Cunha, você tem que sair | Opinião #72




Por Weslley Talaveira

Em um momento tão conturbado como o que estamos vivendo atualmente, pelo menos em um ponto todos - ou a grande maioria - concordamos: apenas o Impeachment da presidente Dilma não vai resolver a corrupção no Brasil. É uma parte, mas não resolve o todo. O impeachment da presidente é o pontapé inicial de um longo processo para eliminar a corrupção desse país, o símbolo de que aos poucos o brasileiro está entendendo que a corrupção afeta a todos. Mas é apenas um pontapé. É preciso muito mais do que isso. 

E qual o próximo passo, após a queda da presidente? O que devemos reivindicar logo em seguida, se for o caso no mesmo dia, após a consumação do impeachment?

O próximo passo tem nome e sobrenome: Eduardo Cunha.

Eduardo Cunha tem que ser preso. 

Já não se trata mais de sair da presidência da Câmara, pois ele ainda teria o foro privilegiado. Nem de perder o mandato de deputado federal, pois ele perderia o foro, mas os crimes não seriam apagados. Agora é questão de cadeia. Eduardo Cunha representa o que há de mais podre, mais mesquinho e sujo da política brasileira. Cunha desviou dinheiro público da forma mais cínica e cretina possível. Cunha é hoje, em uma versão ampliada e moderna, o que foi Paulo Maluf nos anos 2000. Aliás, o cinismo com que Cunha encara as denúncias, os ataques e a Justiça é o mesmo: a mesma cara de paisagem e a rapidez para dar respostas vazias e insistir em uma inocência que nem os cadarços que amarram os seus sapatos acreditam existir. 

Eduardo Cunha precisa pagar pelo dinheiro que desviou do Brasil. 

E por que Cunha ainda está na Câmara? 

Porque poucos na política brasileira conhecem o poder com detalhes como Eduardo Cunha. 

Eduardo Cunha sabe cada detalhe de cada procedimento interno, de cada rito da Câmara. E sabe como se livrar e como livrar aliados. Esse é o tipo de pessoa que qualquer canalha de meia pataca (como a maioria da Câmara) quer ter por perto: alguém que ajude a "livrar a barra". Eduardo sabe fazer isso e cobra o favor, no mais sórdido "me ajuda que eu te ajudo". 

Não há a menor sombra de dúvida: Eduardo Cunha só abriu o processo de impeachment da presidente Dilma por vingança, por ter sido citado na operação Lava-Jato. Ele esperava que, assim como funciona com seus comparsas, o poder que ele carrega nas mãos fosse o suficiente para que o Planalto fizesse algo para limpar sua barra, tipo "me tira dessa que eu preservo seu mandato". 

E isso não aconteceu. 

E ele se vingou. 

Então, porque apoiar o impeachment aberto num ambiente desses?

Por que a forma como o impeachment foi aberta é péssima, mas o processo é legítimo. Não há qualquer golpe num Impeachment, e a presidente Dilma com seu partido sabem disso. Houve crime de responsabilidade, crime grave o suficiente para evar ao impedimento do governante. Usam o argumento do golpe porque é um discurso que encontra coro fácil entre as pessoas que estão indignadas com Eduardo Cunha. Se uma pessoa da pior estirpe como Cunha está na Câmara, qualquer coisa vinda dele não merece crédito. O argumento é fácil e parece imbatível.

Mas precisamos ter calma.

Eduardo Cunha não criou o Impeachment. O STF já deu várias declarações referendando o processo e o próprio Supremo ditou o rito a ser seguido. Dizer que o processo é um golpe é acusar o próprio STF de golpista. Isso é algo grave! Além disso, esse processo de impeachment aprovado pela Câmara não foi criado pelo Eduardo Cunha. Ele apenas deu sequência a um processo aberto pelos juristas Miguel Realli Júnior, Janaína Pascoal e Hélio Bicudo.

Ou seja, nesse processo de Impeachment Eduardo Cunha é apenas a ferramenta que garante o andamento do processo.

Mas isso não o torna "honesto".

