Já passou o Natal, e agora?


Bom, o Natal já passou, todo mundo fez seus votos de felicidade, paz e todas essas coisas de sempre. Todo mundo comemorou o Natal de alguma forma: em família, com amigos, sozinho, em casa, na praia, no trânsito. Enfim, o Natal ja passou e o dia 26 com cara de segunda feira fora de época enfim chegou. Agora é curar a ressaca da Ceia e se preparar para o Reveillón, certo?

Bom, é mais ou menos isso. O problema é que todo fim de ano trás consigo promessas de mudança, de renovação, mas tudo continua igual como sempre. Inclusive as comemorações de fim de ano são sempre iguais. Prometemos perder peso, ganhar dinheiro, dar mais atenção à família, trabalhar menos e ficar mais tempo com os filhos. E logo no dia 2 de janeiro você percebe que suas promessas provavelmente não serão cumpridas. Mas a gente leva o ano assim mesmo, empurrando com a barriga e desejando que ele acabe logo pra renovar as promessas para o ano seguinte. Isso se chama vida, pra alguns. 

Eu, pelo contrário, nunca fiz promessas de fim de ano. Nunca fui de prometer emagrecer (dá pra perceber, alguns vão dizer... rs), nem nada disso. Sempre preferi deixar que as coisas tomassem seu rumo e ir navegando conforme a maré se apresentar. Até deu certo por um tempo, mas depois percebi que viver sem propósitos também é outra forma vazia de levar a vida. Tentei levar minha vida sem planos nem projetos. Simplesmente fui vivendo, sem sonhos, sem nada a perseguir. E percebi que não estou chegando a ligar nenhum, talvez por não saber onde quero ir. Já diz o ditado que "quem não sabe o que procura não percebe quando encontra". Eu estava levando as coisas assim. 

Por isso me dou ao luxo de mudar tudo esse ano e fazer promessas de ano novo. Sim, preciso emagrecer, como todo mundo diz, mas meu caso é questão de saúde, já. Virei um obeso - um beijo do gordo, UOU! Pra isso vou procurar ajuda especializada, uma endócrino e nutricionista, e entrar em alguma academia - apesar de eu ODIAR o ambiente supérfluo das academias, cheias de músculos inflados e cabeças ocas, sem falar nas siliconadas exibindo seios enormes em tops minúsculos (tá, assumo, eu também gosto de ver! Sou homem, porra!). Vou tentar vencer esse preconceito e adotar o estilo fitness. 2014 vai ser um ano de mudanças na minha vida profissional, e minha vida pessoal vai ter que acompanhar. Pra isso, vou tentar vencer outro preconceito: o inglês. Sim, eu não tenho a menor paciência para aprender inglês, mas já estou sentindo na pela a falta que me faz conhecer o idioma dos Simpsons. Quem sabe não engate um espanhol, também? 

Mas eu sei que essas são mudanças cosméticas, que resolvem parte do problema. Basear meu 2014 apenas em poucas promessas é como resolver o problema da saúde no Brasil só contratando mais médicos. Aliás, fizeram isso... Mas enfim, preciso mudar minha forma de ver a vida. Mudar a forma de me ver. Cobrar menos de mim mesmo, ser menos exigente. Parar de pensar um pouco em como as pessoas me veem e me preocupar mais com o que me faz bem. Foi o que minha psicóloga disse... rs Parece fácil, mas não é. Só que eu tô tentando, juro.

Enfim, acho que chego a hora de mudar algumas coisas na minha vida. Não vou relatar mais porque tem gente lendo isso. Mas espero que algumas dessas mudanças sejam visíveis. Se não as mudanças interiores, pelo menos o tamanho da barriga... rs

E que 2014 seja um ano de mudanças na vida de todos, não por causa das promessas de Reveillon, mas porque mudanças são necessárias. 

Abraços a todos e até 2014!

Só mais uma vez


Ah, se eu pudesse...

Se eu pudesse, te daria mais uma vez o beijo que te dava todos os dias antes de sair de casa. Se eu pudesse, queria ver mais uma vez sua cara desconcertada cada vez que recebia um elogio. Se eu pudesse, mais uma vez iria deixar você me trazer leite quente na cama antes de dormir. Se eu pudesse, gostaria de ficar resfriado mais uma vez só pra receber aquela atenção que sempre recebia. Se eu pudesse, fingiria que estava esquecendo o agasalho em casa só pra te ver de novo falando "pega a blusa!" Se eu pudesse, queria mais uma vez brigar com minha irmã pra ouvir o seu sermão repetido anos a fio sobre respeitar e proteger a irmã mais nova. Se eu pudesse, queria mais uma vez ver sua cara de preocupada por eu não ter atendido o celular quando você tentou falar comigo. Sim, eu gostaria de ver de novo sua emoção quando aprendi a escrever. Queria de novo que você me levasse à escola, que me comprasse doces, que me levasse pra passear. Queria ver de novo sua emoção quando consegui o primeiro emprego e sua cara de ciúmes quando levei em casa a primeira namorada. Ah, eu daria de tudo pra te desejar boa noite de novo, antes de dormir. Queria tanto poder acordar tarde no sábado e te encontrar já cuidando de tudo em casa. Poder ligar em casa da rua e ouvir seu "alô?".

Só mais uma vez. Uma única que fosse.

Mas eu sei que não terá mais uma vez. Pelo contrário, sua presença foi substituída pelo maldito "nunca mais", esse ser que tem o poder maléfico de tornar a ausência um fardo quase insuportável, que nos faz entender na prática o que significa a tal sensação de vazio que os psicólogos tanto falam, que transforma a saudade numa angústia terrível que nos faz ter vontade de sair na rua gritando seu nome feito loucos, te procurando em todas as portas e becos, na esperança de te ver de novo, assim como quando eu me perdia no supermercado e saia desesperado e te encontrava em alguma seção tranquilamente olhando produtos que nunca comprava, lembra? 

Sabe o que doi? Não ter um refúgio. Pois uma coisa era certa pra mim: se tudo na minha vida der errado, se todos me virarem as costas, se todos meu amigos me abandonarem e eu virar persona non grata onde antes era querido, eu poderia bater à sua porta a qualquer hora sem medo, pois seria recebido com um sorriso. Mas não terei mais isso. 

Me sinto como se estivesse descendo uma escada íngreme sem corrimão. Dá pra descer, mas é bem mais difícil, o medo de cair é grande. Não tenho mais sua mão pra segurar. Ou como se estivesse numa corda bamba sem qualquer equipamento de segurança. Não tenho mais conselho pra receber. Tenho que caminhar com meus próprios pés. Assim tem sido minha vida.

Mas uma coisa é certa: vou seguir em frente mesmo sendo difícil, mesmo na corda bamba, mesmo na escada sem corrimão, pois é isso que você iria me dizer, se pudesse. Eu sei disso. Se pudesse, iria me mandar parar de lamentar e ir à luta, pois a vida segue pra mim. E segue mesmo. Com um vazio enorme, mas segue. Vou continuar, agora colocando em prática cada um daqueles conselhos que você me dava e eu nem prestava muito a atenção. Vou honrar seu nome e sua história. 

Nunca mais vou te ver. Mas eu queria.

Pelo menos mais uma vez.

Fim de ano, ou a arte de protelar


Hoje vi na porta de uma igreja um anúncio curioso. A igreja estava distribuindo panfletos onde as pessoas poderiam listar aquilo que desejam mudar em sua vida a partir de 2014, e aquilo que desejam realizar no novo ano. 

Sim, que o final de ano é a época sagrada para se fazer planos, isso ninguém discute. Mesmo que os planos sequer saiam do papel em janeiro, ou que mal sobrevivam ao mês de fevereiro do ano seguinte, todos tem sua listinha de realizações, de conquistas que desejam para o próximo ano, todas pensadas com muita determinação e empolgação em dezembro. Mas o que me chama a atenção, e me chamou em especial nesse anúncio dessa igreja, é a expectativa que as pessoas colocam no futuro. Seja o ano novo, seja a segunda feira, temos o hábito de prorrogar realizações, de colocar em datas futuras uma carga pesada de expectativa, que nem sempre se concretiza. Pois uma coisa é certa: muito provavelmente você não vai começar nenhum regime a partir de 2 de janeiro, nem vai adquirir o hábito de frequentar academia, ou visitar seus pais com mais frequência. Sabe por que? Porque protelar é apenas uma forma de justificar para si mesmo o fato de ainda não ter feito uma coisa que você sabe que precisa fazer.

Quem protela sempre tem uma desculpa pronta. Pra que esperar até 2 de janeiro se dezembro ainda está começando? Pra que esperar 2014 se ainda temos em 2013 a quantidade de dias o suficiente para iniciar a mudanças que queremos?  Quer fazer academia? Se matricule esse ano. Quer começar acompanhamento médico? Eles ainda estão atendendo. Quer dar mais atenção ao seu filho? Ele está aí perto de você. Quer ligar mais aos seus pais O telefone que você usaria em 2014 é o mesmo que você pode usar agora. Não deixe para amanhã o que ainda dá tempo de fazer hoje. 

Pare com essa mania de planejar tudo para o dia seguinte, para a segunda feira, para o ano novo. Primeiro de Janeiro é uma data comum do calendário, nada mais que isso. Não existe nenhum sistema cósmico que muda quando um novo ano começa, nem há qualquer força superior que se renova com o começo do ano. O mundo é o mesmo, e sua vida também será, se você continuar a empurrar com a barriga para 2014. Até porque, quando você menos esperar, a copa de 2014 já terá passado, as eleições terão se concluído e a Dilma deixará o governo (que os anjos digam amém!) e você estará fazendo novamente para 2015 as mesmas promessas que fez agora para 2014.

