmio a ser conquistado. Nas mulheres provoca inveja - a típica inveja entranhada no psicológico feminino que faz com que mulheres igualmente lindas a vejam como rival a ser destruída; seu poder de atração sobre os homens incomoda suas iguais, que sabem que seriam facilmente derrotadas numa simples comparação com ela; isso desperta a ira, uma ira que muitas vezes toma forma de poder maquiavélico, poder esse que faz com que as que se sentem ameaçadas tentem derrubá-la a todo custo, nem que para isso a mentira seja usada como arma principal. Nos moralistas desperta raiva, a raiva típica dos que a desejam, mas que por força da imagem de "defensores do bem estar social" se veem obrigados a conter seu desejo e usam a repulsa para espantar seus próprios fantasmas. Nos "liberais" ela trás a alegria de saber que ainda há no mundo pessoas de mente aberta, bem resolvidas com o próprio corpo o suficiente para se despir para fotos e ensaios, sem a hipocrisia do "politicamente correto" e sem a mordaça da "moral e os bons costumes".

Tal qual a Gabriela de Jorge Amado ela chama a atenção e divide opiniões. Causa alvoroço onde passa. É motivo de discussões e debates. Pessoas falam sobre ela, tentam entendê-la, defini-la. Impossível. Ela não se define nem pode ser definida. Sua beleza exuberante chega sempre na frente e faz com que alguns digam que ela é apenas um rosto bonito (não só o rosto, diga-se de passagem), mas logo atrás sua simpatia e o carisma calam a boca dos críticos. Ela tem a força e a garra do brasileiro, mas a doçura e simpatia de uma criança. É ao mesmo tempo maliciosa e ingênua. Forte e indefesa. Ela é o definição plena do que se entende por "mulher".

Ela é Graciella, a nossa Gabriela.

A Gabriela que não tem vergonha de exibir o próprio corpo e faz um ensaio sensual. Ao invés das paisagens naturais exuberantes ou mansões luxuosas iguais as que estamos acostumados a ver como cenário, ela fotografa num quarto comum; algumas fotos foram feitas em um fundo amarelo como cenário, e nada mais. Nada de roupas extravagantes ou lingeries super sensuais de marcas caríssimas - em algumas fotos apenas uma calcinha roxa. Em vez de jóias brilhantes enormes e caríssimas, uma simples corrente que quase passa despercebida. Maquiagem discretíssima. Ela não precisa passar pelo milagre dos retoques digitais para corrigir imperfeições. Ela dispensa qualquer complemento, qualquer "algo a mais". Por que? Oras, ela é a arte. Qualquer coisa além dela é desnecessário. É apenas ela. Graciella, a nossa Gabriela. A que usa a força  infalível da sensualidade para mostrar a fragilidade e singeleza que o nu expõe. A que, ao tirar a roupa para uma sessão de fotografia, tira também a capa da conveniência social e se expõe de pele limpa e dá a cara a bater, sem se importar com a opinião de terceiros. Sua seminudez expões sua força e fraqueza. É a menina indefesa, que pede proteção e apoio, e a mulher autoconfiante, que não tem medo de nada e vai à luta custe o que custar. Ali, seminua, ela é apenas a Graciella e nada mais. Ou, se olharmos por outro ponto de vista, ali ela é a grande Graciella e todo o peso que sua personalidade carrega. 

Ela é a Gabriela que não se submete à regras impostas por outros. Ainda não nasceu o Nacib capaz de encabrestá-la. Ela entra e sai quando quer. Dispensa e atrai novamente. É cortejada pelos que antes a julgaram. Quem a dispensou agora a chama de volta.

Assim é ela, nossa Graciella, Graciella Cravo e Canela.

Incêndio no Canavial

É, eu tenho meus momentos brega. Uma prova disso é eu gostar de Incêndio no Canavial, do Moacyr Franco:



Gosto das músicas do Moacyr Franco. E a letra dessa música é, na minha opinião, uma das mais bonitas. Ele é uma das grandes vozes que já emocionaram o Brasil há anos e que infelizmente não recebe hoje o devido reconhecimento. É uma pena!