Ele precisa sim sair da Câmara e ir para a cadeia.

Precisamos pedir e reivindicar isso. Pressionar nosso judiciário. Não tenho dúvidas de que ele será preso. Mas isso precisa ser feito logo.

Já pensou ele ser preso antes do Impeachment da Dilma acontecer? Que mensagem positiva nosso judiciário daria ao Brasil!

Eduardo Cunha, o Brasil tem vergonha de você! 

Freakpedia #16: Entrevista da presidente Dilma à Ellen De Generes




Não, a entrevista não aconteceu. 

Mas se acontecesse, seria algo parecido com isso:


***


Ellen De Generes: Vamos receber agora a presidente brasileira Dilma Roussef.

(Entra Dilma). 

Ellen: olá, presidente. Seja bem vinda à América. 

Dilma: Olá, Ellen. Olá aos americanos, também. 

Ellen: presidente, a senhora pediu para falar com a imprensa americana, e disse que há algo grave para denunciar. O que é?

Dilma: Olha, no que se refere a questão da situação política do Brasil atual, eu gostaria de denunciar um golpe que está em curso no Brasil 

Ellen: e como é esse golpe? 

Dilma: veja bem: meu vice, aliado ao presidente da Câmara dos Deputados e seu partido, querem me tirar do poder para assumir o governo. 

Ellen: Nossa, isso é sério. E de que forma querem tirar a senhora do poder? Cercaram o Congresso com as Forças Armadas, ou algo do tipo?

Dilma: Não, querem me tirar do poder via impeachment.

Ellen: Hmm, e qual a alegação que dão para o Impeachment? 

Dilma: Olha, dizem que eu cometi crime de responsabilidade ao fazer pedaladas fiscais. 

Ellen: "Pedaladas fiscais"... O que é isso? 

Dilma: No que se refere a questão das pedaladas, seria atrasar o repasse de dinheiro para os bancos públicos com o intuito de "disfarçar" para o mercado financeiro, dando a impressão de que o governo está com despesas menores. As instituições financeiras que financiam alguns projetos do governo – como benefícios sociais e previdenciários – acabam por utilizar o próprio dinheiro para pagar estas despesas, evitando que os beneficiários destes planos sejam prejudicados. Com esta medida, o governo consegue "tapear" o mercado, fazendo aumentar o superávit primário e impedir um déficit primário, que consiste quando as despesas do governo são maiores do que as receitas. Por outro lado, as dívidas do governo com os bancos e instituições financeiras aumentam. E tudo isso é proibido pela Constituição Brasileira. 

Ellen: e a senhora fez isso? 

Dilma: Bem, fiz, mas... 

Ellen: Mas então a acusação é legítima? 

Dilma: Sim, mas... Mas todo mundo no Brasil faz isso. 

Ellen: Todo mundo quem? 

Dilma: Meus antecessores fizeram, todos os governadores de estado fazem todos os anos. Por que só eu seria punida? 

Ellen: Mas o fato de todos os outros fazerem não legitima o fato de a senhora fazer, não acha? 

Dilma: não, mas é que... Cê sabe, estão me perseguindo. 

Ellen: Quem está te perseguindo?

Dilma: A imprensa, a Direita e o PMDB, o partido do Michel.

Ellen: Quem é Michel?

Dilma: Meu vice. Ele e o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha querem me tirar do poder.

Ellen: Realmente, são duas forças poderosas contra a senhora. Ainda há alguém apoiando a senhora no Brasil?

Dilma: Sim, bastante gente. Meus ministros estão ao meu lado, alguns saíram, mas os que ficaram estão ao meu lado. Meu partido me apoia integralmente, há outros partidos de esquerda em minha defesa e uma parte da população está ao meu lado. 

Ellen: E mesmo com um apoio tão amplo a senhora se sente perseguida, é isso? 

Dilma: Sim. Há uma perseguição contra mim e contra meu partido, o PT.

Ellen: e o PT está no poder há quantos anos?

Dilma: Treze anos. 

Ellen: E mesmo sendo perseguido o partido conseguiu ficar todo esse tempo no poder?

