Precisamos entender que a vida não é igual a "Friends" | Crônicas #43




Wes Talaveira


Sim, é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que encontrar uma pessoa que ainda não tenha assistido a pelo menos um episódio de Friends. O longevo seriado americano criado por David Crane e Marta Kauffmann, que foi gravado entre 1994 e 2004, ainda hoje continua sendo o enlatado mais eficiente na função de prender a atenção de pessoas ao redor do mundo (o ocidental, pelo menos). Friends conta a história de um grupo de amigos – Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross - que passam, sempre juntos, por situações complicadas do cotidiano. Novo emprego, novo amor, novos sonhos, expectativas, dificuldades de relação coma família, tudo é vivido em conjunto pelos amigos, que trocam suas experiências e se ajudam – ou não – nas mais variadas situações. 

Talvez seja esse o segredo de Friends: mostrar a realidade de qualquer jovem, seja americano, brasileiro, inglês. Guardadas as devidas proporções, quem nunca passou pelas situações mostradas na cena? Todos nós temos nosso momento de crise, e a série mostra exatamente como cada um de nós reagiria diante de situações adversas. É difícil não se identificar com algumas das situações muito bem retratadas na série. Quem nunca se sentiu meio bobo diante de um amor, como a Rachel? Ou quem nunca foi um “forever alone” como Joey? Ou ainda quem nunca tentou agradar uma mulher e viu tudo dar errado como o “fofo” Ross? 

O grande problema é o ambiente que a série cria, que nem sempre será uma realidade para todos. Em Friends a vida é baseada no convívio entre bons amigos, que sempre estão disponíveis um para o outro, seja para se ajudar, seja apenas para tomar um café no Central Perk. A vida em Friends é uma vida de pessoas bem relacionadas, com amizades bem construídas. Cada um ali é “amigo do peito” do outro, o “amigo certo das horas incertas”, para quem se confidencia os segredos mais profundos, para quem se conta as dúvidas mais inquietantes. Isso é muito bom quando você tem um amigo do tipo. Mas nem sempre esse amigo existe. 

Uma das grandes realidades de qualquer pessoa é o famoso “período de solidão” que cada um de nós enfrentamos, quando nos vemos diante de situações complicadas e tendo que tomar decisões “sozinhos”. Sim, tem momentos na sua vida em que é você e pronto. Você não vai ter uma Jennifer Anniston pra chamar de sua e deitar no ombro enquanto desabafa sobre suas dúvidas (bem que eu queria... rs). Maturidade, na verdade, é isso: saber tomar decisões e encaminhar as coisas mesmo quando você não tiver a quem consultar. Se fosse para consultar alguém sempre você não precisaria sair da casa dos seus pais, correto? 

Friends acaba por nos passar a ideia de que a vida só é perfeita quando você tem um grupo de amigos com quem contar o tempo inteiro. Por mais bem relacionado que você seja, por mais amigos e mais contatos no WhatsApp que tenha, você vai passar por situações em que não vai ter ninguém para chamar. Essa ideia de um mundo perfeito onde todos são bem relacionados o tempo inteiro, onde você sempre vai ter uma "best" ou um "brother" é uma ilusão que só existe em seriados e novelas teen, e trazer essa ideia para a vida real pode ser perigoso, pois pode resultar em frustração e decepção. 

Enfim, a série tem seu valor, tanto que durou dez anos sempre batendo recordes de audiência e com atores recebendo valores na casa do US$ 1 milhão por episódio. Mas deve ser vista como um bom entretenimento. Só isso. 



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Wes Talaveira é publicitário, social media e mora em SP 

Porque Comprei a Playboy da Nyvi Estephan | Lifestyle #15





Os textos marcados com a tag “lifestyle” expressam o ponto de vista, a opinião ou relatos pessoais dos colaboradores do blog. 


Por Wes Talaveira 


Nunca fui leitor assíduo da Playboy e sequer me interessava por revistas do tipo. Mas não sou hipócrita nem criança para ter que esconder que já comprei algumas edições da revista. Sempre gostei do conceito do nu artístico, de olhar a delicadeza do feminino em sua integralidade. E claro, sou homem hétero e algumas vezes a beleza da playmate me chamou a atenção, mas nunca precisei comprar Playboy pra "bater uma", se é isso que pensam. Até porque usar uma folha de papel pra saciar tesão é algo meio estranho... Mas enfim.