"Queremos resgatar a tradição de qualidade da música britânica". Entrevista com a banda Eutopia



Começar uma carreira musical é algo difícil. Isso é fato. Mais difícil ainda deve ser começar uma carreira musical de forma independente na mesma terra de lendas da música como Beatles, Amy Winehouse, Led Zeppelin, Queen e outros. Eutopia é uma das muitas novas bandas que vem surgindo no cenário musical do Reino Unido, mas com uma diferença: o trabalho deles vem ganhando reconhecimento do público dentro e fora das terras da Rainha. Além dos vários fãs ingleses, já são ouvidos nos EUA e planejam em breve uma viagem à América do Sul.

Idealizada em 2010 por Alexander Kotziamanis, a banda é hoje formada pelo próprio Alexander, que é o vocalista e guitarrista da banda, além de Leah e Luke. A banda Eutopia é hoje uma das grandes inovações da música inglesa, principalmente pela pegada do rock com uma boa dose de eletro e synth, o que resulta num som muito diferente, muito bom de se ouvir. O primeiro single da banda, Shall I Lie tem gerado uma ótima repercussão na internet e está inclusive disponivel para o iTunes. E o álbum Seven, primeiro da banda, já está pronto para ser lançado e em breve entrarão em turnê pelo Reino Unido.

Essa é a primeira vez que a banda Eutopia fala para a América Latina, e é a primeira entrevista internacional do Blog Novas Ideias. Por conta disso, resolvemos publicar a entrevista também em espanhol, para que nossos vizinhos latinos possam acompanhar a entrevista.







1) Como surgiu a banda Eutopia?
A banda começou a partir do trabalho de Alexandre. Ele escreveu algumas músicas e sentiu que, em vez da carreira solo, ele poderia começar uma banda. A mensagem de sua música foi a positividade, sem perder uma vantagem rock. Ele conheceu Leah em setembro do ano passado e eles decidiram trabalhar juntos no projeto de uma banda. Lucas juntou-se à eles no final de janeiro e com a família completa estamos hoje com nosso trabalho em andamento.


2) Por que o nome Eutopia?
Eutopia significa "um lugar perfeito", o que é obviamente muito positivo. Estamos todos acostumados à palavra "utopia", que é um ideal inatingível. "Eutopia" é um ideal alcançável e possível. Além de que nós queríamos apenas uma palavra, com grandiosidade o suficiente para nos diferenciar das grandes e às vezes pretensiosas bandas britânicas modernas. Achamos que uma palavra pode reunir todo um conceito para a banda. O nome de uma banda deveria dizer algo sobre ela, e "Eutopia" mostra que somos uma ideia refletida em nosso trabalho pessoal e conjunto, bem como na música que fazemos.


3) Quem escreve as música da banda? Qual a inspiração ao escrever?
Alexander escreve as músicas, que tem temas diversos, mas todas são leves e têm um conceito forte. As canções falam de algumas das grandes questões como a fé, política, moralidade e sobre o consumo de drogas. O assunto principal, porém, é o amor. Todas as nossas faixas, até certo ponto são sobre o amor da humanidade, Deus, o outro. A partir disso começamos a viajar...


4) Qual tem sido a receptividade das pessoas às músicas da banda?
Assim como em todas as formas de arte temos os nossos fãs e outros que não estão tão interessados. Devido à diversidade musical a nossa música as vezes trava em alguns tipos de gostos musicais. Nós realmente achamos que podemos dar algo a todos com a nossa música. Temos uma página de fãs no Facebook e nosso site tem um fluxo relativamente constante. Temos fãs em todo o mundo e iremos para a América no próximo ano para visitar nossos fãs.


5) Qual é a principal inovação da banda Eutopia?
Acho que oferecemos algo totalmente original no mercado musical atual do Reino Unido. Usamos uma grande variedade de estilos e combinamos techniue impressionante com puro pop/rock e grandes solos de guitarra. Quisemos afastar-se das progressões de acordes óbvias e trazer de volta os elementos emotivos e cativantes encontrados na música dos anos oitenta que amamos - Bon Jovi, Def Leppard, Trip, Europa, etc. Nossas letras são muito mais do que nossas próprias vidas, elas estão prestes a questões mais amplas. Nós amamos os grandes solos de guitarra e camadas mais complexas de synth e harmonias. No entanto, não queria ir pelo caminho bem percorrido progressiva à medida que sentir que muitas bandas se tornar a técnica para seu próprio bem e do sacrifício dos elementos melódicos que apelar para o mercado de massa. Assim, mantemos nossas melodias simples e cativante. Nós também adicionar algo moderno, alguns elemento "un-Rock'n Roll ", com synths dançantes. Nós amamos os sons rítmicos e a perfeição de sincronismo encontrado na música dançante e conhecemos o impacto de uma melodia de sintetizador muito eficaz.


