Jesus já voltou. E nós o matamos novamente | Reflexão #57




Por Wes Talaveira


Um dos pilares da fé cristã é a crença de que, algum dia, Jesus Cristo irá voltar ao mundo. A forma como isso se dará varia de acordo com cada vertente cristã, mas todas creem nisso: em um determinado momento, Jesus não só virá a esse mundo novamente como irá levar embora todos os que são fieis - acontecimento que os protestantes chamam de "arrebatamento". 

A verdade é que Jesus já voltou. Esteve entre nós. E mais uma vez o matamos. 

No dia de Natal - por coincidência, o dia escolhido para se comemorar o nascimento de Jesus - um homem foi assassinado dentro da estação Pedro II do metrô de São Paulo. Dois homens bêbados o agrediram até a morte. O motivo: o homem tentou defender uma travesti que, não fosse por ele, provavelmente seria a vítima da noite. 

Esse homem, um senhor simples e de poucas posses, morreu por tentar defender um marginalizado, morador de rua. Esse homem, que ninguém sequer sabia existir antes do ocorrido, arriscou a própria pele para defender a dignidade de uma travesti que ele provavelmente não conhecia, e que ninguém até agora sabe quem é. 

Alguma semelhança entre as duas histórias?

E, assim como há dois mil anos atrás, nós o matamos novamente. "Nós?", alguns vão perguntar. Sim, nós. Um dos assassinos disse não ser uma "má pessoa". Claro, para ele não há nada de errado agredir uma travesti, é apenas uma bicha. A intenção dele era pegar só a "bicha". O velho entrou no meio e acabou sendo vítima do "impulso" de um homem "bom", quer queria pegar "só uma bicha". Quem se importa com um "traveco", ainda mais um traveco morador de rua, provavelmente com mau cheiro e mal vestido? Quem liga pra pessoas assim? O velho ligou. Enquanto o velho era covardemente agredido, uma pequena multidão se aglomerou em volta, sem que nenhuma pessoa tentasse pelo menos segurar os agressores. Eram várias pessoas, conseguiriam segurar, se quisessem. Enquanto o velho era covardemente agredido, nenhum segurança do metrô sequer desconfiou da ação; talvez estivessem mais ocupados espantando algum ambulante vendendo bala Halls em algum vagão. Enquanto o velho era covardemente agredido, câmeras registravam a ação, sem que ninguém se mobilizasse para o que estava acontecendo. Só depois do velho morto é que o socorro apareceu, que a indignação surgiu, que o sentimento de justiça veio à tona novamente na sociedade. Só depois do acontecido. Enquanto acontecia ninguém moveu um dedo. 

Notou mais alguma semelhança entre as duas histórias?

Esses dois assassinos representam a nós todos. Nos representam quando defendemos a morte de pessoas que consideramos dispensáveis na sociedade - lembrem: a intenção deles não era matar o velho, eles queriam pegar a travesti. Nos representam quando dizemos que "bandido bom é bandido morto", mesmo sem definir bem o que consideramos ser um "bandido". Nos representam quando decidimos nossas diferenças no "olho por olho", na vingança cega. Nos representam quando separamos as pessoas em escalas, sendo que umas estão acima e outras abaixo, e as que estão abaixo não merecem qualquer atenção, apenas nosso ódio. Os seguranças do metrô nos representam também. Nos representam quando somos indiferentes à luta dos que não conhecemos, por estarem "distantes demais". Nos representam quando preferimos coisas a pessoas. Nos representam quando fugimos à nossa obrigação e preferimos algo menor, de pouca importância. 

Jesus já voltou ao mundo. Na verdade ele volta todos os dias. Ele toma ônibus com você, ele entra no metrô, ele se senta ao lado na praça, ele pisa no seu pé na rua, esbarra em você e derruba sua pipoca no chão. Jesus está em Aleppo, na Uganda, no Iêmen, na Brasilândia, na rua paralela à da sua casa. 

O ambulante foi um Jesus que matamos. O matamos porque ele, mais uma vez, defendeu um marginalizado. Matamos mais um Jesus. Quantos mais mataremos?


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Wes Talaveira
Publicitário, consultor de mídias sociais e inbound marketing, escritor e blogueiro há quase 10 anos. Já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião. 

Mia Khalifa: do pornô aos esportes | Freakpedia #48

Fonte: Instagram



Por Taynar Petrovna


Oi pessoal, tudo bem com vocês?

Se você é homem (e provavelmente algumas mulheres) você provavelmente conhece Mia Khalifa, a atriz pornô libanesa que movimentou a internet entre 2015 e 2016 com seus filmes polêmicos, principalmente porque em um deles ela usava uma burka. Isso gerou revolta entre os muçulmanos de várias partes do mundo, ela teve a conta hackeada por extremistas e foi ameaçada de morte caso colocasse os pés no Líbano novamente. Como ela não tem lá muita intenção de sair doa EUA, onde vive atualmente, ela não se incomodou muito, mas claro que toda essa repercussão negativa entre pessoas que já tem a fama de não serem muito compreensivos deve ter causado lá um certo medo nela. 

Fato que, tenha isso tudo algo a ver ou não, ela resolveu abandonar o pornô e se dedicar a outra coisa a qual ela sempre dedicou atenção: os esportes. Em suas contas no Twitter e no insta ela se intitula "The D.C. Sports Girl", pois ela acredita que sua influência na internet ajuda os times de Washington a ganharem popularidade, principalmente os Wizards (basquete), Redskins (futebol americano), Capitals (hóquei), Nationals (beisebol) e Florida State, time de futebol universitário não de Washington, mas também seu time de paixão.





Ela não tem formação jornalística, mas frequentemente é convidada para comentar esportes em programas de rádio, além de assinar uma coluna num jornal pequeno. Os times em si nem sempre gostam da "militância", pois os comentários dela costumam ser bem "ácidos".

Mas que, gostem ou não, ela comenta, não volta atrás no que diz e está ganhando espaço! Vai Mia!

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Freakpedia é a coluna de humor e variedades do Quem Foi Que Disse. Até 2016 eles eram um blog de humor de sucesso na internet, e após encerrar as atividades, trouxeram pra cá todo seu conteúdo.


Ray Schneider, a BloGirl de 2016 | #EspecialBloGirl




Por Wes Talaveira e Lari Oliveira


Sim, meus caros, temos uma vencedora! Depois de um concurso com mais de 10 mil votos - sim, dez mil votos - para escolher a melhor BloGirl de 2016, nossos leitores escolheram a BloGirl de novembro Ray Schneider como vencedora, com quase 37% dos votos, numa disputa apertadíssima - foram 37% da Ray Schneider contra 35,9%  de Bruna Corradini, a segunda colocada. 

Obrigado a você que votou, que se envolveu, divulgou, enviou mensagens - recebemos diversas mensagens de garotas interessadas em participar do BloGirl 2017 - enfim, a você que entendeu a proposta da série e levou a sério nosso Especial. 

Se você já é leitor do blog, já sabe que a série BloGirl tem a tarefa de, mais do que publicar ensaios sensuais, reeducar os homens na forma como admirar a beleza feminina, com ou sem nu. Algumas das maiores publicações masculinas no mundo perceberam isso e mudaram seu posicionamento, e essa coluna tem a intenção de contribuir na missão de tornar o mundo um lugar melhor para as mulheres. Como? Expondo a beleza delas e ensinando os homens a admirar da forma certa.

Caiu de paraquedas aqui agora e nem sabe o que é o BloGirl? Veja aqui!

Veja agora mais algumas fotos da BloGirl 2016 Ray Schneider!






























Veja como foi a reunião que definiu o clipe de "Eu Escolhi Você", da Clarice Falcão | Freakpedia #42




Por Wes Talaveira



(Estão na sala Clarice Falcão, Gregório Duvivier, diretor de edição e mais duas pessoas).


Diretor de edição: pessoal, a música ficou pronta. Vamos ouvir?

Todos: vamos!

(Diretor coloca a música. Ao final, todos em um silêncio constrangedor. Por fim, Clarice fala)

Clarice: meu, que bosta é essa?

Diretor: é sua música!

Clarice: mas isso ficou horrível. 

Diretor: foi o que deu pra fazer de melhor. A música é ruim desde o começo. 

Clarice: eu não vou divulgar isso! 

Diretor: o que fazemos? 

Pessoa 1: só se a gente compensar com o clipe. 

Clarice: sei lá...

Pessoa 1: faz um puta clipe e a gente consegue disfarçar a música ruim. É assim que funciona no show bussines, gente!

Diretor: tá, mas o que fazemos no clipe?

(novo silêncio)

Pessoa 1: e se a gente colocasse umas pirocas?

Diretor: você é louco?

Clarice: Piroca?

Pessoa 1: sim, faz um clipe fofinho, mas ao mesmo tempo coloca umas pirocas e umas bucetas bem feinhas, sabe? Aí você faz aquelas caras de paisagem que você faz tão bem pra fazer de conta que tá tudo certo. 

Pessoa 2: mas o que isso tem a ver com a música?

Pessoa 1: nada, mas o clipe vai ser tão impactante que as pessoas vão esquecer da letra. 

Gregório: gostei da ideia das pirocas. 

Clarice: Gregório, cala a boca!