E, se a intenção de ler a revista era o nu artístico, as edições dos últimos anos deixavam muito a desejar. A revista servia simplesmente para dar visibilidade a pseudo-famosas ávidas por dinheiro fácil e rápido, além de alguns minutos de fama após o BBB ou algo do tipo. 

Mas aí a Playboy, depois que saiu das mãos da Editora Abril e passou para a PBB Editora, mudou totalmente sua imagem e deixou de ser um meio de exibição de subcelebridades para ser uma revista que valoriza a mulher em sua totalidade, e não só pelo corpo - tanto que quase não tem nu total e deixou de pagar cachê pelo ensaio. Quando vi a quantidade de críticas que a revista recebia na internet, de homens desapontados esperando uma pornografia impressa, pensei que a revista devia ter melhorado muito. 



E então a Playboy anunciou a Nyvi Estephan como capa da edição de outubro / novembro. Já acompanho o trabalho dela como apresentadora de games há algum tempo e sei que ela não é qualquer "mulher-fruta", apesar de explorar a sensualidade em seus vídeos e fotos pra ser bem claro: ela é gostosa demais. É inteligente, conquistou seu espaço com muito trabalho e nunca precisou mendigar notas em revista de celebridades pra tentar manter a fama. Além disso é casada com o Bruno Sutter, que pra mim é um dos maiores músicos brasileiros, além de ser ótimo humorista. Ela e o Bruno Sutter formam o casal mais foda da internet.

Quando vi que a Nyvi seria a capa, pensei que essa seria a oportunidade de dar mais uma chance à revista. As fotos vazaram antes da revista chegar às bancas, nessa sede que alguns hackers tem por alguns minutos de fama. Vi algumas fotos, e mesmo assim comprei a revista. E não me arrependi. O ensaio, de muito bom gosto, trás fotos muito bem feitas, sem qualquer apelação ou pornografia gratuita, com pouco ou quase nenhum retoque digital.





Por tudo isso comprei a Playboy desse mês! #Playboy #nyvinaplayboy#nyviestephan

Bianca Mello | BloGirl #10





Por Wes Talaveira



Ela ouve elogios o tempo todo, seja na rua, nos locais que frequenta ou lendo os comentários em cada foto que posta em suas redes sociais. Ela é linda naturalmente, sem precisar forçar nada. É até quando não tem a intenção de ser, daquelas que tem a genética natural.

Me desculpe, mas não há outra palavra que a defina tão bem quanto “gostosa”.

Mas calma, antes de qualquer coisa precisamos reposicionar a palavra “gostosa” - já tão desgastada por homens vazios que não sabem elogiar outra coisa em uma mulher a não ser o tamanho da bunda - até porque referir-se a uma mulher como “gostosa” é, na maioria das vezes, um desrespeito horrível; esse é um termo pejorativo que só alimenta o sexismo e a objetificação da mulher que tanto se tenta combater hoje em dia. Não, não é nesse sentido negativo que uso o termo “gostosa” para me referir a ela.  

Enfim, o que é ser gostosa? Gostosa é apenas a mulher de corpo bonito, seios fartos e bunda atraente? Não, não é isso. Até é, mas não apenas isso, é muito pouco. Isso qualquer uma, com uma rotina de treinos em academia ou alguns procedimentos estéticos e cirúrgicos, consegue ser. Ser gostosa é mais que isso. E ela é muito mais que isso.

Mas claro que, no caso dela, é não dá pra excluir o sentido erótico da palavra.





Gostosa é aquela mulher que constrange. É aquela que faz os homens ruborizarem pelo simples fato de estar presentes. Não há valentão nem pegador que não se sinta um bobo em sua presença. É impossível não olhar seus atributos físicos. Ela chama um homem sem dizer qualquer palavra. Diz muito quando apenas balbucia. Olhos profundos, penetrantes, cheios de sedução. Seja de minissaia ou de calça, top ou blusa, uniforme de trabalho ou roupa de academia, é provocante e desperta nos homens os desejos mais profundos e primitivos, a ponto de continuarem pensando nela pelo decorrer do dia, no mínimo. Gostosa é a mulher de curvas acentuadas que tornam a passagem de olhos um movimento espiral.

Mas, mesmo com todos esses atributos, ser gostosa é muito mais que apenas a beleza física. E ela é muito mais que isso.