6) Já se apresentaram fora da Inglaterra? Em quais lugares?
Os componentes da banda já se apresentaram individualmente fora do Reino Unido. Alexander já tocou em vários países europeus. Lucas tem tocado em outros países europeus e Leah fez uma turnêa no Oriente Médio. Como Eutopia, temos grandes planos para os próximos shows começando com uma turnê nos EUA no ano novo.


7) No Brasil, o Mercado para novos talentos tem sido muito promissor. Quase todos os dias vemos novas bandas e novos cantores no cenário musical brasileiro. Como está o mercado para novos cantores / bandas no Reino Unido?
O mercado musical no Reino Unido está sob uma enorme pressão. Programas de TV como Britain Got Talent e X Factor dão a impressão de que qualquer um pode ter sua carreira de sucesso, independente de talento. Se impressionam com essa e ideia e não querem correr riscos. Acabamos vendo carreiras sem longevidade e um pequeno grupo de escritores que fazem letras de músicas para muitos. Ninguém tem tempo para se desenvolver como artista e construir uma forte base de fãs ao mesmo tempo. Você precisa construiur a própria carreira, por conta própria, para só sí as gravadoras se interessarem em você. Com isto em mente, estamos muito felizes com a forma como Eutopia está progredindo, mas entendemos que estamos com um bom começo, e é questçao de tempo para pensarmos numa carreira internacional mais consistente.


8) Vários cantores e bandas que fazem sucesso hoje começaram com vídeos na internet. Qual é o peso da Internet na divulgação do trabalho de vocês?
A internet é, provavelmente, a nossa principal fonte de sucesso musical. A utilizamos para a divulgação e é uma plataforma fantástica para nós, como artistas musicais em uma plataforma global. Fazemos vídeos, temos vários shows ao vivo que são transmitidos on line para fãs que não podem estar presente em nossas apresentações por conta de sua localização geográfica. É uma maneira fantástica para nossos fãs estrangeiros nos verem em ação ao vivo. Fora isso, também temos os nossos próprios vídeos que promovem a Eutopia em outros nichos. Alexander tem suas aulas de "Guitar Arcanjo" no Youtube, onde dá algumas aulas de guitarra. Leah tem um blog, o Synth Owl, que se comunica com os fãs de synth, mas também mantém as pessoas em dia com o que está acontecendo com a banda. Ela também escreve sobre como é ser a única mulher na banda e uma das únicas na indústria do rock em geral.


Banda Eutopia
9) Vocês tem tido dificuldade nesse começo de trabalho? Quais?
A indústria da música é conhecida por ser um dos mais difíceis para se iniciar e, claro, é muito difícil fazer um impacto. Estamos completamente dedicados ao nosso ofício e a divulgação "boca a boca" tem sido a nossa melhor aposta. É surpreendente o que pode acontecer quando as pessoas gostam do que você está fazendo e querem ajudá-lo ao longo de seu caminho. É uma luta para ganhar reconhecimento, mas nossa base de fãs em constante crescimento e os recordes de vendas estão provando que estamos no caminho certo.


10) Quais os próximos projetos da banda? Já tem turnês agendadas?
Bem, o álbum de estréia Seven está completo e está inclusive disponível para o iTunes, para que todos possam desfrutar de nosso trabalho a partir do final de outubro. Temos trabalhado arduamente. Toda a gravação, produção, mixagem e obras de arte foram feitas em casa. Alexander faz a produção e Leah faz as artes. Tem sido um trabalho de amor e estamos muito animados para em breve começar oficialmente a promoção do álbum. Afora isso, estamos planejando uma viagem para Los Angeles em fevereiro, onde estaremos fazendo uma série de entrevistas e cargas de shows ao vivo. Nossa base de fãs norte-americana é grande em comparação com a nossa popularidade aqui em Londres e nós não poderíamos estar mais animado para a nossa primeira turnê internacional. Há muitos mais para vir e esperamos em breve ir à América do Sul.