Repito: pra que deixar para realizar coisas em 2013 se ainda temos um mês completo em dezembro? Comece hoje, e faça de 2014 apenas uma sequência da sua rotina.

Start now! 

Quando a ideologia vai para o espaço - carta aberta a Ari Friedenbach


Vereador Ari Friedenbach,

É triste dizer que perdi a consideração que tinha pela sua pessoa como parlamentar. V. Sra foi eleito vereador de São Paulo pelo PPS em 2012 para ser oposição à já inflada base governista do prefeito Haddad, que já conta com 40 dos 55 vereadores da capital. E eis que, no meio do mandato V. Sra resolve mudar de partido e migrar para o recém-formado PROS, que até então sequer tinha atuação na capital. E sua justificativa em seu site só piora as coisas: no PROS V. Sra. será presidente do diretório municipal. 

Vereador, mudar de partido no meio do mandato e migrar para um partido nanico novo com cara de velho, que foi criado com a clara intenção de negociar segundos na TV em troca de cargos e privilégios é a prova de que fidelidade partidária é algo em extinção no país. Pior: V. Sra se deixou ser peça de uma manobra partidária dentro da câmara com o intuito de enfraquecer a já pequena oposição. Pior ainda do que mudar de partido é mudar de oposição a base aliada. V. Sra manchou uma história política que poderia ter sido se não brilhante, pelo menos diferente da maioria. 

Desculpe, mas meu voto o senhor não terá mais. Continuo respeitando sua história de vida e engrosso as fileiras dos que lutam por um país onde menos pais passem pela dor que V.Sra passou. Como pai e como defensor da justiça o senhor merece aplausos. Mas sua atuação política deixou a desejar com essa mudança.

Sem mais.

#Crônica: Quero pessoas, não espelhos



Weslley Talaveira

Nesse começo de mês tivemos o tal "dia das crianças". E a empresa em que trabalho tem seu dia das crianças próprio, um dia em que os funcionários levam para o trabalho os filhos de até 12 anos, que passam o dia inteiro envolvidos em atividades voltadas só para elas. E uma das coisas que não pude deixar de notar é como crianças brincam com qualquer outra criança. Vi crianças que haviam acabado de se conhecer correndo juntas pelos corredores da empresa. O que elas sabiam do outro? Provavelmente o nome, apenas, ou nem isso. Crianças totalmente diferentes uma das outras correndo juntas. Negras e loiras, altas e baixinhas, magras e gordinhas, todas juntas. Quando vi aquilo pensei: em que momento da vida passamos a fazer distinção de pessoas?

O ser humano é preconceituoso. Sempre nos vemos tentados a tratar com descaso quem é diferente. O negro é o "preto", a loira é a "aguada", o gordo é o "baleia", o gay é o "bicha", a lésbica é a "sapatão", o transsexual é o "traveco", o deficiente físico é o "aleijado", o deficiente mental é o "doido varrido", o rockeiro é o "drogado", o sertanejo é o "corno" e uma série de adjetivo que, se fossem todos escritos, dariam uma lista se não interminável pelo menos muito grande. Mas curiosamente esse preconceito, que carregamos as vezes sem perceber, não nasce conosco, ou seja, não é uma característica humana. Quer a prova? Essas duas crianças que vi brincando. E não só elas duas. Qualquer criança que você encontrar com certeza não carrega nenhum desses preconceitos. Crianças não perdem tempo perguntando a religião da outra, qual o estilo musical ela gosta ou se é filha de pais gays. Coloque duas crianças que nunca se viram antes dentro de um mesmo quarto e em menos de um minuto elas estarão correndo em alguma brincadeira, assim como aconteceu na empresa em que trabalho. Sabe por que? Para elas a companhia do outro é mais importante do que a bagagem que ela carrega. A criança não está preocupada em saber se o outro crê em Deus Pai Todo Poderoso. Ela quer apenas brincar, e brincar é muito mais importante que qualquer outra coisa. Criança não pede tempo com bobagens como o time de futebol da outra. Criança quer alguém para brincar. Encontrou, ela brinca. Só isso. 

Sendo assim repito a pergunta: em que fase da vida aprendemos a ser preconceituosos?

Acho Jesus Cristo um cara fascinante pela forma simples como ele via a vida. E em um de seus ensinamentos ele falou exatamente sobre ser como criança. Narra a Bíblia que os apóstolos chegaram a ele para perguntar quem seria o primeiro a entrar no ceu - olha a pergunta! Jesus então colocou uma criança entre eles e disse que "quem for como uma criança entrará no ceu antes de todos os outros". E o que ele quis dizer com "ser como criança"? É ver a vida com simplicidade. É entender que se preocupar com o estilo de vida que o outro leva é perca de tempo. De que me interessa saber se a fulana leva homens ou mulheres para a cama? O que vai mudar minha vida se o outro gosta de um estilo musical diferente do meu? Precisamos aprender a viver com as diferenças. E não falo em ser "tolerante", pois pra mim a tolerância é o disfarce usado pela arrogância para parecer algo bom. O tolerante vê o mundo de cima e diz "eu aceito que você seja assim". Eu não tenho de aceitar nada. Cada um faz suas opções. Eu tenho de saber viver com a diferença. Quero desaprender o preconceito. Quero pessoas diferentes de mim. Quanto mais diferente, melhor, até porque não sou muito contente com o que sou, por que iria querer alguém igual a mim? Quero pessoas, não espelhos. 

Hoje em dia é tão difícil encontrar pessoas legais nesse mundo que quando encontro uma nem perco meu tempo perguntando sobre as escolhas da vida dela.  Quero mais é conviver, fazer amizades, estar rodeado de gente. 

E viva as crianças! 

Não te quero mais


Sim, não tenho dúvidas de que Deus criou a comunicação para melhorar os relacionamentos humanos. O diabo, para estragar o que Deus fez, criou o SMS, o malditos torpedo que por várias vezes faz jus ao nome: explode e detona tudo o que encontra pela frente. Inclusive os relacionamentos.

Ela: Renato, preciso falar com vc

Ele: Pd falar, amr,

Ela: Ñ dá + pra gente continuar juntos!

Ele: !!!

Ela: Depois conversamos melhor, mas acabou. Dskupa!

Ele: posso saber pq?

Ela: Dskupa, acho que sou eu, mas não te quero mais.

Ele: tá bom, fazer o que!

Ela: !!!

Ele: qfoi?

Ela: É só isso que vc tem a dizer?

Ele: pq, o que mais eu deveria dizer?

Ela: Renato, to falando que não te quero mais. Vc vai concordar assim, de boa?

Ele: bom, então vamos lá. Letícia, lembra de quando começamos a namorar, há mais ou menos um ano, e eu te disse que eu era diferente da maioria exatamente por não correr atrás? Eu te falei que não faço o tipo que se rasteja pela atenção de ninguém. Até o momento em que você me quiser, estarei aqui pronto para te dedicar todo o meu amor. Quando você não quiser mais, irei entender e agradecer pelo momento em que você me permitiu estar ao seu lado. Bom, esse momento chegou. Você disse que não me quer mais. O que você quer que eu faça? Brigue, discuta, vá até a sua casa com flores e chocolates e te implore um amor que você não tem mais? Quer que eu te peça mais uma chance, até que você fique comigo por pena de mim e de meu sofrimento piegas? Não, não vou fazer isso, Letícia. Não foi o meu amor que acabou, foi o seu. O meu continua intacto. Se você não me quer mais, não tenho o porque implorar que você continue comigo. Sim, vou sofrer muito. Mas vou sofrer calado. Aqui comigo, na minha cama, que é lugar quente. Durante o dia vou vestir a máscara de vida social e seguir em frente. Repito: meu amor continua o mesmo. Caso o seu renasça de novo, estarei aqui. Enquanto isso, seguirei em frente. Tchau!

Sim, eu sou fã de Avril Lavigne. Me crucifique, sociedade!



Ano passado eu expliquei aqui o porque sou fã de Avril Lavigne. E mesmo assim continuo ouvindo comentários como "você é meio velho pra gostar de Avril", "nossa, você, tão inteligente, gostando de uma artista fabricada", e por aí vai. A esses comentário eu dedico meu mais sinceros "cuidem das suas vidas". 

Já escrevi tanta coisa ano passado que não tenho o que dizer hoje, no aniversário de 29 anos da Avril. Só que ainda continuo fã e a admirando. E esperando pelo novo álbum, Avril Lavigne, que mesmo parecendo que será bem comercial assim como foi The Best Damn Thing, ainda será bom, com certeza. 

Avril é the best damn thing that my eyes never seen

Os conflitos na Síria: você está por dentro do assunto?

Bashar Al-Assad, presidente da Síria

O que se vê na Síria infelizmente não é novo. Angola, Espanha, Iugoslávia, Bósnia e Herzegovina (que culminou com a destruição de Sarajevo), Sudão e vários outros países africanos e em todos os continentes passaram por guerras sangrentas e trágicas, que mataram muita, muita gente. Com a Síria não tem sido diferente. Todos os dias ela tem sido notícia em qualquer telejornal, portal e qualquer outro meio de comunicação. O país inteiro virou um palco de guerra que já contabiliza mais de 100 mil mortos e mais de 2 milhões (sim, dois milhões!) de refugiados. Mas enfim, o que está acontecendo na Síria?

Antes de tudo, o que é uma guerra civil?
Guerra Civil é quando o próprio povo de um país entra em guerra entre si. É diferente de dois países que resolvem brigar, como vimos nas duas Guerras Mundiais em que vários países lutaram um contra o outro e mais recentemente com as provocações entre as duas Coreias, sem falar na eterna provocação entre Irã e EUA, ou Israel e todo o mundo árabe. Numa Guerra Civil grupos de pensamento ou ideologia diferentes dentro do mesmo país brigam entre si e essa briga se torna tão intensa, tão impossível de se conciliar que chega às vias de fato, com a guerra armada. 

Por que a Síria está em Guerra Civil?
Tudo começou em março de 2011, quando um grupo de manifestantes em Deera, no sul da Síria, pediu a libertação de 14 estudantes presos por terem escrito num muro "as pessoas querem a queda do regime", lema dos revolucionários na Tunísia e no Egito. Naquela época as pessoas queriam apenas um pouco mais de liberdade para expressar sua opinião. Só isso. O governo sírio deu uma resposta exageradíssima aos protestos até então totalmente pacíficos: forças do governo abriram fogo contra os manifestantes, matando quatro pessoas. No dia seguinte, no momento do funeral dessas quatro vítimas, o governo abriu fogo novamente, matando mais uma pessoa. Essa reação desproporcional do governo, ao invés de combater os protestos, acabou impulsionando ainda mais pessoas, que agora se reuniam não só em Deera, mas também em Baniyas, Homs e na periferia de Damasco, a capital do país. Esses protestos acabaram se tornando em guerra entre as forças do Governo sírio e os manifestantes, chamados de "rebeldes". 

Mas o que os rebeldes querem?
No começo queriam apenas um sistema político mais democrático. A medida em que a reação do governo foi ficando mais intensa, as pessoas começaram a pedir a saída do presidente sírio.

E por que essa gente quer tirar o presidente? 
Bashar Al Assad, o presidente sírio e o cara fofinho da foto acima, está no poder desde 2000, ou seja, há 13 anos. Isso sem falar que ele recebeu o poder de seu pai, que governou a Síria por 30 anos. A Síria é hoje uma propriedade de família, onde os Assad mandam e desmandam desde há muito tempo.

Mas se o Assad pai ficou 30 anos no poder e o Assad filho já estava há 11 antes de os protestos iniciarem, por que só agora vieram se revoltar?
A Síria é mais um dos países que se inspiraram na Primavera Árabe, que começou em 2010 na Tunísia. É assim: não e só a Síria que tem um governo que passa de pai para filho. Era assim em quase todos os países árabes. As pessoas começaram a se revoltar e pedir que isso acabasse. Deu certo na Tunísia, no Egito (mais ou menos...), no Líbano. Esses países também tiveram altos conflitos internos, mas duraram menos tempo. 

Mas por que os protestos deram certo nos outros países e não deu até agora na Síria?
Primeiro porque o Assad não larga o osso nem f*dendo. Segundo porque lá há pessoas que defendem o governo sírio com unhas e dentes, tipo uns jornalistas progressistas que a gente vê por aí... Só que aqui no Brasil o conflito fica só nas palavras. Um chama o jornalista da Globo de "negro de alma branca", o outro chama o presidente de "minha anta" e fica só nisso. Lá os rebeldes se armaram e enfrentaram o governo. O governo, que já vinha metralhando os manifestantes há tempos, resolveu intensificar o combate. Aí deu a m*rda que deu. 

Mas o presidente da Siria até agora não fez nada pra resolver isso?
Pois é, ele até tentou, no início, fazer algumas mudanças. Anunciou uma reforma política que abriu espaço para mais partidos além do oficial do governo concorrerem nas eleições e deu anistia a vários presos políticos. Mas para os rebeldes isso foi pouco. 

E quem são esses rebeldes?
Aí está outro problema: a oposição na Síria nunca teve muita força, algo meio parecido com o que se vê no Brasil hoje... Tanto que os protestos por mudanças partiram de ativistas independentes. A oposição, que precisava da forcinha de alguém, viu aí a oportunidade de fazer frente ao governo de Assad. Essa oposição, aliada aos manifestantes, criou o Conselho Nacional Sírio, uma tentativa de organizar os protestos, para que não ficasse mais bagunçado do que a coisa já estava. O problema é que quem está organizando esse Conselho é a Irmandade Muçulmana, de origem sunita e perseguida pelo presidente atual desde sempre, mas que não é muito bem vista no resto do mundo. Só pra ter uma ideia, a nova confusão do Egito que culminou com a deposição do presidente eleito girou exatamente sobre essa Irmandade Muçulmana. E é por causa da presença dessa Irmandade é que o Conselho Nacional Sírio não consegue se unir. Enfim, os opositores, além de brigar contra o governo, brigam entre si. 

Quem apoia o governo sírio?
Os alauítas, etnia árabe de onde vem o atual presidente, e os cristãos sírios. Só que juntando todos os cristãos e todos os alauítas do país não se chega a 10% da população. São a minoria, mas que tem ao seu favor todo o peso militar do Governo. 

Então tem mais coisas em jogo?
Infelizmente, sim. Além do desejo de democracia sólida de pessoas bem intencionadas, há um jogo de interesses políticos da parte de partidos de oposição. A Irmandade Muçulmana é louca louquinha pra assumir o governo sírio e tornar um país uma república islâmica, por mais que negue isso, e viu nesses protestos sua chance de ouro. Os cristãos, aliados do governo, temem um possível governo muçulmano e uma perseguição que certamente aconteceria, se a Irmandade chegasse ao poder. Além disso tudo está a interminável guerra de etnias que mata pessoas desde que o mundo é mundo. Alauítas contra sunitas e por aí vai. Sem falar que nessa guerra toda quem está dando o ar da graça é a simpática e bonitinha Al Qaeda, aquela do nosso amigo Bin Laden. A Al Qaeda é de origem sunita, a que está lutando contra o governo, e os terroristas viram nesses protestos uma boa oportunidade de chegar ao poder e aumentar sua influência no mundo árabe para cumprir sua missão no mundo: derrubar torres nos EUA. 

E os outros países não vão fazer nada?
Pois é, é isso que está em discussão no momento. Quem teria autoridade pra fazer alguma coisa é a ONU, mas ela ficou numa saia justa porque de um lado dela estão os EUA, simpáticos aos rebeldes, e do outro China e Rússia, que são aliados do governo sírio desde sempre. Se apoia um arruma intriga com o outro. E na boa: arrumar intriga com os EUA ou com a Rússia pode ser o início do fim.  

Por isso os EUA querem atacar a Síria?
Mais ou menos. Devido a essa omissão proposital da ONU os EUA resolveram fazer alguma coisa por conta própria. O problema é que a gente já sabe a forma dos EUA de resolver conflitos: matando milhares de inocentes pra dizer que o governo tem que parar de matar inocentes. Assim foi no Afeganistão e no Iraque. E assim será na Síria, se eles realmente atacarem o país. Pior: se os EUA resolverem mesmo partir pra cima a Rússia, aliada de Assad, já prometeu ajudar o amigo sírio e armar o governo para se defender dos EUA. Aí a coisa, que já tá feia, vai ficar pior ainda, se é que dá pra piorar. Ah, os EUA dizem também que querem atacar a Síria para impedir o governo de usar armas químicas.

Bem lembrado. O que são essas armas químicas? O que é o tal gás sarin?
Em Dirahian, próximo a Chanasir, o governo sírio mantém uma base de testes de armas químicas, de destruição em massa. O sarin é um neurotóxico de alto poder letal que, quando respirado, vai para a corrente sanguínea e bloqueia a respiração, causando parada cardiorrespiratória em seguida. Aí e só esperar a morte. O uso desse e de qualquer outra arma química é proibido pela ONU e considerado crime de guerra. Acontece que alguém usou esse tal gás há alguns dias, ocasião em que milhares de pessoas morreram. Tudo leva a crer que tenha sido o governo quem usou o gás contra os rebeldes. 

Quando e como isso vai acabar?
Boa pergunta! Só quem sabe é Deus, ou Allah, ou o nome que se queira dar. Os rebeldes só param quando o presidente sair. Assad já disse várias vezes que não sai do governo. Ambos lutam ferozmente um contra o outro. Enquanto isso tem muita gente morrendo, gente que não tinha nada a ver com o peixe, sem falar nos que tem que fugir do país. Só nos resta acompanhar as notícias e torcer pela Síria. 

#Música Anitta: nem tão Poderosa assim



Que atire a primeira pedra quem nunca se pegou cantando "pre-para" em algum momento do dia. Não adianta, certas músicas grudam na cabeça, por mais que você tente evitar. às vezes é pior. A equação matemática nesse caso diz que a probabilidade de uma música grudar na sua cabeça é inversamente proporcional ao seu apreço por ela. Traduzindo: quanto menos você gosta da música mais ela vai grudar. 

E se o assunto é músicas que grudam ninguém melhor que o fenômeno do momento. Sim, falo de Larissa de Macedo Machado, a atual Anitta dona do hit Show das Poderosas, que ganhou o Brasil graças a uma grande ajuda da Globo. Antes dessa "forcinha" Anitta era uma funkeira comum (era ainda a MC Anitta) que era conhecida apenas no Rio de Janeiro e na internet, mas sem nenhum pouco do prestígio que tem hoje. Ainda antes das cirurgias plásticas que transformaram seu rosto e da notável redução dos seios (sim, caras, os seios dela eram ainda maiores!), era possível ver a Anitta nos palcos da Furacão 2000, empresa responsável por divulgar o funk carioca, junto com outros nomes menos importantes do funk, como MC Pocahontas e MC Beyoncé. Como eu sei disso? Conversei com ela uma vez pela internet para um post que eu estava elaborando junto com a Maria Rita para o blog dela. Agora Anitta é celebridade. Por onde passa, Anitta arrasta multidões. Seus shows, com três formatos diferentes (incluindo aí o Chá da Anitta, com uma forte pegada funk), são cheios de apresentações que mesclam a sensualidade do funk, expressa nas suas roupas minúsculas e na batida das músicas, e o pop, presente nas letras mais "leves" que as do funk tradicional. Mas se no palco Anitta encanta, hipnotiza e prende a atenção, não se pode dizer o mesmo de seu CD. 

Lançado em agosto, o CD homônimo tem 14 faixas com letras que exaltam a moral feminina. As músicas, as mesmas dos shows, não tem o mesmo brilho quando só se tem a voz de Anitta. O poder de sedução, do gingado e da sensualidade da cantora se reduz a batidas estéreis e edições de voz que tornam as músicas artificiais e fracas. Falta ainda muito peso comercial às músicas dela.  

Anitta, na verdade, não é uma cantora. É uma artista da música. Sim, são coisas diferentes. Uma cantora encanta em qualquer situação, mesmo quando sua música é ouvida num CD, no celular ou em qualquer outra mídia. Uma artista da música precisa do palco para encantar. Anitta é o tipo de cantora que brilha e rouba a cena quando canta ao vivo, principalmente por suas caras, bocas e e pernas que exalam sensualidade. Mas todo esse brilho some se as músicas forem apenas ouvidas. Até porque a graça da Anitta é o show, não a música em si. Isso acontece com a Anitta e com boa parte dos nomes famosos da música brasileira atual. São artistas da música que ganham admiração no palco, mas que não reproduzem isso em seus CDs. Qual o problema disso? Os artistas da música tendem a desaparecer com a mesma rapidez com que ascenderam. Seu show logo perde a graça e é substituído por outro tão hipnotizante quando. 

Enfim, parece que agora é hora do show da poderosa. Apenas do show. 

Mas quem é o Amarildo?


Digamos que 40% do Brasil está perguntando: cadê o Amarildo? 20% não está nem aí pra quem é ou deixa de ser o Amarildo. E outros 40% querem saber outra coisa: quem é esse tal Amarildo que todo mundo fala?

É pra esses últimos que esse post é direcionado.

Vamos lá, quem é Amarildo? Algum cantor novo de funk melódico, tipo o Naldo e a Anitta?
Não, ele não canta nada, não. Na verdade é um pedreiro morador de uma favela do Rio que sumiu depois de ter sido levado pela Polícia para "averiguação".

Mas o que aconteceu com ele?
Ele foi abordado na porta de casa em 14 de julho por quatro policiais da UPP da Rocinha, que o confundiram com um traficante da região. Foi levado para a sede da UPP para averiguação, e depois disso sumiu. Ninguém teve mais qualquer informação sobre ele.

Ah! Mas só isso? Tanto barulho só por isso?
Pensa: um cara comum, sem nenhum antecedente criminal conforme foi confirmado pela Polícia, é levado por policiais e depois some do nada. Não existem câmeras que provem onde ele esteve, pra onde foi. Nada. 

Mas o que querem dizer: que ele foi morto pelos policiais?
Não é o que se diz, mas a Polícia precisa explicar o que aconteceu com ele. Chegaram a fazer um exame de DNA numa mancha de sangue encontrada numa viatura da Polícia, mas não era o sangue do Amarildo. Enfim, não é possível dizer o que aconteceu com ele, mas a história é muito estranha. 

Mas será que ele era tão inocente assim? Sei lá, morador de favela...
No Brasil todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Mas na prática não é assim, e essa ideia está não só nas Instituições, mas na cabeça do brasileiro, como nessa pergunta. Sabemos muito bem que pobre, favelado, negro nem sempre é inocente até que se prove culpa. Na verdade, as vezes na prática acontece o oposto. Primeiro se acusa e se faz algum tipo de "justiça", depois averigua se o infeliz realmente tinha alguma culpa. 

Mas não pode ter sido algum traficante que tenha matado o Amarildo?
Quem sabe? Como não existem suspeitos nem nada que conduza a nenhuma linha de investigação, qualquer hipótese e levada em conta. O fato é que tem meio mundo atrás dele: Ministério Público, a Divisão de Homicídios da polícia, até a Anistia Internacional está de olho no caso. 

Mudando de assunto, esse Amarildo parece o Zina do Pânico, né?
É, parece... ¬¬

Onde está o Zina, agora?
Olha, não vamos perder o foco do assunto, OK?

#Música Clarice Falcão e a volta das músicas bonitinhas


Ela é, digamos, uma versão um pouco mais madura de Mallu Magalhães, e já tem lugar garantido na fofomusic brasileira, ao lado de nomes como O Teatro Mágico, Palavra Cantada e A Banda Mais Bonita da Cidade, entre outras bonitinhas. Que fique claro: a fofomusic não existe de fato. É bom avisar. 

Mas independente do estilo que ela escolheu cantar, ela é uma das vozes mais brilhantes do momento, na minha opinião. Clarice Falcão é pernambucana e filha do diretor João Falcão e da roteirista Adriana Falcão. Caiu nas graças do público após o sucesso do grupo de humor Porta dos Fundos. Mas Clarice é muito mais do que humorista. Na verdade ela mesma parece ainda não saber qual carreira pretende seguir, e por isso segue várias, todas de forma brilhante. Aos 16 anos dirigiu seu primeiro vídeo para a internet, Dois Menos Dois, e já escrevia canções. Aos 17 anos protagonizou o curta Laços, que não só ganhou um prêmio internacional do Youtube, mas a deu visibilidade a ponto de ser convidada pelo novelista João Emanuel Carneiro para participar de A Favorita, um dos maiores sucessos da história da novela brasileira. Em 2009 adaptou para o teatro o musical Confissões de Adolescente, onde também atuou cantando e dançando mesmo sem ser dançarina. Em 2011 escreveu a peça de teatro Inbox, com o marido Gregório Duvivier. Ainda em 2011 atuou no filme Eu Não Faço A Menor Ideia Do Que Eu To Fazendo Com A Minha Vida. Em 2012 participou de dois seriados para a TV paga, e também se lançou como humorista no Porta dos Fundos. Para alguém com 23 anos, Clarice Falcão tem um currículo invejável! 

Agora colocando em prática o lado cantora, Clarice trás o álbum Monomania, com 14 músicas assinadas por ela própria, onde narra as desventuras do amor sempre com um toque leve, agradável e as vezes até cômico. Diferente da maioria dos cantores que retratam o fim do amor sempre em tom de sofrimento, Clarice mostra uma leveza de quem sabe o que quer e usa isso ao seu favor, transformando o sofrimento em música. 

Vale a pena conferir uma das músicas e nossa dica de hoje do Sunday Music, Capitão Gancho:

Cartas Para Mim Mesmo - V

Olá

Desculpe a demora em escrever. Já se passaram sete meses desde nossa última conversa, e pelo visto novamente temos bastante coisa para resolver, não é? É curioso como nossa vida é feita de vários altos e baixos, e pelo jeito no momento você não está numa fase muito boa. Muita coisa aconteceu com você nesses meses, apesar de pouca coisa ter mudado. Cara, você tem um turbilhão de coisas acontecendo nessa cabeça. Isso me confunde às vezes. É difícil acompanhar seu raciocínio! rs

Pelo visto você chegou a uma conclusão bem desagradável nos últimos meses: você não é uma pessoa interessante. Infelizmente, cara! Já dizem as revistas de fofocas femininas que um homem precisa ser ou muito bonito, o machão por quem todas suspiram só de olhar o peitoral definido, ou precisa ser pelo menos interessante, se não tiver um visual tão agradável. E você não preenche nenhum desses requisitos. Além de estar totalmente longe do padrão Globo de beleza masculina, você é uma pessoa sem graça, água de salsicha. Você não fotografa bem (não tiro a razão da moça que evitou publicar na internet as fotos que tirou com você: devem ter saído péssimas e por sua causa!), não é a melhor companhia para se conversar, não acompanha futebol, não conhece o universo da música pop e nem uma série de coisas que sempre veem à mesa na hora da conversa fiada. Seus assuntos são assuntos de poucos, e esses poucos que potencialmente teriam o que conversar com você não dão a mínima à sua existência. As pessoas não sentem interesse em estar com você, em conversar com você. Aliás, não só não tem interesse em estar com você como te evitam quando você as convida para fazer qualquer coisa, mesmo que seja um simples e mísero Mc Donalds. Quantas pessoas já te evitaram, e pelos motivos mais absurdos? Aliás, motivos não: desculpas, e das mais esfarrapadas. Pelo amor, "comprar ração para o cachorro no mercado" e "não ter crédito no celular pra responder seu SMS" viram motivo para te evitar! E não para por aí. Além de tudo você ainda é o tipo de pessoa que não faz falta. Até pode fazer, mas pela ajuda que dá as pessoas, porque você é útil em alguma coisa. A partir do momento em que você for substituído por outra pessoa que faça a mesma função, você passa a não ser sequer notado. Ninguém percebe se faltar e ninguém repara se estiver.

A coisa tá complicada para o seu lado, meu amigo!

Sim, eu percebo tudo isso, e sofro por isso, também. O que eu posso te dizer é o seguinte: pare de correr atrás. Alias, tem uma frase de um livro bastante interessante, e eu sei que você odeia essas frases prontas de livros da Marta Medeiros & derivadas, mas uma dessas frases combina bastante com seu momento atual: não corra atrás de quem sabe onde te encontrar. É isso: pare de correr atrás da amizade e da atenção de quem não está afim de você. Aquela pessoa pelo visto não quer nada mais que amizade, mesmo. Então, quando um amigo some o que fazemos? Procuramos por ele. Pare de se mostrar, de estar disponível sempre. Fique offline por um tempo. Quem for seu amigo de verdade vai notar sua falta. Você já viu que tem alguns amigos tão improváveis que você até se espanta quando recebe atenção deles. E é isso: as vezes batemos tanto em pedra que deixamos de dar atenção à paisagem em volta. Para de bater em pedra. Chamou e a pessoa deu alguma desculpa pra te evitar, não procure mais. Esteja indisponível. Valorize-se, meu amigo!

E você sabe que você não é o inútil desprezível que pensa ser. Você conhece suas qualidades, aquilo que você tem de melhor a oferecer. Então, o resto é resto. Quem te evitar é que está perdendo a oportunidade de ter contato com uma pessoa legal.

Por último: procure ajuda especializada. Tá na hora! Antes que toda essa fase ruim desencadeie em algo pior, converse com quem pode te ajudar de fato. Com quem pode mais do que te ouvir, mais do que dar conselhos. Procure alguém com conhecimento clínico. E rápido. Só vai te fazer bem.

Bom, nossa próxima conversa provavelmente irá acontecer só no final de dezembro, quando faremos nosso balanço anual. Espero te encontrar melhor, muito melhor.

De quem mais depende do seu bem estar,

Você mesmo. 

E o entrevistado de hoje é... Deus!


As coisas mais belas desse mundo e as maiores atrocidades humanas já foram feitas em nome Dele. Por causa dele pessoas mudaram suas vidas e outras mataram inocentes. Deus, ou Jeová em algumas religiões, é talvez a figura mais controversa da história. Milhões de religiões no mundo creem ter a fórmula correta para chegar a ele. Em nome dele igrejas são abertas diariamente. Líderes enriquecem e pessoas simples empobrecem. Para chegar à Ele criam cultos, rituais, magias, caminhos e uma infinidade de formas de alcançar o divino. Mas será que é tão difícil chegar até ele? Fui pesquisar, e o resultado é uma entrevista bem interessante.

Wesley: Deus, uma pergunta pra iniciar nossa conversa: como você nasceu?
Deus: sabe que eu não sei? Não tenho nenhuma recordação da minha infância, nem uma foto, nem nada. Só me lembro de estar aqui desde sempre.

Foi você quem realmente criou o mundo?
Bom, de algum lugar tudo isso saiu, né? Eu tava meio sem ter o que fazer, de boa por aqui, os anjos ocupados ensaiando com as harpas, aí pensei: poxa, preciso arrumar alguma coisa pra fazer, senão vou cair num tédio insuportável! Aí mexi numas células, coisa aqui e ali, muitos fenômenos químicos e físicos, e quando vi aconteceram umas explosões malucas. Coisa linda de ver! 

Mas pera, você não criou o planeta Terra em seis dias e descansou no sétimo, como diz na Bíblia?
Nossa, vou entender isso como um elogio! O planeta Terra levou 4,5 bilhões de anos pra adquirir a forma que tem e você diz que eu fiz em seis dias! Rapaz! (risos). Mas falando serio, essa história de fazer em seis dias e descansar no sétimo é só uma lenda! Até porque uma das atribuições de Deus é nunca se cansar, e mesmo que eu cansasse não tenho onde tirar férias! Difícil essa minha vida, viu?! 

Mas e a história de Adão e Eva, paraíso, pecado, etc?
Sabe que já li essa história e achei até legalzinha? Tão bonitinha, homem e mulher peladinhos num Paraíso cheio de plantas bonitas, animaizinhos pulando pelos campos, borboletas por todos os lados, cobras voando... Mas essa história é meio fraquinha, sabe? Serve só como ilustração, mesmo!

É verdade que seu povo preferido é Israel, descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, povo para quem o Messias foi prometido, etc?
Ah, Israel já mudou tanto, filho! De vez em quando Moisés me conta umas histórias tão engraçadas sobre esse pessoal. Até bezerro de ouro já fizeram! Ainda bem que hoje em dia é um país evoluído, rico, com gente bonita. Só podiam ser menos violentos, né? Ainda mais com os palestinos! Deixa aquele pessoal construir casa na Faixa de Gaza, poxa! É até melhor pra dar uma vida naquele lugar, só tem areia naquilo! Ah, e pra vocês que são jovens, sabiam que eles tem umas baladas fantásticas lá? Não vou porque não suporto barulho. Já basta ter que suportar umas igrejas por aí que gritam o tempo todo. 

Tantas religiões foram criadas no mundo com o objetivo de chegar até o senhor. É tão difícil assim?
Você teve dificuldade de falar comigo?

Hmm, não!
Então, não sei porque essa gente complica tanto as coisas. Quando você quer falar com alguém o que você faz? Abre a boca. Simples. Fale, uai! Tô ouvindo. Inventaram uma infinidade de religiões, rituais,  intercessores, fórmulas, caminhos, rezas, passos, receitas para falar comigo. As vezes eu dou risada, mas tem dias que me irrito com essas coisas. Vejo gente fazendo as maiores bizarrices pra falar comigo, subindo escada de joelho, andando quilômetros, e eu aqui, olhando para o infeliz e pensando: era só você começar a falar... 

Mas o senhor as vezes demora pra responder...
Olha, não é que eu demoro pra responder. É que eu não respondo, mesmo! Meus créditos do celular acabaram e agora só recebo ligação (risos). Brincadeiras à parte, gosto de ouvir as pessoas falarem comigo, mas não respondo ninguém. Até fico junto à pessoa, ao lado, seguro na mão e etc, mas não dou resposta. Prefiro não interferir na vida de ninguém, sabe? É melhor você mesmo procurar sua resposta dentro de você, com maturidade e responsabilidade. E nas decisões que você tomar #tamujunto! 

Mas e as pessoas que se dizem "seus mensageiros"?
Não briguei com ninguém pra precisar de mensageiros pra falar alguma coisa. Se eu quisesse eu mesmo falaria com ela, ué. Só que não falo com ninguém, como já expliquei na pergunta anterior.

O senhor tem representantes na Terra?
Hmm, não. Prefiro eu mesmo tratar pessoalmente quando tenho alguma coisa pra resolver com alguém aí. Essa história de escolher representantes nem sempre dá certo. Esse pessoal distorce o que você diz, sabe. Sou adepto do "faça você mesmo".

E o Feliciano? Não te representa?
Quem é esse?

O pastor evangélico, deputado, aquele da lei da cura gay...
Não sei quem é. Onde ele fica?

Bom, pelo menos o Malafaia o senhor conhece...
Hmm, não. É alguém da Record? Eles começaram uma edição nova da Fazenda, aquele programa cheio de subcelebridade, né? É algum participante?

Não, Deus! Também é pastor, da Assembleia de Deus, etc.
Aaaah, entendi. É que eu não tenho acompanhado muito esses pastores ultimamente, sabe? Não sei quem ainda é, quem deixou de ser, quem virou pastor agora. E essa Assembleia de Deus também deixei de acompanhar desde os tempos de Paulo Leivas Macalão (co-fundador da Igreja Assembleia de Deus no Rio de Janeiro). Nossa, aquele cara era demais, né? Sabia que ele vestia terno só pra falar comigo de madrugada? Achava aquilo muito louco! Quando ele veio pra cá as coisas na Assembleia de Deus ficaram muito chatas. Como essa gente briga, né? Separam, brigam e separam de novo, depois brigam e separam mais uma vez... Ah, desisti! Falei: "quer saber? fiquem aí que eu tô em outra".

O senhor está em outra? Em qual?
Não, não é em nenhuma outra igreja! Agora me considero um "personal God". Chique, né? Gosto de acompanhar esses que me procuram por conta própria, sem o agenciamento de nenhum líder nem a autorização de nenhuma religião. 

O que achou da escolha do novo Papa?
Ele tem uma cara engraçada, né? Parece que quer rir o tempo todo. Figuraça! São Francisco de Asis adorou ter sido homenageado por ele.

O senhor não ficou magoado com a renúncia de Bento XVI?
Não, coitado, ele tava quase parando, já! Mais uma vez que ele erguesse o braço pra levantar a hóstia eu o puxava para cá de uma vez! (risos). Mas ele precisava sair. Ele foi um bom líder, mas falhou em muitas coisas. Só de ver aquelas crianças que sofreram na mão de pedófilos cretinos e o Bentão acobertou tudo. Só veio autorizar investigação depois de ter caído na mídia! O Joseph é um ótimo pensador, mas como líder deixou muito a desejar! É uma pena!

Mas na Idade Média se acreditava que a Igreja Católica era sua representante na Terra, e o Papa era representante de Jesus.
Claro que não! Já viu as roupas que aqueles Papas usavam? Se Jesus quando nasceu aí ficou no meio do mato num frio desgracento deitado num pote de ração de vaca, você acha que ele ia aceitar ser representado por gente rodeada de luxo daquele jeito? Cara, Jesus é tão simples! Ele sequer usa algum tipo de uniforme, ou vestimenta especial. Quando viveu aí se vestia mal, igual a todo mundo daí e agora por aqui continua parecido com vocês. Tem horas que olho pra ele e penso: mano, não tem como esquecer essa gente da Terra com meu filho tão parecido com eles...

O senhor ama os gays?
Sabe que eu A-DO-RO essa alegria toda deles? (Imita a voz de um gay). Não tenho nada contra eles, não. Por que eu teria?

Mas não dizem que é pecado o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Olha, sendo entre humanos, a decisão é de vocês. Homem e homem, mulher e mulher, homem e mulher, dois homens e uma mulher, fiquem à vontade. Só me convida pra cerimônia. Eu amo casamentos!

E é a favor de eles adotarem crianças?
E o que há diferente em um gay que o impeça de fazer alguma coisa que um hétero faz? Adotem crianças, adotem animais, cuidem de velhos, comprem, vendam, façam o que vocês bem entenderem. 

O senhor é realmente contra o aborto?
Eu sou a favor do bom senso. Toda mulher é dona do próprio corpo e faz com ele o que bem entende. Quer abortar? Aborte. Mas pense bem no motivo que está te levando a abortar. Até porque nem é tão fácil assim. Até chegar a decisão do aborto toda mulher passa por uma crise moral e psicológica terrível. O negócio é complicado, cara! E vou um pouco antes: antes de ir pra cama com o cara, se não tem a intenção de ser mãe, evite a gravidez. Tem anticoncepcional, camisinha, etc. Não tem nada mais cruel do que abortar só porque a criança não é bem vinda.

A vida no ceu não é meio tediosa?
Olha, tava ficando, viu! Aí chamei a Hebe Camargo! Ela é uma gracinha, né? (Imita a voz da Hebe). Mas no geral não tenho do que reclamar. Tenho boa música - aliás, como essa Amy Winehouse canta bem, hein?! E Janis Joplin, então? Semana passada Renato Russo fez um acústico aqui pra gente, coisa finíssima!  Tô bem acompanhado. Agora tô muito afim de trazer o Mandela pra cá. Deve ser ótimo conversar com ele.

Deus, porque as pessoas sofrem, por que parentes queridos morrem, enfim, por que há o sofrimento?
Veja bem, eu não sou a pílula que trás felicidade instantânea. O nome disso é Viagra (risos). Mas falando sério, o mundo é difícil mesmo, véi. Tirando eu e o Sarney, todos morrem um dia. Alguns mais cedo do que deviam, outros depois de viverem muitas experiências. O que vocês devem pensar quando perdem um parente querido é o seguinte: ao invés de me lamentar pela morte dele prefiro lembrar os momentos bons que tive com essa pessoa. E são esses momentos bons que vão te fazer ver a vida de outra forma. É tão bom ter boas lembranças de alguém, não é? E, nessas boas lembranças, conte com meu abraço, meu aperto de mão, meu apoio. Saudade é um dos sentimentos mais puros e nobres da humanidade. Aproveitem a saudade, ela é linda!

Pra encerrar: o senhor existe mesmo?
Sabe que as vezes tenho essa dúvida? Não tem espelho por aqui pra eu me ver, cara, acredita? Ainda bem que não tenho cabelo, senão ia viver despenteado! Será que eu sou mesmo Deus, o Todo Poderoso Jeová ou sou só um louco igual aquele Inri Cristo? Sei lá, mas em todo caso vou levando. Um dia a gente descobre. Ou não, vai saber...

Uma vez eu quis ser o melhor



Uma vez eu quis ser o melhor.

Achei que podia tudo, que estava acima de todos. Me achei superior.

Nesse sentimento desprezei pessoas, maltratei queridos e despedi afetos. Era tão autossuficiente que não precisava de nada que não viesse de mim mesmo e de minha capacidade de crescer sozinho. Achei que podia tudo. E fiquei sozinho. Se afastaram todos os que tentavam se aproximar. Aqueles que me queriam amigos passaram a me ver estranho. Os que me queriam bem não me reconheceram. Mas ainda assim eu me achava suficiente. Me achava o melhor.

E veio a onda.

Uma onda forte me encobriu, me tirou de onde estava e me reduziu a um corpo flutuante numa água violenta que não tinha qualquer constrangimento em arrasar o que encontrasse pela frente.

No desespero gritei por ajuda. Pedi aos amigos que me socorressem, pois sabia que sozinho não iria me salvar. Precisava que urgentemente alguém me estendesse a mão e me resgatasse, do contrário eu iria morrer.

Só aí lembrei que não tinha amigos. Os perdi todos no alto da arrogância que tomara conta de mim. Eles, que também haviam sido vítimas da mesma onda que eu, se ajudaram uns aos outros e escaparam sãos e salvos.

Mas eu fiquei sozinho, boiando e lutando em vão. Sabia que não poderia desistir, mas tudo me levava a crer no contrário. Ouvia uma voz dizendo que eu iria morrer.

Até que fui jogado à terra. Uma ilha deserta que me serviu de socorro. A água se foi e eu agradeci à força superior que porventura me tivesse salvo.

Olhei a ilha mas ela estava vazia. Nada que me fosse familiar, nem mesmo uma casinha abandonada. E então ouvi uma voz, talvez a voz da força superior que havia me salvado: "você já estava sozinho antes da onda, não terá dificuldades em sobreviver aqui".

E então despertei agitado do sono. Minha esposa que dormia ao meu lado acordou assustada com meu grito. Perguntou o que havia acontecido e eu não respondi, apenas a abracei e disse que a amava. Liguei no meio da madrugada à casa dos meus pais velhos que fazia tempo não os via, e lhes disse que os amava. Liguei para o amigo do trabalho que havia me chamado para o futebol, mas que eu havia rejeitado por me considerar muito superior do que ele e disse que estaria lá às 14:00 pra bater bola. Mais uma vez abracei minha esposa e disse o quanto ela era importante para mim.

Ela apenas me disse: você também é importante para mim. Você é importante pra muita gente, e faz falta na vida de todos nós.

Amores improváveis



E foi assim, do nada, que Alfredo percebeu o que tentara evitar ao máximo: havia se apaixonado pela pessoa mais improvável do mundo. Não necessariamente paixão, no sentido adolescente do termo, daquelas incontroláveis que levam o apaixonado a cometer as maiores bizarrices ou até extremos e loucuras em nome de um suposto amor tão frágil como casa construída na areia. O que Alfredo sentia, na verdade, era um interesse sincero e adulto, uma vontade de ter mais acesso à ela, ter liberdade para falar mais do que o socialmente aceito numa conversa corriqueira entre colegas. A conhecia de vê-la no dia a dia e de a acompanhar no percurso de ida e volta nos dias úteis da semana, mas gostaria de conhecê-la melhor. Gostaria de saber melhor como eram os fins de semana dela, como era a vida pessoal dela, interagir mais com o "infinito particular" dela, aqueles momentos particulares da vida em que meros colegas não são bem vindos. Tinha a certeza de que isso é diferente de paixão: não a tinha como a única nem a melhor mulher do mundo, até porque não a conhecia melhor. Queria conhecê-la exatamente para isso: saber se valeria a pena se apaixonar ou não.

Mas ela era a pessoa mais improvável do mundo pela qual Alfredo poderia se interessar: tinha uma personalidade forte e totalmente diferente da dele, era ainda mais antissocial do que ele, pensava de forma diferente em muitos aspectos, via a religiosidade de forma totalmente oposta a dele, não tinha necessariamente os mesmos gostos musicais, era uma "analfabeta digital" daquelas que ainda falam no Orkut como uma novidade, tinha um nome estranho e um sobrenome que não ajudava nem um pouco, vinha de uma região do país com a qual ele evitava qualquer interação e via o relacionamento de uma forma um tanto controversa, o que atrapalharia totalmente os planos dele de tentar qualquer aproximação maior.

Em tese, ela era exatamente o tipo de pessoa de quem Alfredo tentava manter a máxima distância possível. E o que exatamente havia feito com que ele se interessasse por uma pessoa tão controversa? Apesar de tantas diferenças, ele tinha a resposta na ponta da língua: diferentemente de 99% das pessoas com as quais ele tinha convivência, ela não o tratava como um desengonçado estranho que só fala besteiras que viram motivo de risada entre as rodinhas. Não que ele não fosse um desengonçado estranho, e sabia que vez por outra soltava alguma pérola que virava piada quando ele virava as costas, mas odiava o fato de ser assim. E estava cansado da forma sarcástica com que as pessoas o olhavam, vendo-o como um bobo que é sempre o motivo de risada da turma, independente do que faça. Ela não o tratava assim, pelo menos na frente dele. Pelo contrário: mostrava gostar de estar na companhia dele, tanto que gostava de ser acompanhada por ele na volta para casa todos os dias. Ria das estranhices dele, mas uma risada cúmplice, algo como "eu não assumo, mas também faço isso". Gostava de conversar com ele, de contar coisas sobre sua família que provavelmente não contava para mais ninguém. Curiosamente ele se sentia à vontade quando estava com ela. A vontade para brincar com certas coisas que não brincaria com outros, para falar coisas sobre sua vida pessoal que nem os mais chegados sabiam. Ela o via como uma pessoa normal, e ele se sentia uma pessoa normal quando estava com ela. Sabia que ela o considerava um bom amigo.

Aí começava o problema: ela o via como um bom amigo. E só. Mais uma vez Alfredo não era correspondido em seus sentimentos, pelo menos no que percebia nas atitudes dela. Ela falava com ele sobre os relacionamentos anteriores e sobre o que esperava de um homem, tudo o que uma mulher não costuma conversar com quem ela pretende ter algo além de uma amizade. Alfredo tentava reverter isso, mas quanto mais tentava mostrar o que sentia mais "fofinho" se tornava para ela. Alfredo sabia: teria que falar de uma vez por todas o que sentia. E tomou uma decisão: não ia falar nada!

Não ia falar nada por dois motivos: primeiro porque Alfredo sabia que existia uma grande possibilidade de esse sentimento ser apenas uma reação ao fato de ele estar sozinho já há algum tempo. Talvez não fosse o fato de ser exatamente ela, e sim por ser alguém que, diferente de todos os outros, o tratava como uma pessoa normal. Mas era meio difícil estabelecer a diferença entre um sentimento e outro.

O segundo motivo era o medo de perder a amizade com ela. Antes de qualquer sentimento confuso que sentisse por ela, Alfredo gostava de tê-la como amiga. E temia que abrir o coração e demonstrar um sentimento a mais poderia, além de não ser correspondido, colocar a perder a amizade cultivada com tanto esforço. Ela poderia tentar evitá-lo para que ele deixasse de "confundir as coisas". Talvez ser sentisse surpresa: "mas pensei que éramos só amigos", ou coisas do tipo. Preferia não correr o risco.

E Alfredo deixou as coisas como estavam. Como sempre fazia.

