Sob o brilho da lua



São mais de onze da noite, e a lua cheia insiste em roubar a visão de qualquer um que se aventure a olhar para cima. Da sacada da janela do quarto andar de um hotel barato e sem qualquer luxo Fernando olha a lua, que fica embaçada vista por detrás da fumaça do cigarro. No velho rádio Maysa enche o ambiente com Meu Mundo Caiu. O único ítem que adiciona algum glamour ao ambiente é o vinho do porto sobre a mesa de ferro ao lado da cama, onde também está a foto da esposa, a mesma a quem dedicara tanto amor e que agora não queria nem vê-lo. Já está hospedado ali há alguns dias, e pretende sair dali logo. Não sabe quando voltará para casa. Não sabe se voltará para casa. Sabia que a casa que fora sua, apesar de ainda a pertencer, não era mais seu lar. Não era mais bem vindo por lá. Fora enxotado do ninho que construíra com tanto carinho. Esqueceu-se por um momento da lua e passou a olhar a foto da esposa. Ela sorri, olhando para o lado, como se algo tivesse roubado a atenção dela logo no momento em que a foto fora tirada. O que a teria feito desviar o olhar? Não sabia, mas agora se via na mesma situação do dia em que aquela foto fora tirada: ele concentra toda sua atenção na mulher que ama, enquanto algo fútil desvia a atenção dela. Sofria por estar ali, mas sabia que não havia outro remédio. 

Não havia jantado e não iria jantar. Não tinha fome. Naquele momento tinha outras sensações mais importantes para sentir. O medo do abandono. A sensação de não pertencer a lugar algum. Sabia que uma simples ligação para a recepção encerraria seu vínculo com aquela espelunca. Mas não fora também uma ligação que havia acabado com vinte e cinco anos de um relacionamento estável? Nada de mais, nada de brigas intermináveis, nada de escândalos na rua, de pratos quebrados. Apenas uma ligação, e um "eu não te amo mais" foram o suficiente para encerrar uma fase na vida de Fernando. Como aquilo havia acontecido? Quando o amor de sua querida Sabrina havia acabado? Não perguntou nada disso. O amor havia acabado, e era a única coisa que precisava saber. Qualquer coisa a mais seria excesso de informação. Diante da expressão fria de sua ex-amada, reuniu o que era seu, colocou em uma mochila se seguiu sua vida, sem saber para onde. Levava nas costas o que sobrara de anos de construção, de trabalho, de dedicação. Tudo cabia numa bolsa. Só então percebeu que as únicas riquezas que havia acumulado na vida não eram físicas. Eram imateriais. E essas riquezas se foram água abaixo, junto com o amor de Sabrina. 

Ainda pensava quando a campainha tocou. Apagou o cigarro no batente da janela e foi até a porta. Do outro lado uma mulher de minissaia jeans e camiseta transparente o aguardava, fumando e com uma bolsa minúscula. Não parecia ser tão nova, mas não era velha. Era bonita, até. Nem era tão gostosa como dizia ser no anúncio do jornal velho que encontrara na cama do quarto quando entrara ali pela primeira vez, mas servia. Fez sinal para que entrasse. Tirou da carteira o dinheiro e entregou à Brenda, a prostituta que havia contratado para aquela noite. fez sinal para que ela se deitasse na cama e ele se sentou ao lado da mesa de ferro. Tirou os sapatos, a meia, a calça, camisa, cueca. Olhou a foto de Sabrina sobre a mesa. Tirou a aliança do dedo e colocou em frente ao quadro. Deitou-se na cama e, sob o brilho da lua cheia e ainda ao som de Maysa, Fernando transou loucamente com a mulher que havia pago para ser sua durante algumas horas. 

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