11) Vocês estão na mesma terra de nomes indiscutíveis do rock, como Led Zeppelin, Queen e outros. Apesar da diferença de estilo de vocês com essas bandas, qual é a influência que elas exercem sobre o trabalho de vocês? Acreditam que a responsabilidade de fazer música no mesmo país de nomes tão conhecidos mundialmente é maior?
Acho que posso dizer com segurança que sem a influência desses pilares da música do Reino Unido nós não fazemos o que fazemos. Os riffs matadores de Led Zeppelin e da diversidade épica do Queen são provavelmente duas das nossas maiores influências. Devido à incrível linhagem musical que herdamos neste país é claro que há pressão. Queremos chegar a esse alto nível nível e acho que é um padrão que deve ser reintegrado na música britânica. Percebo que nos últimos anos as pessoas perderam a referência da nossa rica história musical e sentimos que é hora de trazê-lo de volta.


12) Conhecem algo do Brasil? Música, lugares, etc.
Ouvimos apenas coisas boas sobre a sua cultura e património musical. Para nós o Brasil significa paixão e atitudes positivas, as duas coisas que nos esforçamos para trazer ao nosso dia a dia. Nós não podemos esperar para conhecer a América do Sul e esperamos que possamos desfrutar de sucesso com a crítica brasileira e com os fãs. Além do que seria ótimo ver nossa música sendo tocada em casas de show no Brasil.


13) Gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do Blog Novas Ideias?
Mantenha sua fé, faça tudo com paixão e acredite no que você está fazendo. É melhor dedicar sua vida a fazer uma única coisa que você ama de todo coração do que fazer mil coisas sem paixão. E claro: conheçam nossa música em nosso site... hahaha!


Com colaboração de Glaucio de Souza, Gabriela Penha e Liesel Hoffmann. 
Agradecimento à Julia Nicklen, que respondeu a entrevista em nome da Banda Eutopia


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Visite o site da banda Eutopia e curta a página no Facebook.


Ouça a música Seven, que dá título ao primeiro álbum da banda:

EUTOPIA-Seven-Seven by Eutopia


Ouça a música Shall I Lie:

SHALL i LIE - EUTOPIA -Seven by Eutopia


Ouça a música Sattelite of Love:

EUTOPIA-Satellite Of Love-Seven by Eutopia

A "caridade" dos blogueiros e tuiteiros no Teleton

O SBT levou mais uma vez ao ar o Teleton AACD, versão brasileira do Teleton americano, que nada mais é do que uma maratona em prol de alguma causa beneficente. Aqui no Brasil o Teleton ajuda a AACD, instituição que há anos ajuda crianças e adultos com deficiência física a recuperar mobilidade e condições de vida que seriam praticamente impossíveis de se conseguir sozinho. O trabalho da AACD é algo fantástico. Moro um pouco perto da sede da AACD, aqui em SP< e sempre que passo por lá vejo crianças dos mais diferentes tipos, sempre acompanhados por mães que deixam tudo para atender o filho deficiente. É um trabalho lindo, emocionante mesmo, principalmente quando pensamos que boa parte do que é feito lá é de forma voluntária. Sim, quem trabalha lá não recebe um centavo pelo que faz. Ou seja, é puramente pelo amor ao próximo. Coisa bonita de se ver, mesmo.

No Brasil, o SBT pede uma vez por ano doações para a AACD, e com esses eventos do Teleton já conseguiu bastante coisa, como construir unidades no interior, equipar hospitais e mais uma série de coisas aue já foram feitas através dessa maratona de doações. É legal quando você pensa que o SBT é uma emissora comercial que depende de sua programação e da propaganda que veicula para existir e pagar as contas, e vê que a emissora dedica um dia inteiro da sua programação apenas para o Teleton, sem programas de auditório, sem novela, sem horário nobre nem nada. Um dia inteiro ofertado à AACD. A atitude do Sílvio Santos é algo admirável.