Dilma: É...

Ellen: E como conseguiu chegar à ONU hoje? 

Dilma: No avião das Forças Aéreas Brasileiras. 

Ellen: E quem ficou no seu lugar no Brasil?

Dilma: Meu vice.

Ellen: O tal "Michel", o mesmo que quer tomar seu lugar?

Dilma: Sim.

Ellen: Mas não há um golpe ocorrendo no país? Como a senhora consegue sair do país e ainda usar a Força Militar do seu país para viajar tranquilamente? 

Dilma: Bom... 

Ellen: E como a senhora viaja e deixa o organizador do golpe no seu lugar? Não tem medo de ele aplicar um golpe de Estado enquanto a senhora estiver fora para destituí-la do poder?

Dilma: Não, as instituições brasileiras são sólidas, isso é impossível acontecer. 

Ellen: Então, isso não me parece clima de golpe. 

Dilma: Olha, minha filha, cê não quer acreditar não acredite. Mas há sim um golpe ocorrendo no país. 

Ellen: Presidente, em clima de golpe o presidente mal consegue sair da cadeira para ir ao banheiro. Em clima de golpe todo o entorno do presidente conspira contra. A senhora tem ao seu lado as Forças Armadas, seus Ministros, seu partido. A senhora consegue viajar tranquilamente com a garantia de que vai conseguir voltar e assumir o mandato de novo. A senhora veio pedir asilo nos EUA? 

Dilma: Não, não preciso de asilo. 

Ellen: Então não há golpe, presidenta. Pelo que a senhora mesma disse, há um crime de responsabilidade cometido pela senhora e um processo de punição correndo no Parlamento do seu país. Não há golpe nisso. 

Dilma: Mas o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que foi quem autorizou a abertura do processo de impeachment, tem dinheiro na Suíça e responde por vários crimes. 

Ellen: Sim, a reputação dele não é boa por aqui. Mas esses crimes cometidos por ele têm relação com a abertura do processo de impeachment? Ele usou esse dinheiro da Suíça para comprar votos dos deputados para conseguir apoio ao impeachment? 

Dilma: Não. 

Ellen: E ele está sendo investigado por essas denúncias? 

Dilma: Sim, a Polícia Federal brasileira  e o Supremo Tribunal Federal tem uma investigação aberta contra ele. Ele corre risco de ser preso a qualquer momento. 

Ellen: E no processo de votação do impeachment ele não usou o dinheiro da Suíça, e apenas usou da atribuição de presidente da Câmara para abrir o processo e deixar que a Câmara fizesse o resto, certo? 

Dilma: (silêncio). 

Ellen: Presidenta, me desculpe mas não vejo nenhum tipo de golpe ocorrendo no seu país. A senhora tem sim o direito de se defender, mas acusar um processo embasado em crime e amparado na Constituição do seu país não é golpe. 

Dilma: Sua golpista, cê deve fazer parte do PIG.

Ellen: O que é PIG?

(Entra o comercial). 

Bela, recatada e do lar | Opinião #71


Sandy Leah. Fonte: GShow


Tayhnar Petrovna

Por isso que eu gosto do Quem Foi Que Disse?: há menos de dois meses o blog publicou uma série incrível sobre o feminismo, com textos maravilhosos. Hoje me cede espaço pra criticar o feminismo... Isso é democracia. Aprendam, militantes partidários! 