Ela é também gostosa em sua atitude.






Gostosa é a mulher de personalidade, que não se compara com outras pois sabe que ela tem características que são apenas suas. É a menina indefesa que se encanta com as coisas mais simples da vida, é a mulher forte e decidida de si, independente, despojada, mas também despreocupada e leve, que não tem as neuras que tanto incomodam o universo feminino, pois é segura de si o suficiente pra saber que as vaidades são apenas complementos, coisas que não fazem a ela a menor falta. Gostosa é a mulher completa em si mesma, sendo apenas como ela é. E ela é tudo isso.

Ela é Bianca, Bianca Mello. Bianca Cravo e Canela.

Ela não é mulher para curtir; é mulher para se apreciar, admirar horas, dias, uma vida inteira. É daquelas que o tempo não vai alterar, pois a beleza dela está muito além do estético. A beleza está na alma, e essa o tempo não apaga, apenas aperfeiçoa.

Ela é única, mas ao mesmo tempo é mulher como qualquer outra. Ela é incrível por ser como é.

Gostosa qualquer uma consegue ser, mas gostosa por completo, como ela, é muito mais difícil.





*As fotos abaixo foram todas retiradas do Instagram da Bianca.

O dia em que conheci Erica, ou minha primeira experiência com o Tantra | Especiais #27

Érica, terapeuta tântrica



Por Wes Talaveira


São 19:00. Consigo chegar no horário marcado, mesmo com o trânsito carregado do fim de tarde de Moema, zona sul de São Paulo. Anuncio na recepção o número do quarto e, depois de alguns minutos, sou autorizado a subir. No quarto andar toco a campainha do quarto indicado e ao abrir a porta, encontro Érica Aguiar, modelo de 22 anos que naquela próxima uma hora será para mim a terapeuta que irá me levar à minha primeira experiencia com o Tantra. 

Para entendimento do que vou descrever a seguir, é importante saber de fato o que é o Tantra, ou a massagem tântrica, até pra desfazer alguns tabus que ainda o cercam. Muito mais do que o contexto sexual, o Tantra envolve um conjunto de ensinamentos orientais que tem, a grosso modo, o conceito de liberdade individual como foco. O indivíduo é livre para ser o que quiser ser, da forma como se sentir melhor, em qualquer área da sua vida, inclusive a sexual, e o Tantra é um caminho que conduz a essa liberdade interior. No contexto sexual, o Tantra prega a união das energias sexuais como o ponto alto da liberdade humana, momento em que a pessoa está completamente desconectada do mundo externo e concentrada apenas em sua própria humanidade, sua interioridade. O momento do orgasmo, assim, passa a ser algo quase sagrado, já que é o ápice do encontro do homem consigo mesmo, com seus desejos mais profundos, e a relação sexual deixa de ser algo apenas erótico para ser o maior momento de interação humana, o ponto em que ambos deixam de serem dois individuais para serem um único ser conectados pela energia orgástica.

Meu nervosismo é visível. Nervosismo pela expectativa do desconhecido, sem saber o que iria acontecer de fato nos minutos seguintes, além do nervosismo pela beleza da terapeuta. Ela não é só bonita. É incrivelmente linda! Um espetáculo de beleza como se vê pouco por aí. Como se não bastasse o rosto lindo completado pelo sorriso envolvente, o corpo perfeito mostra uma sensualidade que parece exalar pelos poros (em outras palavras, ela é muito, muito gostosa!). A atração é inevitável!



Najima, terapeuta tântrica



Ela com certeza percebe meu nervosismo e sorri ao me oferecer água, que aceito numa tentativa de me acalmar, mas percebo ser uma ideia errada, pois tremia tanto que não conseguia segurar o copo, que quase caiu da minha mão. De forma muito doce ela me explica como funciona o Tantra e me oferece uma toalha para tomar um banho antes da sessão. Após o banho, saio apenas com a toalha envolta na cintura e entro no quarto onde a sessão vai acontecer. O quarto é pequeno, quase sem móveis. Apenas uma cama de casal, um guarda-roupa e uma mesa. A luz é baixa e no notebook toca alguma canção indiana que mais parece um mantra. Ela me pede que deite com a barriga pra baixo enquanto ela vai se preparar. Em poucos minutos ela volta; se senta sobre minhas pernas e me pede para relaxar. 