Aí desde 2010 o SBT teve a brilhante ideia de convidar blogueiros e tuiteiros para participar do Teleton e pedir doações na net. A ideia, que veio da filha do patrão Daniela Beyruti, era usar a força das redes sociais e fazer os internautas, geralmente sem nenhum comprometimento social, se envolverem na campanha. A iniciativa foi legal, principalmente porque o SBT é hoje uma das únicas emissoras que dá valor de fato às redes sociais e aos internautas. Mas a prática revelou uma coisa curiosa. Ao convidar blogueiros e tuiteiros para o Teleton, o SBT conseguiu algo quase impossível: fechou a boca de subcelebridades da web, piadistas, aspirantes a "stand up" e gente que vive de rir do outro que teriam no Teleton uma fonte inesgotável de piadinhas de gosto duvidoso. Ao invés de fazer graça com as "celebridades" que passam pelo palco, os "tuiteiros" enchem a TL de todos pedindo exaustivamente doações.

"E qual o problema disso, Wesley?". Nenhum, mas aí fico pensando se esses mesmos tuiteiros e blogueiros estariam pedindo exaustivamente essas doações se não tivessem sido convidados para participar. Será que levariam tão a sério o assunto se estivessem em casa e não no estúdio do SBT conhecendo cantores e artistas (alguns deles vão conhecer até mesmo o Sílvio Santos)? Ou seja, como foram convidados para participar do programa, evitam qualquer piada e se travestem de "pessoas caridosas". Até elogiam artistas que durante o ano todo foram motivo de chacota. Se não estivessem lá estariam rindo das participações e fazendo piada de "humor negro" assim como fazem com outros assuntos tão delicados como as as crianças deficientes da AACD. Será que se eles não estivessem lá o Fernandinho, o menino de 10 anos que todo ano está presente no Teleton fazendo todo mundo rir com seu jeito engraçado e estabanado, seria visto como uma "coisinha fofa", ou seria alvo de piadas chatas assim como a Maísa era até pouco tempo?

É curioso como essas "sub-web-celebridades" conseguem "dançar conforme a música", como diziam antigamente. Quando não há nada em jogo falam o que pensam e dane-se o mundo. Quando é conveniente, se calam e mostram uma imagem que qualquer um sabe que não é a deles. Vi tuiteiro no Teleton que eu nunca vi durante o ano envolvido em nenhuma causa. Aí como foi convidado para participar do Teleton se mostra caridoso, se dizendo emocionado com o trabalho da AACD. Será que você está emocionado mesmo ou é só mais uma personagem atuando no palco das bondades?

Para quem não entendeu o que eu quis dizer: não condeno de forma alguma o Teleton e o trabalho do SBT. Pelo contrário, a cada ano que o Teleton é feito admiro mais um pouco o Sìlvio Santos, que cede um dia de sua emissora, e logo um sábado, dia importantíssimo pra TV, para se dedicar a uma causa nobre como a causa das crianças deficientes da AACD. O que critico é a pseudo-bondade dos tuiteiros convidados para o programa, que se mostram como pessoas humanizadas por conta da conveniência de estar em uma das maiores emissoras do Brasil, mas quando estão foram são totalmente descomprometidos com causas sociais.

Mas, é assim mesmo. Parafraseando o que São Paulo disse na Bíblia, o importante é que, de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, as crianças da AACD vão ser mais uma vez beneficiadas. Que bom!

Qual é o estilo da Dilma? | Provocações #19


Em mais um interessante artigo no Valor Econômico, Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia política da USP, toca no ponto certo do governo de Dilma Roussef. A presidente tem o seu estilo, mas será que pode se libertar das amarras fisiológicas do PT e dos partidos que lhe dão sustentação?

Veja abaixo o artigo:

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Em meio ano, Dilma Rousseff demitiu três ministros de Pastas importantes. No começo de seu governo, escrevi que ela estava em busca de seu estilo. Sucedia a dois grandes comunicadores. Fernando Henrique Cardoso, em que pese vivermos num país sem maior simpatia pelos intelectuais, usou sua cultura e simpatia - era o chefe de governo mais culto que tivemos desde José Bonifácio - para transmitir, à sociedade, uma nova agenda, mais econômica na verdade do que política. Luiz Inácio Lula da Silva utilizou sua verve e carisma para comunicar-se com uma parcela bem maior da sociedade. Se adotou políticas de inclusão social, aumentando a classe C e reduzindo as D e E, fez algo parecido no discurso político: dirigiu-se sobretudo aos pobres, falou com eles, em especial com suas famosas metáforas. E Dilma? Que estilo teria, perguntei em fevereiro, depois desses governantes que sabiam tão bem falar à sociedade?