A polêmica do momento - entre tantas outras que povoam a internet todos os dias - é a reportagem da Veja sobre a esposa do vice-fazendo-de-tudo-pra-ser-o-próximo-presidente do Brasil Michel Temer. A reportagem fala da rotina da Vice-Primeira Dama Marcela Tedeschi Temer, sobre o relacionamento dela com o marido que tem idade pra ser avô, mas isso é assunto deles e eu não tenho que me meter nisso, apesar de dar uma vontade enorme de comentar, entre outras coisas. A reportagem em si, apesar de ter um nível de entojo digno das reportagens de Caras, causou polêmica pelo título: bela, recatada e "do lar" (sim, com aspas). O movimento feminista, com todo o barulho que sabe causar, e na maioria das vezes em causas realmente dignas e nobres, começou a condenar a reportagem, dizendo que isso é uma crítica à liberdade que toda mulher tem de ser o que ela quiser, seja "recatada", seja puta, seja menininha, seja piriguete. Segundo as feministas (e um bom número de gente que nem sabia direito do que se tratava mas embarcou na história pra aproveitar e publicar aquela foto devassa que adorava mas não tinha coragem de postar com medo das críticas dos amigos) o título "bela, devassa e do lar" só reforça o estereótipo conservador brasileiro da "mulher certa", da mulher "pra casar", da mulher "que se dá ao respeito", fazendo com isso um juízo de valor sobre as mulheres que não se encaixam nesse padrão, mas que merecem o mesmo respeito. 

Sim, concordo totalmente com o movimento quando diz que existe um pensamento conservador no  Brasil que separa as mulheres em mulheres "pra casar" e mulheres "pra curtir". Esse pensamento retrógrado realmente faz parte do imaginário masculino e qualquer mulher que não faça parte do perfil "pra casar" já ouviu algo do tipo em algum momento da vida. Ainda se mantém a cultura de que a mulher que cuida da própria vida, que faz o que quer sem ter de se sujeitar a aprovação de ninguém é uma mulher "avançada demais", que só serve para o momento, pois essas mulheres "não sabem ser fieis", são "piriguetes", "vadias", e etc. O juízo de valor (imposto não só pelos homens, mas muitas vezes pelas próprias mulheres) sobre o comportamento feminino não é novidade pra ninguém. 

Mas na boa? Não vi nenhum juízo de valor na reportagem da Veja. Excesso pela ânsia de vômito que a matéria causa (os apelidos carinhosos "Mar" e "Mi" são de lascar!), não vi nenhuma crítica a qualquer tipo de comportamento feminino. A reportagem falou sobre a personalidade da Marcela Temer. É uma reportagem dedicada a ela. Se a reportagem serve como propaganda do Temer, pra mostrar como o Temer é um bom homem e conseguiu construir uma "família perfeita" - e fica nítido que o objetivo da reportagem é esse mesmo - é outra coisa bem diferente. Ela é, realmente, uma mulher "bela, recatada e do lar", o tipo perfeito da "menina comportada". Ela é assim, nasceu assim e vai ser sempre assim Gabrielaaaa. Em nenhum trecho a reportagem diz qualquer coisa sobre ela ser o tipo "ideal" de mulher. Só fala como a Marcela Temer é. 

Além do mais, o que eu senti em várias publicações foi um outro tipo de preconceito: contra a mulher "bela, recatada e do lar". Se todas temos o direito de sermos como queremos ser, a menina "boazinha" também tem o direito de ser assim. Se a menina quer ser religiosa, ajudar a mãe, não beber álcool, ficar em casa no sábado a noite ou sair com outras amigas tão boazinhas como ela, se ela quer cozinhar para o marido e lavar a roupa dos filhos, enfim, se ela quer ser "careta" (sem o sentido pejorativo da palavra), ela tem o direito de ser assim. As "modernas" não tem o direito de pressionar ninguém a ser como elas são. Se a menina quer ser "boazinha", que seja. Ela não necessariamente é "santa do pau oco", "hipócrita". Ela só é boazinha. Simples. A Sandy construiu uma carreira milionária sendo o modelo perfeito de menina "boazinha" e todo mundo aceita numa boa. Por que a Marcela Temer não pode ser? Por que no atual momento ela cometeu o grave erro de ser casada com o Temer? Tá, eu não casaria com o Temer nem que ele fosse o último ser humano da Terra, mas isso foi uma escolha dela. 

Num momento tão delicado como o atual, em que todo mundo tá de ânimo exaltado e distribuindo porrada em qualquer um que pense diferente, precisamos tomar muito cuidado pra não criar polêmica em cima do que não existe. A bronca pessoal do movimento esquerdista contra uma revista claramente de Direita mas que não assume isso de jeito nenhum não pode servir de combustível pra polêmicas vazias. Até porque polêmica vazia é coisa dos direitistas reaças bolsomitos. 