A sessão vai começar. 

Ela começa com movimentos leves sobre minhas costas, muito leves, que acabam por me fazer cócegas. Os movimentos se repetem várias vezes, seguidos de sopros que me causam fortes espasmos - na verdade o que sinto são cócegas, muitas cócegas! Me assusto no começo mas ela, de forma muito doce, me diz para acalmar e me entregar. Alguns minutos depois me pede para virar para cima, e após algum ritual que não entendi bem qual era, retoma a massagem, com movimentos novamente leves sobre minhas pernas e barriga, até que chega ao lingam, onde ocorre o ponto alto da massagem tântrica. 

Por lingam, entenda-se pênis. 

O que no começo parece uma simples masturbação logo se revela um mix de movimentos intensos, doces e ao mesmo tempo precisos sobre a próstata e a base do pênis, que vão se intensificando. Nesse ponto sinto uma sensação confusa de desejo sexual e leveza, que vai ficando cada vez mais intensa. E mais intensa. Sinto uma onda de calor tomar conta do meu corpo.  A respiração fica mais intensa. O prazer aumenta. Quando me dou conta estou em um estado de quase êxtase de tanto prazer, como nunca senti na vida. A sensação é a de que estou tendo um orgasmo, mas sem ejaculação, o tal "orgasmo seco" que o Tantra promete. A vontade é de gritar de prazer, mas consigo me conter. De repente sinto uma vontade intensa de tocar a terapeuta. Mais do que tocar. Sinto vontade de fazer sexo com ela. Uma vontade quase incontrolável. Sinto um desejo descomunal por ela. Tesão. Muito tesão. Mas um desejo diferente. Mais do que o tesão comum de um cara que está na cama com uma mulher bonita, sinto uma vontade inexplicável de compartilhar com ela toda aquela sensação maravilhosa que estou sentindo ali no momento. É como se ali o sexo fosse algo sacro, o clímax de um momento de bem estar supremo entre duas pessoas ligadas por uma energia maior.

Mas não, não houve relação sexual. Não sei se existe a possibilidade de acontecer, mas naquele dia não aconteceu.

Pouco depois tenho um novo orgasmo, mas agora não mais seco. Parece que entrei em transe de tanto prazer. A visão escurece rapidamente. Entro num estado de relaxamento como nunca senti na vida. Sinto sono. Ela se levanta para se limpar. Volta e conversa algo que nem lembro bem o que foi, já que estava relaxado de uma forma como nunca havia ficado antes. 

Me levanto para um novo banho. Após, conversamos ainda alguma coisa sobre a vida pessoal dela - vale destacar a simpatia dela que cativa até os mais incrédulos - e logo depois vou embora. A sessão encerra da melhor forma possível. Consegui vivenciar a experiência tântrica em sua plenitude.

Se recomendo? Sim, com certeza. O Tantra é mais do que sexo, é um reencontro consigo mesmo. Muito mais do que uma massagem relaxante, é uma sessão de descobertas. Vale a pena!



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Wes Talaveira
Publicitário, escritor e blogueiro há mais de 8 anos, já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião. 

O PSOL e o futuro da esquerda brasileira | Opinião #75

Luciana Genro, ex-candidata a presidente e principal liderança do PSol





"Todos os movimentos políticos brasileiros passam por uma fase conturbada, sem líderes, sem espelhos para olhar e sem programas a defender. Mas a esquerda, além disso tudo, fica órfã. Quem irá assumir o protagonismo esquerdista no Brasil após a morte do PT?"




Wes Talaveira


Uma coisa é fato, queira ou não: o PT, como representante da esquerda brasileira, morreu. O Impeachment da presidente Dilma e as eleições municipais de 2016 são a tampa do túmulo de um partido que agora jaz na cova da irrelevância e da descrença, mas que passou de forma completa por todas as fases da vida: teve um nascimento glorioso, uma juventude forte e militante em favor de causas sinceras e reais, seu amadurecimento com a conquista do governo em 2003 e, a partir daí, um declínio cada vez mais rápido, culminando com sua morte trágica e desastrosa. O mesmo partido que conseguiu arrebanhar todo um movimento de esquerda, de intelectuais, artistas e pessoas bem intencionadas, que conseguiu levar ao poder um ex-sindicalista sem nenhuma formação acadêmica mas com amplo conhecimento de Brasil, e que conseguiu eleger a primeira mulher como presidente passando por cima de toda a cultura machista que ainda impera no Brasil, agora vê toda essa bela história ir por água abaixo, vazar pelo ralo do ostracismo pra nunca mais voltar. Isso é fato. 