Agora, temos dados concretos. Dilma continua falando pouco. Também não é de escrever. Ela assina. Assina demissões. Há uma lógica clara no seu modo de demitir. Quando um ministro é suspeito de corrupção, ela quer que preste satisfação à sociedade. Dá-lhe uma chance. Não demite ninguém de pronto. Porém, se a satisfação prestada não for convincente - e foi esse o problema de Palocci, que era o grande ministro de uma grande Pasta, bem como o de Alfredo Nascimento, que dirigia um dos principais ministérios da Esplanada, não só pelo dinheiro manejado mas pela popularidade que gera, se construir e consertar estradas - o ministro sai. Esse não é um juízo criminal. Não sabemos se foram ou não culpados das acusações que lhes foram dirigidas. É um julgamento político. A política lida com aparências. Para ela, não basta a mulher de César ser honesta, ela tem de parecer honesta - para retomar o célebre dito de Júlio César, pronunciado assim mesmo na terceira pessoa.

Não basta acusar para derrubar um ministro. Ana de Hollanda foi atacada no começo do governo, pelas políticas que adotava (ou não adotava) e também por uma questão de diárias pagas a ela. Dilma deu-lhe um abraço, num corredor, e disse que fosse em frente. Só isso. Não houve colo, força-tarefa para defender a ministra, nada. Mas Hollanda se virou e saiu dos holofotes. Em suma, a presidente dá chance a quem é criticado e espera que a pessoa se mostre capaz de superar o mau momento. Porém, cobra. Um ministro não ficará no cargo fazendo-se de tonto.

Lembremos o episódio Henrique Hargreaves, em que o principal ministro de Itamar Franco, falsamente acusado de corrupção, se demitiu para que tudo fosse apurado e só voltou ao ministério devidamente isentado de culpa. Os tempos mudaram. Hoje, o único tema da oposição é a corrupção. Ela não discute como baixar a apreciação do real, não entra no mérito do trem-bala - apenas, acusa o governo de corrupto. Os decepcionantes PV e Marina, por sua vez, sequer fazem campanha contra a redução do imposto sobre os automóveis. Seria impopular defender mais impostos sobre os carros, mas o que se espera dos verdes? Que proponham o novo. Isso não vemos nem na oposição tucana, que só fala em desvio de verbas, nem na verde, que praticamente não fala. Hoje, se cada ministro acusado se afastasse, a oposição inviabilizaria a baixo preço e com meras palavras o governo. O que se pode esperar da presidência é que mande os acusados prestarem contas.

Já o desfecho do caso Jobim é diferente, mas normal. Se não o demitisse, a presidente se desmoralizava. O que temos de entender, e cabe aos jornalistas descobrir, é por que ele quis sair como saiu. Em poucas semanas, multiplicou provocações que não podiam ser toleradas. Recordo o sociólogo Emir Sader, que seria diretor da Casa de Ruy Barbosa. Numa entrevista, Emir se referiu a sua superior, a ministra Ana de Hollanda, como "autista". Era uma alusão bem humorada e até carinhosa. Bastou para que perdesse o cargo. Mas Emir é um acadêmico; nesta área, estamos acostumados a dizer o que pensamos, sem meditar muito as consequências.

Nelson Jobim é um político brilhante, que foi ministro de três governos seguidos e se destacou nos três Poderes da República. Foi o melhor ministro da Defesa que tivemos desde a criação da Pasta. Então, por que deu três declarações sucessivas e provocadoras? Queria sair como herói? Para tanto, precisaria estar representando uma causa nobre, contra uma eventual falcatrua. Nada disso está à vista.

Dilma não aceitou, nem podia aceitar, o que precisamente para os militares é o pecado mortal: a indisciplina e, com ela, a tolerância com a indisciplina. (Ainda hoje, paira a suspeita de que, se Jango não tivesse admitido a indisciplina dos sargentos e marinheiros em 1964, vários generais, entre eles o comandante de São Paulo, não se teriam revoltado; o golpe de Estado fracassaria). O chefe do Ministério da Defesa desrespeitou a comandante-em-chefe das Forças Armadas. A essa altura, importa pouco avaliar como será Celso Amorim - como ainda sabemos pouco de Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti. Nenhuma dessas indicações, em que pesem as qualidades do ex-chanceler no Itamaraty, impressionou muito a opinião pública. Mas o que conta é que a presidente mostrou firmeza.