Gregório: Clarice, é assim que funciona no Porta. As vezes a gente vê que o texto tá bem merda, aí fala mal da religião, que dá um puta impacto, e pronto. A visualização explode!

Clarice: e porque pirocas e bucetas feinhas?

Pessoa 1: você pode usar o discurso do padrão de beleza, essas coisas, sei lá. Vocês sabem disso melhor que eu.

Gregório: to gostando disso!

Pessoa 2: tá, e divulga isso onde?

Pessoa 1: no Youtube.

Diretor: mas o Youtube vai censurar, seu louco!

Pessoa 1: sim, aí a gente faz um barulho em cima disso. Fala que é censura, lembra dos tempos da Ditadura, etc

Pessoa 2: mas o Youtube censura qualquer coisa que tenha nudez, seja a música da Clarice ou não. Não é ditadura, é política do site, gente.

Pessoa 1: até que o público lembre disso, a gente já causou um barulho legal. 

Gregório: sim, aí fala que tem um contexto artístico...

Pessoa 2: desculpa, mas nudez artística é outra coisa bem diferente...

Gregório: sim, mas as pessoas não sabem disso. 

Pessoa 1: dá pra fazer até um discurso político disso.

Gregório: sim, põe a culpa no Temer e na direita conservadora que censura qualquer manifestação artística libertária. 

Clarice: Gregório, esquece o Temer, caralho. Parece que você tá apaixonado por ele! 

Pessoa 2: gente, não tem nada a ver uma coisa com a outra! Não tem nada de política, de conservadorismo, de arte, de libertarismo nem nada disso. O que vocês estão propondo se chama oportunismo. Aproveitar que há uma discussão forte sobre limites, sobre nudez na sociedade e tals e forçar a barra com nudez gratuita. 

Pessoa 1: e aproveitar pra fazer o público lembrar que a Clarice existe.

Diretor: é, porque se depender da música... (faz sinal de negativo).

Pessoa 2: puta que pariu, a música não tem nada a ver com nudez, gente. Não faz o menor sentido colocar piroca no clipe. Só vai criar debate fraco na internet. É isso mesmo que vocês querem? Para!

Clarice: tá, alguém tem outra ideia? Senão fechamos nessa.

Pessoa 2: e se você tentar outra música?

Gregório: meu, sai daqui seu tucano direitista golpista reaça. Deve ter votado no Aécio! Fora Temer!

(Pessoa 2 sai da sala)


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Claro que não foi isso. Mas pelo clie e pela reação que causou, a reunião deve ter sido algo parecido. 

Precisamos Falar Sobre Gordofobia | Precisamos Falar #3

Paola Torrente, modelo italiana

Por Wes Talaveira


Paola Torrente é modelo, tem 22 anos e está disputando o Miss Itália, concurso de beleza mais importante do país. Mas a participação dela não tem sido tranquila, por um motivo simples: apesar do corpo perfeito e sem qualquer marca ou sinal, apesar da beleza acima da média inclusive para a já desejada mulher europeia, ela vem sofrendo com o preconceito das demais participantes que a “acusam” de ser gorda, por vestir o manequim maior que a maioria das outras concorrentes – ela usa manequim 46, enquanto todas as outras usam 34 ou números próximos. 

Carlos não é famoso nem sua história passou na TV. Aliás, Carlos nem é seu nome verdadeiro. Mas seu caso é. Aos 32 anos, Carlos pediu demissão da empresa em que trabalhava, uma pequena agência de propaganda, e tentou suicídio. Motivo para os dois acontecimentos? A pressão que sofria no trabalho por ser gordo. Com 119 kilos e 1,74m de altura, era conhecido na empresa como Petter Griffin – o pai de família obeso de Family Guy – além de todos os dias ter de ouvir coisas como “lá vem o rolha de poço”, “não tenho o dinheiro do aluguel, Seu Barriga”, “E aí, Leôncio” e etc. Mas a gota d’água foi saber que perdeu uma promoção na agência por ser gordo – seu futuro coordenador não queria uma “equipe esteticamente desfavorável”, tendo um obeso entre os colaboradores sarados. 

Paola não se encaixa nem de longe no perfil de “gordo” que temos em nossa mente. Carlos sim. E ambos podem ser símbolos de um problema que vem crescendo silenciosamente a cada dia no Brasil: a obesidade, e com ela a gordofobia. 

Por um lado, nunca se falou tanto em alimentação balanceada, em estilo de vida fitness, em dietas das mais diversas; as academias nunca estiveram tão cheias, as lojas de produtos naturais nunca lucraram tanto, as nutricionistas nunca apareceram tanto na TV dando as mais variadas dicas de alimentação; ser “modelos fitness” no Instagram é garantia de muitos seguidores. Mas por outro os números da obesidade não param de crescer. O Brasil é hoje um país de obesos. 51% da nossa população está acima do peso, e perdemos apenas para os EUA em número de gordos. Por que essa discrepância tão grande? Arrisco dizer que o mundo “fitness” hoje afasta as pessoas acima do peso, pois só se comunica com quem já faz parte desse universo. Algo como se as academias e as nutricionistas só aceitassem em seu público pessoas já no peso ideal, e que queiram apenas manter esse peso. 

Essa pode ser uma das fontes da gordofobia: o gordo não se enquadra no padrão “fitness”, mas também não é aceito no lugar onde poderia tentar perder peso. 

Gordofobia, apesar do termo ainda não existir oficialmente, pode ser definida como a pressão social sofrida por uma pessoa única e exclusivamente por seu excesso de peso. Dentro dessa pressão pode se incluir piadas, ofensas, segregação e violência. Não sei se já existem números, pois o assunto é escasso de informação oficial, mas imagino que todo mundo conheça uma pessoa acima do peso que sofreu algum tipo de ofensa. Ou talvez você seja essa pessoa. 

A gordofobia é uma realidade. 

Tudo começa com a forma com que o gordo é visto na sociedade. Logo de cara o gordo é taxado como um doente, como uma pessoa que não soube se controlar com a alimentação, que comeu demais e não se exercitava; as vezes é isso mesmo, mas nem sempre obesidade é resultado de descontrole alimentar: algumas pessoas têm sim predisposição genética a ganhar peso, a famosa “tendência a engordar”. Facilidade em acúmulo de gordura, metabolismo lento e outras coisas podem estar por trás da obesidade. Mas a rotulação vai além da questão da doença. Ao gordo são anexados outros estereótipos como o “cara que não pega ninguém”, “a menina que ninguém quer”, o que deve ser sempre o “divertido da turma”, o “gente boa” e etc. E esses rótulos quase sempre acabam em segregação, em separação da sociedade entre sarados e gordos. 

Falamos muito no Brasil sobre a violência contra homossexuais, contra mulheres, mas pouco se fala na violência contra gordos. Porque o gordo é o tipo de pessoa que sofre pressão de todas os outros, seja gay, seja mulher, seja negro. Ninguém defende o respeito a uma pessoa acima do peso, pois o gordo é visto como alguém que não merece ser levado a sério. Isso precisa acabar. Mas como? Primeiro com o básico discurso do respeito. Não interessa a ninguém se uma pessoa se alimenta mal, se tem tendência a engordar ou qualquer outra coisa. Esse é um assunto que diz muito respeito a ela própria, e os demais não tem com o que se incomodar, muito menos que criticar. Além disso, o peso não é critério para nível intelectual nem moral, assim como a religião e a sexualidade não são. Gordos também podem ocupar os mesmos espaços que os demais. 

Só teremos uma sociedade realmente justa quando todas as pessoas tiverem suas garantias protegidas, seja ela negra, branca, gorda, magra, homem, mulher.

A gordofobia precisa acabar!

Bruna Passinato | BloGirl #12



Por Wes Talaveira


Enfim, estamos encerrando o primeiro ano de BloGirl aqui no Quem Foi Que Disse. Foram doze postagens, doze garotas diferentes, cada uma com seu estilo, sua personalidade diferente, mas todas com uma coisa em comum: a beleza perfeita que só a feminilidade pode apresentar. É esse o objetivo do BloGirl: admirar a beleza feminina de outro jeito, sem as palavras vazias e machistas de sempre, mas como se fosse uma obra de arte: observar cada detalhe, ver a beleza e a graça no que a mulher mostra, e no que ela opta por não mostrar.

E pra encerrar o ano, a convidada desse mês é modelo, tanto na profissão como modelo perfeito de beleza e graça. Bruna Passinato (@brunapassinato) tem a ambiguidade que torna a mulher tão especial: ao mesmo tempo é a garota rebelde, descolada, que não encana com as coisas pequenas e que resolve rápido o que quer, a mulher decidida que vai onde quer e faz o que dá vontade quando der vontade, sem ter de dar satisfações a quem quer que seja; a garota independente, dona de si e de seu mundo.

Mas o mesmo tempo é menina, a menina doce que precisa ser cuidada, amparada, amada, como qualquer outra garota; é a menina que sente medo, sente frio e pede ajuda, a menina que quer ter em quem ou o que se apoiar, a menina que se espelha em outros, que tem referências.

Ela reúne em si as duas maiores e mais belas personalidades femininas. E é isso que a torna tão especial. Por isso ela é a BloGirl de dezembro.































































































Todas as fotos foram retiradas do Instagram da Bruna Passinato, com autorização da mesma.