E agora, no Brasil pós-PT, como fica a esquerda brasileira?

Digamos que no momento atual todos os movimentos políticos brasileiros passam por uma fase conturbada, sem líderes, sem espelhos para olhar e sem programas a defender, restando apenas o discurso vazio do ódio. Mas a esquerda, além disso tudo, fica órfã. Quem irá assumir o protagonismo esquerdista no Brasil após a morte do PT?

Não, a Rede nem passa perto disso. Marina Silva é uma mulher de muita boa intenção, mas fica nisso - apenas boa intenção. Seu partido não tem bandeiras claras e seus militantes insistem em não aceitar que, até um certo ponto, o pragmatismo é necessário no jogo político. O pragmatismo te ajuda a colocar os pés no chão e ser menos "sonhático", como a própria Rede diz ser. Outros movimentos vem surgindo, como a RaiZ da deputada Luiza Erundina (que ninguém sabe se realmente vai vir a existir algum dia) e movimentos internos de membros do PT que amadurecem a ideia de sair do partido e criar um novo movimento. Mas nenhum desses tem força e maturidade necessária para se tornar o novo representante da esquerda brasileira. 

Enfim, repito a pergunta: qual será a agremiação que pode reagrupar e trazer de novo o brilho dessa esquerda brasileira moderna, progressista e antenada?

Sim, o PSOL.


Plínio de Arruda Sampaio, falecido em 2014


O PSOL nasceu de militantes petistas que não concordavam nem aceitavam o caminho que o partido vinha seguindo. Lá atrás, algumas pessoas perceberam que, se o partido ainda tinha vida, era uma vida que dava sinais de um prazo de validade marcado. Apresentou candidatos expressivos em todas as eleições que disputou e que, embora não tenham conseguido uma votação tão grande, conseguiram marcar uma posição que encontrou eco em uma parte importante da sociedade. Heloísa Helena e sua voz de taquara rachada - hoje na Rede de Marina Silva -  representou em 2006 um Brasil que reclama mas não é ouvido. Plínio de Arruda Sampaio, com sua vasta bagagem política e sua figura caricata de vovô fanfarrão, falou em 2010 o que nenhum outro candidato teve coragem de falar: a dívida externa brasileira (Que o PT vivia insistindo em esconder) e o salário mínimo miserável do qual o governo faz uma vergonhosa questão de se orgulhar. Em 2014 o PSOL tomou a decisão acertada de lançar Luciana Genro com o candidata, o que deu ao partido uma nova imagem, conquistando um apoio até então nem pensado. 

Agora, em meio a crise de identidade que a esquerda brasileira vive e a volta do pensamento arcaico de extrema direita representado pelos Bolsonaros da vida, o PSOL tem a chance de assumir a frente e reorganizar o movimento progressista. Isso é, se o PSOL quiser. 

O PSOL tem ao seu favor o fato de já ser um partido político. Não é uma promessa, um sonho que alguns estão lutando pra trazer à realidade. O PSOL já existe, já conhece e faz parte do complexo jogo político brasileiro. Já tem a expertise necessária. Além disso, o PSOL tem lideranças fortes - o deputado Jean Willys mesmo com todas as contradições que o cercam, os deputados Ivan Valente e Chicpo Alencar, sem falar na Luciana Genro, pra mim a melhor representante da nova esquerda que o Brasil espera surgir. 

O que o PSOL precisaria para assumir essa liderança e ser a nova "cara" da esquerda brasileira?

Ante de qualquer coisa, o PSOL precisa se modernizar. Apesar de já defender abertamente e sem medo bandeiras modernas e necessárias como a igualdade entre os sexos, o casamento gay, o direito ao aborto, a legalização da maconha entre outros, o discurso marxista do partido cheira a mofo. Todos os grandes movimentos de esquerda do mundo se modernizaram e ajustaram o manifesto do Partido Comunista ao mundo atual.  O PPS, legítimo herdeiro do PCB e de todo o movimento comunista antigo, tentou fazer isso ao mudar de nome em 1990 mas ficou largado às traças pela liderança fraca do seu presidente Roberto Freire. O PSOL precisa de um choque de realidade, atualizar a cartilha que segue e repensar alguns pontos cruciais de seu discurso, principalmente na área econômica, e sair do mantra "patrão X proletariado", do "burguês X camponeses".  Precisa ainda se desvencilhar de outros movimentos da esquerda velha, como o PCB, PCO e o PSTU, que só existem para receber algum dinheiro do fundo partidário e pagar salário a lideranças que não querem se estabelecer no mercado de trabalho. Alias-se a esses partidos só joga o PSOL na margem do pensamento moderno.

