Eu, Psoríase



Existem coisas que surgem em nossa vida contra as quais devemos lutar até o fim, sem perder a motivação nunca. Pergunte a uma pessoa com câncer se isso não é verdade. Sim, certas coisas, por mais complexas e difíceis que sejam, devem ser combatidas com toda força, ânimo e disposição possíveis. Nessas horas encontramos apoio onde menos esperamos e, lutando dia após dia, vencemos. 

Mas certas coisas que vem sobre nós dispensam qualquer luta. É isso mesmo, há coisas em nossa vida contra as quais é inútil lutar. São coisas que não te destroem por completo, mas que também não te abandonam. Ficam ali, pra sempre. A unica coisa que resta é aceitar e conviver com aquilo. Reaprender a fazer coisas, sob uma outra ótica, tendo como companhia, como peso na bagagem, algo que irá nos acompanhar. Pelo resto da vida. 

Há dez anos iniciei um tratamento de pele para umas lesões bastante estranhas que me incomodavam. Não coçavam, não ardiam, mas escamavam e davam uma aparência estranha. Após vários remédios pomadas e muito dinheiro gasto em farmácia, fui diagnosticado como portador de Psoríase. Respondendo às inúmeras caras de "ué" que se formaram agora, psoríase é uma doença autoimune que ataca as células da pele, transformando células saudáveis em células doentes. No caso da psoríase, essas células doentes causam lesões avermelhadas com "casquinha" branca por toda parte do corpo. 

Quando recebi o diagnóstico, perguntei à médica qual seria o tratamento para sarar isso, e recebi a resposta: "pois é, tratamento existe, mas não pra sarar. A Psoríase não tem cura". A expressão "não tem cura" fez um eco na minha cabeça. Diga para um moleque de 18 anos que ele tem um problema de saúde com o qual terá de conviver para o resto da vida. Passam 40, 50, 75, 89 anos e a doença está lá, firme. Sim, me desesperei. E isso foi pior. 

A Psoríase, apesar de não ser causada por fatores psicológicos, se agrava bastante quando o emocional está ruim. Eu, cheio de lesões pelo corpo, me desesperei. Queria por toda maneira esconder essas lesões. Passei a usar roupas longas. Apenas calças e agasalhos ou camisa de manga longa para esconder as lesões do braço. E ao passo em que eu tentava remediar, a coisa piorava. Mais lesões apareciam todo dia, pelo corpo inteiro: pernas, braços, barriga, costas, mãos e, por mais que eu usasse todo o tipo de pomadas e cremes, nada resolvia. Até que as lesões surgiram no rosto. Nesse ponto minha médica assumiu: eu estava na fase crítica da psoríase.


Daí pra depressão foi um pulo. Precisei de calmantes. Notei pessoas se afastando de mim. Colegas de trabalho riam. Eu era o "perebento" do lugar. Todos sabiam onde eu havia passado, pois o rastro de casquinhas brancas ficavam no lugar, tamanha era a crise da psoríase. Passei a me isolar. Me afastei de amigos. Me tornei irritadiço. Só não foi pior porque durante o tratamento tive uma médica fantástica, a dra. Márcia Daibes que me apoiava e me motivava, elogiava meus progressos mesmo quando não haviam nenhum. O que me ajudou nessa fase também foi a namorada que eu tive nessa época, que em nenhum momento me rejeitou por causa das lesões. Mantivemos nossa rotina: íamos ao cinema, ao shopping (e nós trabalhávamos num shopping!) e a outro lugar como qualquer casal de namorados faz. Nada no relacionamento mudou por conta da psoríase. O relacionamento acabou uns anos depois, mas não por causa disso. Caso ela leia esse post, obrigado pelo apoio que você me deu nessa fase difícil. 

Me lembro de num dia, numa das consultas com a dra. Márcia ela me orientar sobre como viver com a psoríase: "aprenda a conviver com ela. Ela não vai sair daí porque você está mal, pelo contrário, quanto pior você estiver mais presente ela vai estar. A psoríase é como um ciclo vicioso, então desencana e viva sua vida. E quem quiser olhar, que olhe". Foi difícil, mas resolvi tentar seguir o conselho. Comecei a usar novamente camisetas. Sim, as pessoas olhavam. Mães afastavam os filhos (é verdade, vi isso acontecer). Uma senhora uma vez me perguntou num ponto de ônibus se podia orar por mim, para que "esse espírito de doença" me deixasse. Agradeci, mas respondi que não. 