Ainda ignoramos como Dilma vai se comunicar. O que vimos é que exige respeito. É um dado importante. É um começo. Talvez precise terminar de ajeitar o governo. Isso demora - talvez um ano. Depois, terá de mostrar que ideais vai transmitir - como FHC e Lula fizeram. Está indo bem na tarefa de pôr ordem no ministério. Terá de mostrar para quê. Isto é: o que tem a propor ao povo. Esperemos.

Fontes:
Blog do PPS
Humor Político
Gilvan Melo

A crueldade e a falta de indignação

Acabei de assistir a um episódio de Cold Case, o 5° episódio da 3° temporada, e mais uma vez me peguei refletindo sobre uma das características humanas que aparentemente é inexplicável: a crueldade. Para resumir, o episódio conta a história de Betty, uma moça que havia sido internada em um hospício em 1954, e depois de assumir a culpa de Carmen, a colega pintora, por um erro que todas cometeram junto com Aston, o enfermeiro do hospício, fez uma lobotomia no lugar da colega, e foi liberada do hospício para seguir na vida sozinha. Ao ser encontrada na rua e devolvida ao hospício, o médico chefe mandou que ela fosse morta antes que alguém descobrisse o erro do hospital, e o mesmo enfermeiro que cometeu o erro com as internas foi o responsável por abandonar Betty num parque escuro à noite coberto de neve, onde ela morreu congelada, como indigente. Tá, contei o fim do episódio, mas são tantos que só um spoiler não vai fazer diferença, e o que chama a atenção nesse episódio são os detalhes, que não contei. 

Enfim, o episódio trás uma reflexão complicada: a crueldade humana. Aston, o enfermeiro, matou Betty para evitar ser julgado em um processo de abuso sexual e continuar provendo o sustento das irmãs mais novas. O médico dono do hospício mandou matar Betty para manter a boa reputação do hospital diante dos clientes. E a enfermeira sabia de tudo, mas não fez nada para omitir.

Até onde pode ir a crueldade humana? Sim, é apenas um seriado, mas casos assim estão presentes todos os dias nos noticiários da TV. Um bom exemplo disso é o caso da adolescente de Santo André, que foi morta sem nenhuma explicação dentro da própria casa, por alguém que tinha acesso à casa, pois ao sair ainda trancou o portão. Nada foi roubado, e a menina não tem sinais de violência sexual. Alguém a atacou pelo simples prazer de matar. Aliás, a vida ultimamente tem sido algo tão banalizado e nós estamos quietos. Todo dia ouvimos falar que uma mulher foi morta pelo marido, namorado, ex-qualquer-coisa, ou que um estudante foi morto na porta da faculdade, ou alguém morreu em acidente de trânsito. Pessoas morrem. E o que dizemos? "Morreu? Antes ele do que eu". Isso é uma forma de crueldade, também.

A vida não vale nada. Pelo menos para quem tem nas mãos o poder de matar. Como alguém consegue tirar a vida de uma pessoa e dormir? E a família da pessoa que morreu, como fica? Perder alguém querido não é simples como vemos na TV. Doi muito. Mas infelizmente essa indignação só atinge as pessoas quando a tragédia chega em casa. Para usar uma linguagem bíblica, eu diria que perdemos a alma. Nada mais nos choca. Como diz a música da Pitty, "nenhuma verdade me machuca, nenhum motivo me corroi". Nos chocamos mais com a eliminação de fulano no reallity show do que com a morte de uma adolescente. O ser humano perdeu a sensibilidade. Qual foi a última vez que você chorou pela morte de um desconhecido? Esse é o choro de indignação, quando choramos pelo simples fato de não se conformar com a crueldade.

Não, eu não perdi ninguém querido, graças a Deus. Mas não preciso esperar que alguém morra pra me indignar com essa sociedade que mata aleatoriamente. O verbo "morrer" virou uma palara como qualquer outra. Para brincar com a gramática, eu diria que "morrer" dixou de ser verbo para ser substantivo. Não nos afeta mais, não nos choca, não nos incomodamos mais. Ouvimos uma notícia da morte de alguém enquanto comemos e continuamos a comer normalmente. A morte está banalizada. Ou melhor, a vida está banalizada.

A única coisa que peço a Deus é que me dê lágrimas para chorar e a indignação para não aceitar a morte como algo normal.