Além disso, o PSOL precisa aprender a dialogar. Impor um pensamento marxista à força só leva o partido à rejeição que já tem. Conversar com quem pensa diferente, falar com o empresariado, pensar formas de adequar as necessidades do Brasil empreendedor ao discurso esquerdista. Dialogar não significa abrir mão de convicções nem esperar apoio de todos, mas mostrar-se conciliador, aberto ao debate. Um movimento de modernização do PSOL passaria obrigatoriamente pelo diálogo com os outros movimentos.

Tendo um discurso moderno e dialogando com todos, o PSOL precisa aprender a se comunicar com quem o queira ouvir. Classe artística, intelectuais, mídia, jovens são públicos prováveis de um novo PSOL, e o partido precisa adequar seu discurso a cada um desses públicos. Insisto: adequar discurso não significa abrir mão de convicções nem esperar apoio de todos, mas sim saber como falar. 

Sim, tenho certeza de que o PSOL tem todo o potencial de ser a nova "cara" da esquerda brasileira, mas pra isso o partido precisa ter a ciência da responsabilidade que isso implicaria, se preparar para isso e se apresentar ao Brasil e ao mundo. A esquerda progressista brasileira ainda é forte e pujante, mas precisa de alguém que a puxe pelas mãos.

Se o PSOL quiser, esse é o momento. 


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Wes Talaveira
Publicitário, escritor e blogueiro há mais de 8 anos, já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião. 

A Garota no Trem - Paula Hawkins | Roda de Leitura #64





Weslley Talaveira


(Atenção: o texto a seguir contém spoilers!)

Rachel é uma profissional de Relações Públicas que coleciona fracassos na vida: perde o casamento e ainda é obrigada a ver Anna, a nova mulher do ex-marido Tom morar na casa que um dia foi sua; se afunda cada vez mais em porres de gim-tônica e vinho de supermercado, o que a leva a perder também o emprego; divide com uma amiga um pequeno apartamento na pequena Ashbury, cidade vizinha a Londres, mas que logo se torna um peso, já que falta o dinheiro do aluguel. Some a tudo isso uma depressão em estágio avançado que mina qualquer força que ainda reste. A única distração de Rachel no momento é tomar todos os dias o trem para Londres e fantasiar histórias com as casas de beira dos trilhos que vê pela janela do trem no caminho. Não todas, na verdade, mas uma casa específica: a casa número 15 e seu casal de jovens moradores, a quem ela resolve chamar de Jess e Janson, mas que depois descobre se chamarem Megan e Scott. Jess e Janson tem, na história fantasiada na cabeça de Rachel, o casamento perfeito: se amam, se protegem e confiam um no outro. Mas, com o sumiço de Megan, Rachel acaba se envolvendo de forma inesperada com a vida do casal e descobre que há muito mais coisas além do que suas histórias inventadas pensavam existir; e o que parecia ser algo distante de repente vira parte da vida de Rachel, o que a leva a entrar num estado de confusão entre realidade e sua imaginação, tudo em meio aos porres frequentes e seus lapsos de memória, que a fazem entrar em situações cada vez mais constrangedoras e perigosas. 


A Garota no Trem é o principal livro de Paula Hawkins, jornalista que trocou o Zimbábue por Londres aos 17 anos e que sempre teve curiosidade em saber o que acontecia nas casas à beira dos trilhos dos trens de Londres. Paula, que escreveu A Garota no Trem como sua última tentativa de emplacar uma história de sucesso, viu sua história tomar o lugar de nomes como O Símbolo Perdido na lista dos mais lidos da Europa, além de virar filme da Dreamworks, ainda a estrear. 