A campanha pelo direito da mulher ser o que ela quer ser é linda e deve continuar. Só precisa ser criada pela motivação certa. 


***


Tainar Petrovna tem 23 anos, mora em São Bernardo do Campo, é filiada à Rede Sustentabilidade.

Um outro olhar sobre a prostituição | Profissão Prostituta #1



Isabelle Bitencourt, acompanhante de SP. Foto: André Oráculo



Wes Talaveira





Acabamos de sair do Carnaval, época do ano em que "tudo é liberado", onde é permitido beijar na boca à vontade, transar como se não houvesse amanhã sem sequer perguntar o nome, perder a conta de quantas mulheres se "pegou" numa noitada, com uma única recomendação: use camisinha. Desde que o preservativo esteja na carteira, a permissividade é total, e até elogiada por alguns "comentaristas". 

E não, não sou contra nada disso. Você é adulto e livre pra fazer o que bem entende.  

Mas algumas coisas são curiosas: no carnaval, homens se vangloriam de terem ficado com várias mulheres, de terem transado loucamente e levado para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. A quarta-feira de cinzas é o dia oficial de contar aos amigos as "aventuras" do feriado: com quantas saiu, qual delas foi para a cama, como foi o sexo, se ficou ou não com o telefone de alguma, e por aí vai. Por que? Porque o sexo nesse caso é apenas um momento de diversão, serve apenas para relaxar, para se divertir, sem qualquer compromisso de relacionamento. Sexo e amor são coisas completamente diferentes, suprem necessidades diferentes no homem, e essa diferença fica muito explícita no carnaval - aliás, muitas coisas ficam explícitas no carnaval... 

Pois bem, vou pegar uma frase do parágrafo acima pra chegar onde quero chegar: você levou para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. Isso é errado? Na minha visão, não. Mas se essa mesma mulher, essa que aceitou transar com você sem qualquer compromisso posterior resolve cobrar por isso, vira uma "vagabunda", "mulher da vida", "puta", dentre outros vários adjetivos que se queira dar. 

Sim, meus amigos, a prostituição é uma realidade da nossa sociedade. Elas estão por aí, nos flats, nos bares, na internet, oferecendo aquilo que elas sabem fazer de melhor: sexo. Porém ainda carregam um pesado estigma social pelo simples fato de cobrarem por algo que muitas outras fazem de graça: suprir a necessidade sexual de outros.

É interessante: vivemos numa sociedade que se diz "evoluída", "aberta" e sem preconceitos, onde tudo é permitido e o que conta é a consciência de cada um no momento de escolher o que é o melhor ou não para si, mas se uma mulher resolve, de livre e espontânea vontade, sem a pressão de um "agenciador", usar o próprio corpo para proporcionar prazer e cobrar por isso, ela perde completamente qualquer status social que uma mulher "digna" possa ter. Por que? "Nossa, ela cobra por sexo". Tá, e daí? Ela está ganhando o dinheiro dela trabalhando com uma necessidade humana: a necessidade de sexo. 

Todos nós, desde Alexandre Frota ao padre Fábio de Melo, passando por Inri Cristo, temos desejo de sexo. Tesão é uma sensação humana (e tesão é nome científico, tá?) inerente ao nosso biológico, uma necessidade como outra qualquer. Sentimos vontade de rir, de viver aventuras e de transar. Temos os comediantes que nos fazem rir, parques e passeios que proporcionam aventuras, mas se uma profissional resolve proporcionar sexo vira uma vagabunda. Dizem até que a prostituição - nomezinho esse carregado de um estigma pejorativo horrível - é a profissão mais antiga do mundo. Sabe por que? Muito antes da necessidade de jogar vídeo game, de falar no celular, de ver TV, de ir ao cinema, temos vontade de fazer sexo. Sexo é uma necessidade básica. Se uma pessoa percebe que faz os outros rir com facilidade se dedica ao humor e pode inclusive vir a se tornar um grande humorista. Se uma pessoa percebe que gosta de lidar com o corpo humano, gosta de lidar com a saúde das pessoas, estuda medicina e pode vir a se tornar um bom médico. Mas se mulher que gosta de sexo, que percebe ter a beleza necessária para chamar a atenção e não tem qualquer tabu com relação ao sexo resolve fazer disso um mercado a ser explorado, vira "mulher da vida". 