Aos poucos a vida começava a voltar ao normal. Refiz amigos que perdi e deixei irem embora os que me ridicularizavam. Mudei de emprego. Terminei minha faculdade. Aceitei a psoríase. Entendi que lutar contra ela seria perca de tempo. Ao invés de tentar curá-la, passei a concentrar minhas energias apenas em controlar as lesões e levar a vida pra frente. Aceitei conviver com isso. E deu certo. Tão certo que aos poucos as manchas sumiram. Lesões feias deram lugar a sinais brancos na pele. Claro que a Acitretina que tive de tomar ajudou bastante, mas no tratamento da psoríase o estado psicológico conta muito no processo de recuperação, e eu sabia que tinha de mudar minha forma de ver a doença. Mudei. 

Tive que mudar de médica, pois a dra. Márcia passou a atender apenas pelo SUS. Depois de várias tentativas desastrosas (e uma delas foi realmente desastrosa) encontrei a dra. Viviane Higashi, que além de ser uma profissional competentíssima tem um astral maravilhoso, daquelas que te motiva mesmo. Posso dizer que hoje estou em fase de controle. Ainda tenho lesões, mas em quantidade muito menor do que tive na fase crítica. Sim, tenho toda uma viadagem todo um ritual a cada vez que tomo banho, com creme específico para cada lesão, para as unhas (a psoríase compromete muito a resistência das unhas), para o corpo, shampoo especializado, pomada pra aumentar a resistência da pele e por aí vai, mas aprendi a conviver com isso. Sei que vou ter de levar esse tratamento pra sempre. A vida passa, amores vem e vão, mas a psoríase estará lá, firme. Então lá vamos nós!

Sim, eu fiz um drama enorme no começo do post - e durante o post, também, mas porque para mim o começo foi muito, muito tenso. Esse ano faço dez anos de tratamento e todo dia leio algo na internet sobre pessoas que passam pelo mesmo drama que eu passei no começo. Pra essas pessoas, dou o mesmo conselho que minha médica deu no começo: aprenda a conviver com isso. É a única alternativa que você tem. Não adianta ficar buscando cura com remedinho indicado por amigos, pela avó, pelas tias-avó nem ficar se matando pedindo cura na sua religião (já me indicaram a igreja do Valdomiro Santiago, dizendo que "lá muita gente é curada"). Aceite, você tem psoríase, mas ela não pode determinar quem você é. Como a dra Viviane me disse numa das consultas, as pessoas vão olhar de qualquer jeito: se não é pela psoríase, é porque você é gordo, ou porque tem o cabelo curto, cabelo longo, usa roupa curta, usa roupa colorida, é alto demais, é baixo demais, é muito bonito, é muito feio. Enfim, deixe que olhem. 

Navegar é preciso!

Octagon Girl #2: Muay Thay para mulheres



Jhenny Andrade, no blog Papo de Octagon Girl


Na última segunda-feira tive o meu primeiro contato com o Muay Thai. De cara me apaixonei! Gostei tanto que treinei todos os dias da semana.

Por incrível que pareça – e até eu custo a acreditar nisso - as artes marciais estão me conquistando. Quando entrei para o time do UFC, nunca imaginei lutar e, inclusive, gostar disso.

A aula Muay Thai não consiste apenas em socos e chutes. Meu professor traz para cada dia um treino diferente. São circuitos com bola, cordas, chutes, socos, abdominal, etc. Quando vejo, a aula de 1h e 30minutos já chegou ao fim. Uma pena! Por que fica o gosto de quero mais.

Decidi trocar definitivamente a musculação pelas aulas. O exercício da arte marcial melhorou minha vida em todos os sentidos. Minha definição corporal está mais rápida e sinto uma sensação imediata de leveza e felicidade no final de cada dia. Todo o stress da minha rotina diária fica lá na academia.