Por prometer ser uma história de suspense elaborada e eletrizante, confesso que esperava um pouco mais do livro. Muito mais do que um romance policial, a história acaba se revelando uma narrativa cheia de elementos psicológicos das personagens, principalmente de Rachel, uma jovem depressiva e problemática que insiste em fazer parte de algo, mesmo que para isso tenha de cometer burrices desnecessárias ("você não pode evitar ser quem é, mas pode evitar fazer o que quer fazer"); Rachel se menospreza o tempo todo diante das pessoas com quem convive, e faz muito pouco esforço para se reinventar, característica dos depressivos. Além disso, há a Anna insegura consigo mesma que depende do amor de um homem para se afirmar e Megan, a jovem cheia de problemas internos que desconta todos seus demônios em relacionamentos superficiais. Isso sem falar em Scott, o controlador que quer ter a vida do outro em suas mãos o tempo todo. 

Além disso, o livro é muito, mas muito pobre em descrições de lugares e pessoas - curioso que sempre reclamo das descrições cansativas em romances policiais, mas quando elas não existem fazem falta. Quase não dá pra mentalizar as personagens, apesar do esforço repetitivo da autora em mostrar uma Rachel feia e malcuidada, ante uma Anna bonita e sedutora, e uma Megan jovem e sexy. O enredo se mostra meio óbvio, principalmente por causa de umas pontas lançadas no decorrer do livro durante as narrações de Megan. Bom, pelo menos pra quem tem o hábito de ler romances policiais, a história soa meio clichê; parece ter sido escrita já com a finalidade de virar filme.

Mas nenhuma dessas críticas tiram o brilho de A Garota no Trem, uma história que conquistou milhares de leitores em 42 países não à toa; prende e te faz querer saber logo o desfecho da investigação. Li em 3 dias, em pé no ônibus, andando na rua, em casa - odeio ler em casa; faltei na academia e peguei ônibus com trajeto mais longo pra voltar pra casa, tudo pra ter mais tempo para saber qual seria a próxima burrada de Rachel. 

Não espere em A Garota da Moto uma história complexa, muito bem elaborada, cheia de reviravoltas nem detalhes, mas recomendo a leitura. É uma ótima indicação inclusive para quem está se aventurando agora nos romances policiais e se perde um pouco em tramas mais profundas.

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Gosta de ler? Gostaria de ter sua resenha publicada aqui no Quem Foi Que Disse? Mande seu texto pra nós! Se estiver realmente bom ele pode ser o próximo! 

Escreva para contato@quemfoiquedisse.com A/C Larissa Oliveira com seu texto e seus contatos de redes sociais. 

O dia em que fui vítima de abuso sexual no metrô | Pessoal #1




Os textos marcados com a tag “pessoal” expressam o ponto de vista, a opinião ou relatos pessoais dos colaboradores do blog. 


Por Larissa Oliveira 


Foi ontem à tarde, mais ou menos umas 18:30. Embarquei na Sé com destino à estação Saúde da linha azul do metrô de SP. Como era de se esperar pelo horário, o metrô estava lotado. Entrei e me espreitei por baixo do braço de uma senhora (ser baixinha ajuda muito nessas horas) pra encontrar um cantinho onde eu pudesse me segurar. Na estação seguinte algumas pessoas desceram e outras entraram. Como eu já disse, o metrô estava cheio, e não tinha como eu ver quem estava atrás de mim. Entre uma estação e outra, percebi um homem próximo demais de mim. Corpo colado nas minhas costas. Tentei ir um pouco pra frente, mas ele acompanhou. Puxei o corpo para a direita e ele puxou também. Fui para a esquerda e ele continuava a se esfregar em mim. A cada movimento dele percebia algo encostar em minha bunda. Me virei enfurecida para falar algo, mas o trem já estava na estação e ele se virou rapidamente para descer, sem me olhar. Não vi o rosto dele. Vi apenas as costas, e sei que era magro e não muito alto. Estava com camiseta polo branca e calça moletom. Não levava nada nas mãos. Só quando ele se foi percebi que minha calça estava molhada. Coloquei a mão e logo percebi. 

Ele havia abusado de mim no metrô e ejaculado na minha calça. 

