Precisamos entender que a vida não é igual a "Friends" | Crônicas #43




Wes Talaveira


Sim, é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que encontrar uma pessoa que ainda não tenha assistido a pelo menos um episódio de Friends. O longevo seriado americano criado por David Crane e Marta Kauffmann, que foi gravado entre 1994 e 2004, ainda hoje continua sendo o enlatado mais eficiente na função de prender a atenção de pessoas ao redor do mundo (o ocidental, pelo menos). Friends conta a história de um grupo de amigos – Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Chandler e Ross - que passam, sempre juntos, por situações complicadas do cotidiano. Novo emprego, novo amor, novos sonhos, expectativas, dificuldades de relação coma família, tudo é vivido em conjunto pelos amigos, que trocam suas experiências e se ajudam – ou não – nas mais variadas situações. 

Talvez seja esse o segredo de Friends: mostrar a realidade de qualquer jovem, seja americano, brasileiro, inglês. Guardadas as devidas proporções, quem nunca passou pelas situações mostradas na cena? Todos nós temos nosso momento de crise, e a série mostra exatamente como cada um de nós reagiria diante de situações adversas. É difícil não se identificar com algumas das situações muito bem retratadas na série. Quem nunca se sentiu meio bobo diante de um amor, como a Rachel? Ou quem nunca foi um “forever alone” como Joey? Ou ainda quem nunca tentou agradar uma mulher e viu tudo dar errado como o “fofo” Ross? 

O grande problema é o ambiente que a série cria, que nem sempre será uma realidade para todos. Em Friends a vida é baseada no convívio entre bons amigos, que sempre estão disponíveis um para o outro, seja para se ajudar, seja apenas para tomar um café no Central Perk. A vida em Friends é uma vida de pessoas bem relacionadas, com amizades bem construídas. Cada um ali é “amigo do peito” do outro, o “amigo certo das horas incertas”, para quem se confidencia os segredos mais profundos, para quem se conta as dúvidas mais inquietantes. Isso é muito bom quando você tem um amigo do tipo. Mas nem sempre esse amigo existe. 

Uma das grandes realidades de qualquer pessoa é o famoso “período de solidão” que cada um de nós enfrentamos, quando nos vemos diante de situações complicadas e tendo que tomar decisões “sozinhos”. Sim, tem momentos na sua vida em que é você e pronto. Você não vai ter uma Jennifer Anniston pra chamar de sua e deitar no ombro enquanto desabafa sobre suas dúvidas (bem que eu queria... rs). Maturidade, na verdade, é isso: saber tomar decisões e encaminhar as coisas mesmo quando você não tiver a quem consultar. Se fosse para consultar alguém sempre você não precisaria sair da casa dos seus pais, correto? 

Friends acaba por nos passar a ideia de que a vida só é perfeita quando você tem um grupo de amigos com quem contar o tempo inteiro. Por mais bem relacionado que você seja, por mais amigos e mais contatos no WhatsApp que tenha, você vai passar por situações em que não vai ter ninguém para chamar. Essa ideia de um mundo perfeito onde todos são bem relacionados o tempo inteiro, onde você sempre vai ter uma "best" ou um "brother" é uma ilusão que só existe em seriados e novelas teen, e trazer essa ideia para a vida real pode ser perigoso, pois pode resultar em frustração e decepção. 

Enfim, a série tem seu valor, tanto que durou dez anos sempre batendo recordes de audiência e com atores recebendo valores na casa do US$ 1 milhão por episódio. Mas deve ser vista como um bom entretenimento. Só isso. 



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Wes Talaveira é publicitário, social media e mora em SP 

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