Desencantos: política



Nem sou tão velho assim - tô a caminho dos 30 anos - mas já estou me desencantando com muita coisa nessa vida. Coisas nas quais tentei acreditar, outras nas quais acreditei de verdade, e percebi que na verdade não passam de esperanças que criamos em cima de estruturas tão frágeis quanto casas erguidas sobre a areia. Até criei uma tag pra isso aqui no blog. Aos poucos vou compartilhando alguns desses desencantos - os que forem possíveis de serem compartilhados, claro! rs

Uma desses meus desencantos é com a política. Vejam só: eu ainda acreditava que era possível ver a política de um jeito sério, comprometido, mas eu vi que, pelo menos no Brasil, isso é impossível! Quem me lê aqui há algum tempo sabe que já defendi e defendo a filiação partidária como a única forma concreta de se tentar mudar alguma coisa no Brasil, já que nosso sistema político é baseado no partidarismo - por mais que a maioria dos partidos brasileiros não seja mais que grupos de espertos que tentam usar o dinheiro público para  interesses pessoais. Pessoas que se dizem "engajadas", politizadas", mas que não tem qualquer interesse na atividade partidária não passam de revolucionários de sofá, que vivem de criticar mas sem qualquer comprometimento de fato com essa tal "mudança" que tanto desejam. Sim, acredito que o problema do Brasil é a despolitização do brasileiro. Reclamamos dos políticos, mas sequer lembramos em quem votamos na eleição passada. Não sabemos qual a atribuição de um prefeito, de um governador ou do presidente da República. Daí não nos espantarmos quando vemos um candidato a prefeito prometendo metrô: o brasileiro não sabe que metrô não é atribuição da prefeitura, e sim do Governo do Estado. Não acompanhamos a ideologia dos partidos brasileiros, não sabemos como funciona a política no exterior para poder comparar com a nossa - aliás, não sabemos sequer como funciona a nossa política. E vou além: esse total desinteresse do brasileiro pela atividade política é bom para os partidos, que tem cada vez menos pessoas cobrando suas ações e votações. 

Consciente disso, já procurei várias vezes um partido interessante - ou menos pior - para me filiar. Já fui filiado ao DEM, ainda na era pré-PSD, do qual me desfiliei depois de me sentir como um idiota tentando acompanhar alguma atividade partidária que sequer existe. O DEM é um partido tão insignificante que sequer faz convenções com os filiados, para debater, apresentar propostas, alternativas para o Brasil. Não há nada, nenhuma reunião, nenhuma forma de acompanhar o partido. Nada. Como filiado do DEM não tive acesso a nenhuma movimentação partidária. Ainda lembro com detalhes da cara de espanto do senhor que me atendeu na sede do partido em SP, quando cheguei lá dizendo que queria fazer a filiação, algo como "mas vai se filiar pra que?". O DEM, hoje, é um partido "água de salsicha", que já não tem mais relevância nenhuma e que não faria a menor falta de deixasse de existir. 

Saí do campo direitista do DEM - se é que se pode dizer que o DEM é um partido de direita - e fui para a esquerda. Me filiei ao PPS, com a esperança de ver algo diferente no partido. Realmente as coisas lá são bem diferentes da maioria dos outros partidos. Eventualmente o PPS de SP faz convenções, criam propostas sérias, projetos alternativos, e os apresentam via site, blog. Recebem de bom grado as sugestões dos filiados. Quando liguei no diretório do partido em SP, na Água Branca, fui muito bem atendido e ainda fui informado de como acompanhar a vida partidária e etc. Mas o que me chamou mesmo a atenção no PPS é a história do partido. Pra quem não ligou o nome à pessoa, o PPS de hoje é a continuação legítima do PCB, o Partido Comunista Brasileiro, o mesmo que foi peça chave na luta contra a Revolução de 64, ou Ditadura Militar, onde muitos militaram pela liberdade de pensamento e morreram por causa disso. O PPS, diferente de certos partidos, tem história. Tem um histórico de luta pela democracia a apresentar. Além dessa história me chamou a atenção no PPS exatamente o movimento de transição do partido em 1990, de PCB para PPS. Naquele ano a direção do partido percebeu que os ideais comunistas de Karl Marx já não faziam tanto sentido como se pensava - haja vista a Alemanha Oriental e a URSS. Vendo que o radicalismo não iria levar o comunismo brasileiro a lugar nenhum o PCB não teve constrangimento em mudar sua ideologia e dar abertura a outras formas de pensamento, criando assim o Partido Popular Socialista, um partido de esquerda, por definição, popular por privilegiar o todo ao invés do individual, mas sem o radicalismo intolerante dos demais partidos comunistas mundo afora. Esteve com o PT em 2002 e não teve constrangimento novamente de mudar de lado e romper com o PT em 2005, quando o partido já havia deixado claro que a bandeira da ética defendida quando oposição não era mais que uma fachada para chegar ao poder, isso ainda numa época pré-mensalão. Além do mais o PPS vinha mantendo um discurso bastante interessante da renovação política, com uma ideologia aberta, leve e de fácil compreensão - a "nova política", livre das algemas do coronelismo, tao presente nos grandes partidos brasileiros. Como concretização dessa mudança o PPS de São Paulo propunha a refundação do partido que, convenhamos, tinha uma atuação insignificante no cenário nacional. O PPS paulista propunha inclusive a mudança do nome do partido para #REDE23, ideia que inspirou a criação do partido da Marina Silva, a REDE. Sim, o nome do partido da Marina foi inspirado nesse movimento do PPS paulista. Uma das críticas que se fazia ao PPS era a presidência quase eterna de Roberto Freire no partido. Também não concordava muito, mas já que ele tinha uma atuação excelente à frente do partido, fazendo o papel de oposição combativa que o PSDB deixou de fazer há muito tempo, isso compensava a falta de alternância. Aí, num belo dia, assim do nada, leio na internet que o PPS resolve se fundir com o nanico e insignificante PMN e criar um novo partido, uma tal de Mobilização Democrática. Pensei que isso fosse apenas fofoca política, dessas que pipocam todo dia na internet. Mas aí vi que a porra era séria. O PPS, com a intenção de ganhar aí um mardito minuto a mais na TV resolveu se juntar com um partido que nem os próprios políticos sabiam que existe e jogar fora toda a tradição do PCB-PPS. Tá, o PPS andava meio apagadinho, mesmo. Mas se fundindo com outro partido e criando uma nova agremiação com um nome pensado às pressas que não diz nada com coisa alguma e abrindo "janelas" para a filiação de políticos "descontentes" com seus partidos pode até ser uma forma eficiente de ganhar visibilidade e relevância, mas não é a forma mais íntegra. Não, não há nenhuma irregularidade nessa fusão. Pelo contrário: isso ajuda a diminuir um pouco a quase interminável lista de partidos políticos no Brasil. Mas, se por um lado é legal, por outro lado isso trai o ideal esquerdista do partido e joga fora todo o discurso de renovação da "nova política" que o PPS paulista vinha apresentando. 

Não me desfiliei do PPS - agora MD, e não sei ainda se irei me desfiliar, até porque não vejo outro partido para me filiar. Me simpatizo bastante com a Rede da Marina, mas não sei bem onde os militantes marineiros pretendem chegar, e isso pode acabar fazendo com que a Rede seja um partido a mais, assim como o PSD do Cassabe (sim, eu sei que não se escreve assim, mas eu também gosto de escrever Adade. Me deixa! rs). Por enquanto prefiro ver os rumos que essa Mobilização Democrática vão tomar.  Se o partido virar mais um, saio fora. 

Só sei de uma coisa: me desencantei com a política. De novo. 

Cat Power: ela estará entre nós!



Demorou, mas agora é certo: Cat Power (ou Charlyn Marie ou ainda Chan Marshall, como preferir)  estará entre nós, brasileiros! A Turnê Sun, do álbum homônimo lançado em 2012, estará no Brasil em 8 de maio no Circo Voador - RJ, 18 de maio no Catamaran, em Recife-PE e dia 21 de maio no Cine Joia, em São Paulo-SP.

Sun é o álbum mais pessoal de Cat Power. Apesar de ainda apresentar a mesma angústia dos álbuns anteriores, em Sun Chan Marshall parece mais à vontade para falar da expectativa social e da opressão social vivida pelos jovens em qualquer lugar do mundo. O álbum, que já foi classificado como um dos melhores lançados em 2012 pela revista Rolling Stone, foi todo produzido pela própria Cat Power e gravado em Malibu, na Califórnia.

Quem segue esse blog há algum tempo sabe que curto muito as músicas da Cat Power. Gosto da forma como ela compõe, não muito comercial mas autêntica. Aliás, Cat Power consegue ser autêntica até quando regrava canções de outros nomes, principalmente de Bob Dylan, seu cantor preferido. 

Se eu vou nesse show? Claro, apesar do horário meio tenso, pois o show está previsto para começar à meia-noite. Quem vai de ônibus, como eu, volta pra casa como? Mas nem que seja pra ir sozinho e dormir em algum ponto de ônibus pra esperar a primeira condução do dia seguinte, mas vou! rs Há anos espero por uma apresentação de Cat Power no Brasil e não posso perder essa oportunidade. 

Quem tiver interesse pode acessar o site do Cine Joia, onde ela irá se apresentar em SP. 

Cat Power com Jimmy Fallon




Cat Power esteve ontem, 5 de abril, no programa Late Night With Jimmy Fallon, da TV americana NBC e cantou Manhattan, uma das músicas do novo álbum Sun, lançado em 2012. Lembrando que Cat Power vem ao Brasil em maio desse ano para apresentar a turnê em SP, Rio e Recife.