Comecei a chorar de raiva. Uma mulher do meu lado percebeu o que havia acontecido e me acompanhou na estação Vila Mariana, onde procurei um segurança pra relatar o que houve. Apesar de bem-intencionado, ele apenas perguntou se eu havia visto o rosto dele. Não, eu não vi. Naquela hora ele devia estar longe, rindo da minha cara e satisfeito por ter gozado na bunda de uma gostosa, uma "vadia qualquer" Desisti de registrar qualquer queixa. Embarquei novamente pra voltar pra casa. Só queria chegar em casa e tomar um banho. Me sentia suja. Jogar aquela calça no lixo, cortar, picar, colocar fogo, sei lá. Me senti culpada por estar com uma calça que marcasse tanto a bunda. Me senti culpada por ter um corpo bem definido, por cuidar do meu corpo. Lembrei de todas as vezes em que sou chamada de gostosa, e tive mais raiva ainda. Me senti como se estivesse numa jaula cheia de leões prontos para me devorar e eu não tivesse pra onde escapar. Não conseguia parar de chorar. 

Pra encurtar, desci no metrô Saúde e liguei para minha mãe. Pedi que ela viesse me buscar, não tinha condições de andar sozinha na rua. Cheguei em casa e tomei um banho. Chorei mais no banho, por me sentir tão vulnerável, tão exposta. 

E sabe o que revolta mais? É saber que eu não sou a única. Não fui a primeira nem serei a última. Queria muito sera última a passar por essa experiência horrível! Todos os dias milhares de mulheres tem histórias de abusos no transporte público, seja em SP ou em qualquer outra cidade. Quando isso irá acabar? O que é necessário fazer para que os homens entendam que o corpo de uma mulher pertence exclusivamente a ela, e cabe a ela decidir quem tem acesso a ele ou não? 

Me senti muito mal no dia, mas agora quero apenas que isso acabe. Quero sair de casa com a roupa que eu quiser e ter a garantia que terei meu direito de ser humano respeitado. Não é problema meu se você sente tesão em locais inapropriados. Guarde isso pra você. Se alivie em casa, faça da forma mais nojenta que quiser fazer, mas não me envolva nisso. 

O metrô é público. Meu corpo, não!


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Larissa Oliveira 
É estudante de Direito, paulistana e filiada ao PSDB. Colabora com o blog há 3 anos e cuida das redes sociais da página

"Modéstia à parte" e o narcisismo de Michel Temer | Opinião #74





"Michel Temer demonstra ser o clássico homem inseguro que precisa ser elogiado o tempo todo pra se sentir bem. Pior: como raramente é elogiado - a não ser pelo grupo de puxa-sacos oficiais que ele escolheu como ministro - ele mesmo se elogia."



Wes Talaveira


Michel Temer é, no momento, o dono da bunda que senta na cadeira da presidência da República, o porteiro da maior mansão mal assombrada do Brasil, função que ele sabe cumprir como ninguém - Temer parece ter nascido num livro de Stephen King. Pai do menino milionário Michelzinho e marido do melhor vaso decorativo de Brasília Marcela Temer, Michelzão conta cada dia como uma vitória à frente do governo, isso porque não sabe qual dia será o último.

Michel Pai insiste em falar sempre no "Governo Temer", como se existisse um Governo Temer - Temer é o tampão constitucional para o afastamento da grande chefa. Mas o mais curioso em cada vez que Michel Temer fala é que, além da cara de quem está morrendo de vontade de rir, é a necessidade que ele tem de exaltar as próprias qualidades. Sempre precisa falar em sua "vasta experiência política", no "respeito que conquistou junto aos parlamentares", na "história politica que ajudou a construir" e por aí vai, sempre iniciando com um "modéstia à parte".

Michel Temer demonstra ser o clássico homem inseguro que precisa ser elogiado o tempo todo pra se sentir bem. Pior: como raramente é elogiado - a não ser pelo grupo de puxa-sacos oficiais que ele escolheu como ministro - ele mesmo se elogia. O tempo todo, a cada entrevista ou pronunciamento que faz.

Não considero o impeachment um golpe - isso é o discurso pronto criado pelo petismo para tentar colocar a presidenta como vítima de uma ação orquestrada fora de seu ambiente, como se ela não fosse a principal culpada de tudo o que está ocorrendo no país no momento. Mas não considerar o impeachment um golpe não me torna um admirador de Michel Temer. Até porque é impossível admirar um sujeito desses. Só mesmo a Dilma pra achar que ele seria um bom vice.

Dá medo pensar um homem desses governando o país. 


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Wes Talaveira
Publicitário, escritor e blogueiro há mais de 8 anos, já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião.