Que Horas Ela Volta? | Vamos Mostrar Cultura #16




Por Wes Talaveira


Já está em cartaz o novo filme de Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?, com a comentadíssima atuação de Regina Casé. Estive na pré-estreia do filme, que aconteceu essa semana, e tive as melhores impressões possíveis. 


A pernambucana Val (Regina Casé) é uma empregada doméstica que mora na casa dos patrões. Além de pessoa de total confiança da família, ela é a babá de Fabinho (Michel Joelsas), a quem dedica carinho como se fosse seu próprio filho, e a quem o garoto recorre quando tem qualquer problema. Mas na verdade Val é mãe, e sua filha Jéssica (Camila Márdila), que vive em Pernambuco e a quem não vê há dez anos, liga avisando que vai morar em SP para prestar vestibular, na mesma faculdade para onde Fabinho se prepara para também prestar vestibular. Sem ter para onde ir com a filha, Val pede aos patrões que a deixem ficar por alguns dias, até que consigam um lugar para mãe e filha viverem juntas. Os patrões recebem Jéssica de braços abertos, mas com o passar dos dias a garota, que se sente em liberdade para circular livremente pela casa ("não aceito ser tratada como pessoa de segunda classe!", ela diz no filme), começa a questionar certos comportamentos da relação patrão X empregado, o que inicia uma série de conflitos numa convivência que parecia estabilizada. 

O filme, um misto de comédia e drama, trata de temas delicados, como a cultura brasileira de conservar em casa empregados que fazem trabalhos básicos como colocar e retirar a mesa do almoço, recolher objetos que estão à mão do patrão, um claro resquício dos tempos de escravidão. Além disso, expõe na tela um assunto antes escondido, presente todos os dias nas casas de famílias de classe alta Brasil afora: a relação entre patrão e empregado doméstico, que por vezes parece sadia, baseado no "ela é quase da família", mas que na verdade só funciona bem porque os empregados "sabem qual é o seu lugar"na casa do patrão. Val é a mulher que aceita tudo isso quieta, pois precisa do emprego. Jéssica é a peça que desestabiliza um sistema cruel, mas bem arquitetado e que funciona perfeitamente. Além disso, outros temas secundários, mas não menos importantes, estão presentes no filme, como a relação da mãe que teve de deixar a filha na terra natal para tentar ganhar dinheiro numa cidade grande, o filho rico que tem tudo em casa mas é carente de afeto, o marido que provê dinheiro mas se sente solitário, a esposa que tenta manter em pé um sistema que beneficia apenas a ela. Enfim, são vários temas diferentes, todos tratados com uma sensibilidade única, bem ao estilo de Anna Muylaert. Isso sem falar na atuação impecável de Regina Casé, por vezes cômica e por vezes sensível, que dá ao filme um realismo impecável.

Ao final da pré-estreia, um bate-papo com a diretora Anna Muylaert expôs vários pontos de vista das pessoas presentes sobre o filme. Numa coisa todos foram unânime: a delicadeza com que esses temas foram tratados é impressionante. Isso explica o filme estar sendo tão bem recebido fora do Brasil - Regina Casé recebeu o prêmio de melhor atriz no festival de Sundance, além de receber o prêmio de melhor filme no Festival de Berlim. 

Enfim, Que Horas Ela Volta? é um dos melhores lançamentos dos últimos no cinema nacional, tão marcado por comédias fracas, enredos pobres e atuações duvidosas. Anna Muylaert nos lembra que ainda dá pra acreditar no cinema brasileiro.


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Wes Talaveira
Publicitário, escritor e blogueiro há mais de 8 anos, já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião. 

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