Sim, vivemos num mundo capitalista, onde se cria necessidades para se vender facilidades. Mas, curiosamente, a necessidade que não se cria, se é intrínseca ao ser humano, que vem conosco desde o nascimento, é exatamente a mais reprimida. A série O Negócio, exibida em 2013 pela HBO, mostrou na ficção o que existe na realidade: um mercado de desejo sexual a ser explorado, e mulheres inteligentes e bonitas querendo explorar esse nicho. O sexo, nesse sentido, vira um produto a ser vendido. Totalmente sem romantismo, não? Mas há algum crime nisso? 

O que estou tentando dizer - não sei se consegui ser claro, o tema é mais complexo do que se imagina - é que vivemos numa sociedade hipócrita, onde o sexo serve está presente em tudo (na propaganda, na TV, no comércio, nos esportes), mas se alguém resolve fazer uso profissional dele para viver é tachado de "imoral". Como assim, imoral num país onde o carnaval é recheado de conotação sexual do primeiro ao último dia? Como assim imoral num país que se orgulha de ter as mulheres mais bonitas do mundo? Meu amigo, imoral é usar da boa fé de inocentes para conseguir vida fácil, e se tem alguém que não tem vida fácil são as profissionais do sexo, ou as "acompanhantes", todos os dias expostas aos mais diversos tipos de homens, dos mais diversos tipos de temperamentos e expectativas. 

Alguns vão argumentar que nem sempre as acompanhantes são as mulheres inteligentes e bem resolvidas consigo mesmo como descrevi acima. E é verdade. Existem, sim, mulheres que vivem em regime quase escravo, sendo forçadas por um cafetão cruel a transarem com homens nojentos em troca de um tratamento dentário ou de um café da manhã nos interiores do Brasil. Existem adolescentes que mal menstruam e já entram no submundo da exploração sexual. Sim, isso existe, é crime e deve ser combatido. O que não dá é pra comparar a exploração sexual com o trabalho de moças que optam, por livre vontade, por trabalhar com o sexo. São coisas totalmente diferentes. 

Um dos problemas que surgem quando falamos em prostituição é a visão que temos do sexo. Ainda influenciados pela nossa cultura mergulhada nas tradições cristãs, vemos o sexo como algo super importante, romântico, quase sagrado, e que deve ser respeitado.  Existe toda uma visão romantizada do sexo, uma visão religiosa que o vê como complemento do amor. E acredito nisso também. Não há amor sem sexo, mas há sim sexo sem amor. São coisas diferentes. Se você tem alguém que ama, com quem compartilha sua vida, irá desejá-la e querer transar com ela. Se não tem, irá querer satisfazer sua necessidade de sexo do mesmo jeito. Que seja então com alguém que está lá apenas para isso, que tem a cabeça aberta o suficiente pra entender sua necessidade, assim você não cria expectativas em ninguém, nem machuca o coração de ninguém. Quer amor? Encontre uma companheira. Quer apenas sexo? As acompanhantes estão aí pra isso.

Só tem uma coisa: tanto a companheira como a acompanhante tem o mesmo direito de serem tratadas como mulheres, com o devido respeito à sua integridade. Um cara que é babaca com uma acompanhante provavelmente o será também com namoradas, amigas e etc. Boas maneiras cabem em qualquer situação. 

Mais amor, e mais sexo, por favor!

Francieli Martins | BloGirl #4




Por Wes Talaveira

Sim, o BloGirl vem cumprindo sua missão mês a mês. Mais do que apenas mostrar garotas bonitas do Instagram, nossa intenção é mudar a forma como a beleza feminina é admirada.