Vocês podem estar pensando: que louca, e a musculação? E o trabalho de coxa? E o bumbum durinho? Quer saber a verdade? Eu não consigo me apaixonar pela musculação! Não gosto de rotina. Por mais que existam várias formas e aparelhos para se exercitar em uma academia, eu ainda acho o método muito chato.

Já chamei todas minhas amigas para treinarem comigo e a primeira pergunta delas: "Mas não tem só homem na aula?" Não meninas! Não tem só homens. Inclusive onde eu treino tem mais mulheres do que homens. Um dia dessa semana inclusive tinham cinco mulheres e apenas um homem na aula. 

Ser uma octagon girl me ajudou a ver o MMA com outros olhos. Hoje eu sou uma pessoa que a cada segundo que passa, entende mais e mais do esporte e estou curtindo demais entender do Muay Thai. Agora vou ver as lutas no UFC com olhos técnicos. 

Ah, fica a dica. Antes de começar a praticar qualquer exercício físico procure um médico e veja qual é a recomendação do especialista. 

Beijos, Jhenny Andrade


Jhenny Andrade é modelo e atualmente Ring Girl. Já foi a "namorada perfeita" da Revista VIP, além de vários outros trabalhos de moda e comunicação. 

#Livros: Reconstruindo Amélia, de Kimberly McCreight



Weslley Talaveira

Terminei de ler semana passada Reconstruindo Amélia, da americana Kimberly McCreight. Não tinha qualquer recomendação sobre o livro quando o comprei. Fui unicamente pela capa e pelo título que me chamou a atenção. Tá, eu sei que não se deve julgar um livro pela capa e etc, mas eu faço isso. Paciência… 

Kate Baron é uma importante advogada que, em meio a uma importante reunião no escritório onde trabalha, recebe uma ligação da escola da filha, exigindo a presença da mãe naquele momento. O motivo seria uma suspensão recebida pela filha por plagiar um trabalho de literatura, e a mãe deveria comparecer naquele momento para buscar a filha. 

Sem entender como Amélia, sua filha sempre exemplar e estudiosa, poderia ter plagiado um trabalho, principalmente de literatura, a matéria preferida da filha, Kate vai ao colégio e ao chegar lá encontra a cena que toda mãe sonha em nunca ver: Amélia Baron, sua única filha, estava morta, depois de cair do telhado do colégio. A polícia encerrou a investigação tratando o caso como suicídio pelo desgosto da garota de ter sido pega em sua tentativa de plágio, mas Kate sabe que é impossível que sua filha tenha feito isso. Indo contra tudo e contra todos Kate resolve reabrir o caso, com a ajuda do novo investigador de polícia que a acompanha num emaranhado de informações cada vez mais pesadas e secretas sobre a vida da filha, a quem Kate pensava conhecer tão bem, além de acontecimentos secretos e bastante constrangedores envolvendo a rígida escola onde Amélia estudou e onde foi encontrada morta. Aos poucos Kate conhece não só a rotina da filha, mas um mundo de adolescentes onde a violência e a promiscuidade parecem regra para ser aceito.

Confesso que o começo do livro é cansativo. Mas a história vale a pena. Reconstruindo Amélia tem o toque de romance policial característico do gênero, mas com o drama de uma mãe em busca de respostas sobre a morte de sua filha. A autora consegue incluir em sua história vários personagens, o que no começo dá a sensação de que muitos deles acabarão sem explicação, mas consegue amarrar toda a história em torno do tema principal. 

Uma das grandes sacadas da autora é mesclar a narração entre a própria Amélia, que narra o que aconteceu com ela mesma, e uma terceira pessoa que conta a tentativa de Kate descobrir o que se passou com a filha. Isso dá ao leitor o poder de já conhecer a história antes da mãe da garota, que junta evidências para entender acontecimentos já narrados ao leitor antes pela própria Amélia. 

É uma leitura interessantíssima. Sim, em vários momentos a história temo tom de um romance adolescente, principalmente nas narrações de Amélia, mas o contexto da história justifica a forma como Amélia se comunica com o leitor. 

Recomendo!