#Musica Ein Elefant Für Dich - Judith Holofernes



Ela não tem a melhor voz do mundo e canta em um idioma que os brasileiros simplesmente ignoram por completo, tanto por ser dificílimo como por um certo desinteresse por tudo que não seja cantado em inglês. Judith Holofernes, nascida Judith Holfelder von der Tann, é alemã e vocalista da banda Wir Sind Helden (WSH), uma das mais expressivas bandas que surgiram da chamada Hamburg Schule - Escola de Hamburgo, movimento musical criado na Alemanha nos anos 80 para fazer frente à influência das músicas feitas em língua inglesa sobre os alemães, que se interessavam mais pelo que era produzido fora do que pelo que era feito na própria Alemanha. Dessa escola saíram nomes do rock, pop, indie, punk e outros estilos que hoje fazem parte do dia a dia dos alemães como Tocotronic, Blumfeld, Die Stern, Virginia Jetzt!, Tomte.

Criada em 2001, Wir Sind Helden tem quatro álbuns lançados e diversos singles de sucesso na Alemanha, além de estar sempre no topo dos álbuns mais vendidos na Alemanha. O trabalho mais recente da banda é de 2010, Bring Mich Nach Hause (Me leve pra casa).

Se Judith Holofernes não é a dona da voz mais bonita da Alemanha ela compensa isso com uma afinação impecável e uma capacidade quase única de cantar graves e agudos com a mesma perfeição. Somando a isso, sua incrível e belíssima sensibilidade na voz, algo meio difícil para um idioma pesado como o alemão, é quase um dom. É quase possível sentir a mensagem de cada música cantada por ela, mesmo que você não entenda uma letra do idioma. 

Dou como exemplo disso Ein Elefant Für Dich (um elefante para você), uma das canções mais belas da banda, tanto pela letra romântica que fala do amor que suporta qualquer problema como pela melodia cativante. 



Calma, segue a tradução:

Eu vejo nós dois, você há muito tempo está 
muito pesado para os meus braços, mas eu não vou te deixar aqui 
Eu sei que seus monstros são exatamente como os meus 
E é melhor não ficar sozinho com eles
Eu sei, eu sei, eu sei e não pergunto 

Segure forte em mim, suba, eu te carrego 
Eu me tornarei enorme para você 
Um elefante pra você 
Te carrego milhas longe 
Sobre esta terra 

E eu Te levo o mais longe que puder 
Eu te levo o mais longe que eu puder 
Até o fim do caminho, se preciso for 
Eu te levo 
Te levo além do rio 

Aquele que não devia, chora ao telefone 
E aquela que não queria, Chora e já sabe 
Suas pernas não te carregam como elas devem 
Tantas vezes vão, ainda sem querer ir embora 
Eu sei, eu sei e eu não suporto isso 


Segure forte em mim, suba, eu te carrego 
Eu me tornarei enorme para você 
Um elefante pra você 
Te carrego milhas longe 
Sobre esta terra 

E eu Te levo o mais longe que puder 
Eu te levo o mais longe que eu puder 
Até o fim do caminho, se preciso for 
Eu te levo 
Te levo além do rio 

E eu Te levo o mais longe que puder 

Textos verdadeiros, autores falsos



Se há uma coisa difícil de controlar na internet é a autoria dos textos publicados. Quem nunca viu textos de Clarice Lispector na internet que ela provavelmente nunca escreveu? Ou belas reflexões de Caio Fernando Abreu que provavelmente nunca passaram pela sua cabeça? Mas o campeão de textos atribuídos falsamente é Luis Fernando Veríssimo. A ele já atribuíram todo o tipo de textos, desde ofensas a times de futebol até belíssimas reflexões sobre a vida. Um dos mais famosos é uma crítica ao BBB, que desde 2009 vem circulando a internet, e esse ano novamente passou a circular, se referindo dessa vez À 13 edição:

"Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB..."

Não vou colocar o texto completo, pois além de ser longo você provavelmente já o leu em algum lugar. A cada edição do BBB ele circula novamente pela internet, sempre pelos moralistas de plantão que adoram posar de defensores da moral e dos bons costumes, que usam o nome de Luis (sem acento no I e com "s") Fernando Veríssimo para dar um ar de "intelectualidade" ao texto. Porém o próprio Veríssimo já disse que esse texto não é dele, em um artigo publicado no Blog do Noblat em 2010

Até eu, aqui no alto de minha insignificância, já tive vários textos meu plagiados em blogs. Alguns dão o crédito, outros publicam como "autor desconhecido", ou ainda mudam algumas palavras do texto e usam o próprio nome para ganhar alguma pseudo-fama na internet, sem falar em um certo blog que me colocou como "colaborador" e publicava todos meus textos publicados no Insoonia como se tivessem sido escritos especialmente para aquele blog. 

É, é meio difícil mesmo controlar o que se publica na internet. E não acho que alguma lei resolveria o caso. O que resolve mesmo é o bom senso de quem publica para procurar a fonte do que irá publicar, ou quando não é possível identificar a fonte, avisar isso. Não custa nada e torna a internet um lugar mais honesto. 

Quem sabe num futuro utópico?

Angela Merkel: a mulher mais poderosa do mundo #Mulheres2013


Por Liesel Hoffmann


Não sei se tem alguma lista da Times que comprova isso, mas qualquer lista é desnecessária: os fatos comprovam: Angela Merkel é a mulher mais poderosa do mundo, hoje.

Primeira-ministra alemã, 57 anos, casada e sem filhos, Angela vem se mostrando dia após dia como uma das principais lideranças mundiais, principalmente em meio a crise econômica que vem fazendo países como vítima em toda a Europa. Colocando a Alemanha na dianteira das soluções para a crise europeia, Angela mostra que tem pulso firme para tomar decisões e que sabe o que é melhor para outros países que se encontram perdidos em meio a um mundo de dívidas intermináveis, como a Grécia.

É filha de um casal de pastores luteranos de Hamburgo, que logo trocaram a cidade pela Alemanha Oriental comunista, onde religiosos não eram bem vistos. A família de Angela nunca foi igual às do leste. Eles recebiam correspondências e pacotes do lado oeste. Por isso, ao contrário de outras meninas, Angela usava jeans e dispunha de confortos que seus vizinhos não podiam se permitir. Outra grande mudança em sua vida foi a construção do Muro de Berlim, em 13 de agosto de 1961. Com a contrução da barreira, acabaram-se as viagens para Hamburgo e as visitas aos familiares deixados lá.

Os biógrafos a retratam como uma aluna aplicada, a primeira da classe, sem ser competitiva. Não há uma unanimidade sobre seu pai, que se manteve entre a crítica e a adaptação ao regime e que pode ter tido uma curta relação com a Stasi (serviços secretos da RDA).

Aos 23 anos, casou-se com Ulrich Merkel, um colega de estudos. O casamento "simplesmente ocorreu porque todos faziam isso na época", disse uma vez Angela, que não teve filhos. Divorciou-se cinco anos depois e, aos 32 anos, complementou seu currículo acadêmico com um doutorado em Física, em cuja tese ela agradece a Joachim Sauer, seu atual marido. Em fevereiro de 1990, Merkel deixou a Física de lado e entrou na CDU. Depois, se tornou porta-voz do último primeiro-ministro da Alemanha Oriental, Lothar de Maiziere. Mais tarde, Helmut Kohl fez dela sua ministra para a Mulher e a Juventude, em 1991. Deu-lhe uma das vice-presidências da CDU e depois a transferiu para a pasta dO Meio Ambiente, em 1994.

Com a derrota de Kohl, em 1998, Merkel assumiu a secretaria-geral do partido, com Wolgang Schaeuble, o eterno herdeiro do patriarca, já na Presidência da CDU. Os que esperavam que ela ficaria parada se equivocaram. O escândalo das contas secretas respingou em Schaeuble e ela teve uma atitude inesperada: publicou um artigo no conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung em que declarava sua emancipação de Kohl.

Schaeuble estava acabado, a relação com Kohl se rompeu e ela assumiu a Presidência da CDU, em 2000. Era a primeira mulher à frente de um partido que até então só conhecia patriarcas.
Mas as adversidades não a desanimaram. Merkel recebeu com um sorriso o que pareceu sua grande derrota: em 2002, o bávaro Edmund Stoiber se apresentou como candidato à Chancelaria, por considerar-se mais apto para derrubar Schröder. O que não aconteceu.

Angela Merkel também não tem filhos com Joachim Sauer, divorciado e pai de dois rapazes, com os quais ela mantém uma relação cordial.

Sem o mesmo alarde feito pelo Brasil, Angela Merkel é a primeira mulher a assumir o cargo de chanceler alemã, além de ser a primeira militante com história política na Alemanha Oriental a assumir um alto cargo no governo alemão - o principal cargo, diga-se de passagem, se considerarmos que na Alemanha o Primeiro-Ministro tem mais poderes que o próprio presidente da República. Considerada conservadora pelos políticos alemães, Angela mostra uma capacidade incrível de lidar com os bastidores da política, conseguindo apaziguar ânimos raivosos entre todos os partidos alemães, inclusive dentro de seu próprio partido, o UDC - Partido Cristão Democrático, que vive de tensões entre católicos e protestantes que disputam espaço político.

Politicamente, Angela Merkel tem tudo o que um político não deve ter: não tem o menor carisma, nem sempre tem respostas para tudo e usa seu sorriso malfeito para disfarçar uma timidez enorme. Mas mesmo assim a mulher mais poderosa do mundo atual vem mostrando que sabe o cargo que tem, a importância que tem e que sabe o que fazer.

Bem, essa foi minha análise de Angela Merkel, uma mulher que, ao meu ver, tem competência o suficiente para dominar o mundo. Agradeço ao Wesley Talaveira pelo convite para participar da Semana Mulheres com Novas Ideias aqui no blog.


Liesel Hoffmann, 26 anos, é jornalista e mora em Berlim. Alemã de Hamburgo, cresceu no Brasil e retornou ao seu país em 2009.


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