E se o assunto é admirar a beleza feminina, a convidada desse mês é o exemplo perfeito. Francieli Martins tem 23 anos (mesmo com essa carinha de 16 que enganou até o blogueiro... rs) e mora no Espírito Santo. A beleza dela é difícil de definir. O rosto de menina te faz querer protegê-la como se fosse uma boneca de porcelana frágil. Protegê-la de um mundo tão cruel, que não sabe como receber tão doce garota como ela. O primeiro impulso é vê-la como uma doce menina que não sabe das malícias da vida e das pessoas, uma menina que só tem olhos para as coisas boas da vida, pois ela também é uma dessas coisas boas. Ela é muito mais do que uma garota comum, ela é a garota que desperta em nós os mais puros e belos sentimentos de proteção. 


Por tudo isso, a Francieli Martins é a BloGirl desse mês.















































Todas as fotos foram retiradas do Instagram da Francieli Martins, com autorização da mesma.


***



A série BloGirl tem a tarefa de, mais do que publicar ensaios sensuais, reeducar os homens na forma como admirar a beleza feminina, com ou sem nu. Como? Expondo a beleza delas e ensinando os homens a admirar da forma certa.

Temos uma política de publicação específica para essa coluna. Saiba mais aqui. Quer participar da coluna? Envie e-mail para contato@quemfoiquedisse.com A/C Larissa Oliveira com seu perfil no Instagram. 

Não, nem todo homem é machista | Opinião #70




Weslley Talaveira


Semana passada recebi pelos contatos do blog o seguinte e-mail:

"Boa tarde!

Li todos os posts da série Mulheres com Novas Ideias que vocês publicaram. E não posso deixar de falar da minha indignação com tanta hipocrisia desse blog ao falar da causa feminista. Não pelos textos que foram ótimos, mas pela iniciativa ter vindo de um homem. Esse blogueiro agora resolve "dar espaço" pras mulheres. Quem ele acha que é? Homens são nojentos, patifes, seres da pior espécie que deveriam ser eliminados da face da terra. Que que é? resolveu ser "bonzinho" e "ceder um espacinho" no seu ilustre blog pra que algumas mulheres falem, essas loucas que só podem ter espaço se ele for cedido por homens de boas intenções como você? Vocês não me enganam, machistas de merda. Não passarão. Não duvido que você olhe bunda de mulher na rua e que não seja um babaca que vive de ler Playboy e se deliciar com a degradação de mulheres pelo mundo. Sai do Redtube e faça alguma coisa útil, seu idiota. Não queremos o apoio de homens. Não queremos vocês do nosso lado. Vcs do nosso lado é como militares em favor da democracia. Vocês são o lado de lá, o que queremos e vamos derrubar custe o que custar. Mulher de verdade não precisa de homem pra se estabelecer. Mulher de verdade não precisa da caridade de macho nenhum. Mulheres de verdade não precisam de homens nem para o sexo, só ver como o movimento LGBT está ficando forte. Somos fortes, como Frida Kahlo foi, e podemos escrever sozinhas, podemos publicar testos sozinhas. Você não sabe o que é sofrer com o machismo. Você não é oprimido. Pelo contrário, você é dos que oprimem. Os piores são os que se dizem estar do nosso lado, que se mostram como "bonzinhos". Vai ser bonzinho com sua mãe. Aqui você vai encontrar luta e resistência. E as meninas que escreveram nesse blog: vocês envergonham a causa, ao se deixarem manipular por homens. Acordem, girls!"

Sim, o e-mail é anônimo, como não poderia deixar de ser. Os erros de português foram mantidos na íntegra. 

Na verdade eu nem ia responder, principalmente porque os ataques são direcionados quase exclusivamente a mim e eu não me preocupo nem um pouco com essas coisas, mas como sei que as críticas dela são na verdade as críticas de muitas outras, vamos tentar conversar um pouco: 
  • Em primeiro lugar, realmente eu não sei o que é sofrer com machismo, já que não sou mulher. Realmente não sei como é o medo que vocês sentem quando encontram um homem numa rua escura à noite, não sei o que é ter de proteger o corpo no metrô para não ser abusada por nenhum homem. Não sei nada disso, e se eu tentasse falar sobre isso seria algo no mínimo desonesto. Por isso convidamos mulheres para participarem da série, assim como foi em todos os seis anos em que o "Mulheres com Novas Ideias" foi publicado. Pra entender o que uma mulher sente, só perguntando pra ela. Foi o que fizemos.
  • Segundo: a pessoa que escreveu cometeu o erro clássico do fanatismo - a generalização. Para o corintiano fanático, todo são-paulino é "bicha" e todo palmeirense merece morrer. Para o petista fanático, todo crítico ao PT é "tucano". Para o direitista fanático, uma simples camiseta vermelha é sinal de comunismo. Para o religioso fanático, toda pessoa que não segue aquela religião é um "perdido". E para a feminista fanática todo homem é um "opressor". Já dizia Nelson Rodrigues que "toda generalização é burra". Existem homens babacas? Sim. Eles são em grande número? Sim. Todos os homens são babacas? Não. 
  • Terceiro: feministas como a pessoa que nos enviou o e-mail precisam definir qual o objetivo real da luta - vocês lutam contra o machismo ou contra o gênero masculino em geral? Se a luta é contra o machismo, e concluindo que nem todo homem é machista, é importante que vocês tenham ao seu lado homens. Assim como há héteros que lutam a favor da causa gay. Ter ao seu lado a mesma pessoa que poderia ser um virtual agressor enriquece o debate e fortalece a causa. Mostra que o debate não está restrito a um grupo específico, mas que é uma demanda de todos. Ter héteros que defendam a causa gay mostra que a luta não é um movimento dos gays, mas da sociedade em geral. Ter homens defendendo a liberdade da mulher e falando sobre o assunto é a mesma coisa. A luta passa a não ser apenas das mulheres, mas da sociedade.  

Os demais "questionamentos" não merecem ser respondidos pois não passam de ofensas e ataques pessoais e gratuitos típicos de quem precisa usar fakes pra dar opinião.

Aliás, só pra concluir: esconder-se atrás de um fake ou de um pseudônimo pra criticar é algo tão antigo e tão manjado que nem assusta mais. Se a pessoa que enviou o e-mail estiver afim de conversar melhor, mostre a cara e podemos abrir um novo especial no blog pra isso, se for o caso. Mas fale de cara limpa. Mostre quem você é de verdade. Seu nome e sobrenome, cidade onde mora, se pertence a algum coletivo feminista e qual é esse coletivo. Vamos conversar sim, mas como pessoas reais. Debater com fakes é perca de tempo. 


***


Atualização:

Após a publicação do texto acima o blog recebeu diversas manifestações de apoio. Divulgaremos algumas abaixo:


"Isso é ridículo, esse tipo de pensamento enfraquece o movimento é faz com que quem olha por fora ache que toda feminista é "feminazi". Além de ser contraditório, quem luta pela igualdade de gênero jamais deveria querer que um gênero se sobresaia sobre o outro. É importante os homens que são a favor do movimento também se expressarem, pois isso fortifica, mostra que é uma causa da sociedade. Além do mais, os argumentos da menina são ridículos: se todo homem é machista só porque nunca passou por esse tipo de opressão, então todo branco é racista, todo hétero é homofóbico, td não imigrante é xenofóbico e assim vai, logo, essa alegação é ridícula. "

"São pessoas como a garota do e-mail que afastam gente bem intencionada do movimento feminista. O fanatismo está presente em qualquer corrente de pensamento, seja política, religiosa. Ser feminista é necessário. Ser fanática é prejudicial. Os homens nos apoiam? Maravilha, que venham e tragam mais. Essa é uma luta de todXs"

"Se defendemos que nenhum gênero pode se sobrepor ao outro, não podemos diminuir os homens. Somos iguais, não melhores. A moça que enviou o e-mail parece confundir luta feminista com seus problemas internos com a masculinidade. Resolva isso com você mesma, depois venha militar pela causa".