Maria Rita | Mulheres de Programa #1




Por Wes Talaveira



* Por questão de sigilo, a Maria Rita não autorizou a divulgação de nenhuma imagem sua. 



O calor abafado do fim de tarde de São Paulo cansa até mesmo os amantes do verão, e nada melhor do que terminar a sexta-feira com uma cerveja num bar legal com uma companhia agradável. Minha companhia naquela sexta seria um pouco diferente: eu estava esperando pela Maria Rita, 24 anos, garota de programa “nas horas vagas”, como ela mesma diz, que aceitou dar a primeira entrevista presencial para o Mulheres de Programa.

Dez minutos depois de eu estar no bar ela chega com roupa de quem acabou de sair do escritório, o que ela confirmou assim que sentou, pedindo mil desculpas por pensar que estivesse atrasada. Usava calça preta e camisa social branca discreta com os dois primeiros botões abertos, que acabou transformando a abertura num decote generoso. Maquiagem discreta e um par de brincos brancos pequenos. Os cabelos pretos estavam soltos. Ela é incrivelmente linda. O sorriso fácil revela o bom humor dela. É dessas que falam com todo mundo e atrai a atenção para si onde chega. Trazia uma bolsa pequena de onde tirou o celular para checar novas mensagens e logo o guardou novamente.

Com ela a abordagem foi um pouco diferente do que penso que deverão ser as próximas da série, pois já conheço a Maria Rita pessoalmente há alguns anos, ainda antes de ela ser a Maria Rita.
Depois de pegar um copo de cerveja e brindarmos, ela mesma inicia nossa conversa:

“E então Wes, o que você quer saber hoje? ”

Por causa do estilo de atendimento dela, reservado e totalmente sigiloso, ela não autorizou filmagens, mas aceitou que gravasse a conversa, com a condição de que a gravação fosse usada apenas para que eu pudesse transcrever o conteúdo completo, depois. Além disso, pediu que evitasse descrições muito completas dela (altura, cor da pele, etc), uma vez que ela estará totalmente exposta na matéria. Com risada alta e farta, ela conversou animadamente e, por várias vezes, parecia ter esquecido que aquilo era uma entrevista, dado o rumo gostoso da conversa.

Rita, antes de qualquer coisa me fale de você. Como começou tudo isso? Meu, foi uma coisa tão louca, tão ao acaso que eu dou até risada quando lembro. Fui numa balada liberal com uma amiga minha que é garota de programa. Cinco minutos depois ela já foi abordada por um cliente que a levou para outro lugar. Eu fiquei sozinha, por ali, e logo fui abordada por um cara. Pensei que ele ia pagar alguma bebida, sei lá, mas ele chegou logo perguntando meu preço. “Oi, como assim? ” Eu nem sabia do que ele estava falando. Aí ele “fala seu valor que eu pago”. Aí entendi que ele pensou que eu fosse garota de programa. Eu quase ia falar que não, que ele estava enganado, mas aí pensei “meu, quando vou ter outra chance dessas? ” E arrisquei. Joguei R$ 900,00 por uma hora. Pensei “mano, ele vai me mandar tomar no cu”, mas ele aceitou. Ele era lindo, charmoso. Eu teria transado com ele mesmo se ele não me pagasse nada. Ficamos por lá por um tempo até que fomos ao melhor motel de SP. Me respeitou o tempo todo, cumpriu a 1 hora sem chatice e ainda me levou de volta para a balada. Nesse dia eu pensei: fiz algo que gosto e ganhei dinheiro com isso, por que não tentar de novo?

Mas você sabe que correu risco, né? Sim, claro que corri. Vai que ele fosse um maluco que queria me matar, ou ia tentar me obrigar a fazer coisas que eu não queria. Mas já tinha conversado muito com a XXXX (ela pediu que não revelasse o nome da amiga) sobre isso e ela sempre me falava como identificar um maluco entre os clientes. Claro que não é uma ciência exata, mas ajuda.

E o segundo cliente, como foi? Por incrível que pareça, o segundo foi mais tenso. A XXXX tinha um cliente querido dela que ela não podia atender, e me indicou. Ele me ligou, e agendou hora e local. Eu tinha mais de 4 horas pra me preparar, mais fiquei nervosa. Tremia. Suava frio. Fiquei com medo de dar errado. De não sentir tesão, de não saber disfarçar. O primeiro eu tinha visto antes, sabia que era gato. Esse eu não conhecia, e a XXXX falou que era um senhor meio chato. Quase liguei pra ele pra desmarcar, mas eu não sou de desistir fácil do que eu me comprometo a fazer. Pra resumir: fui no local que ele indicou, e o atendimento não foi de todo ruim, pelo menos pra ele (risos), mas eu estava muito nervosa. Quando terminou eu estava aliviada.

Mas mesmo assim quis continuar atendendo outros clientes...  Sim, porque eu estava nervosa não por estar fazendo programa, mas pelo receio de não dar certo. Sou meio louca, né? Nunca senti culpa por ser garota de programa...

Calma, a gente ainda ia chegar nesse ponto, mas já que falou: em algum momento bate algum receio, alguma culpa, por saber que a sociedade vê as garotas de programa de forma tão pejorativa?Nunca.  Você me conhece e sabe que sempre fui do tipo foda-se a sociedade. Atender pessoas que buscam por sexo é só mais uma forma de trabalho como qualquer outra.  Tipo, não estou extorquindo ninguém, estou dando a uma pessoa o que ela procura, e ela paga por isso. O que a sociedade pensa é problema dela, não meu.

Mas mesmo assim você mantém um sigilo enorme sobre seus atendimentos.... Porque eu não sou garota de programa em tempo integral. Eu tenho minha profissão “comum”. E, por mais que eu mande um foda-se pra tudo, eu não posso ignorar que minha imagem no mercado ficaria comprometida se as pessoas soubessem que eu cobro por sexo. E... (pausa fofa para beijar um cachorro que estava passando na calçada do bar com uma senhora). Onde eu tava mesmo? Ah, sim. Já pensou no trabalho, todo mundo me identificar como “a prostituta da empresa”? Infelizmente essas coisas pesam muito, ainda. Eu sozinha não posso mudar o mundo. Enquanto a mentalidade das pessoas não muda, eu tenho que me adaptar. Espero que chegue um dia que eu possa dizer que sou profissional e, nas horas vagas, faço sexo pago.

Você acha que um dia o Brasil chega a esse nível? Sei lá, eu queria, mas acho difícil. A religião aqui tem um peso muito grande, e a forma como os religiosos veem o sexo é muito distorcida. Pra mudar a sociedade, primeiro precisaria mudar a forma como a igreja vê o sexo.

Aí você já tá querendo uma coisa impossível... “Tudo é possível ao que crê” (risos). Vamos pedir outra cerveja? (Chama o garçom).

Você tem religião? Fui criada em igreja evangélica, cresci na Congregação Cristã no Brasil e cantei em grupo de jovens. Até hoje tenho o Hinário de Louvores e Súplicas a Deus deles. Quando eu percebi que nada daquilo fazia sentido, saí. Mas ainda hoje acredito em Deus, oro todos os dias. Sei que fui chamada na graça mesmo sem estar na igreja.

Mas voltando ao assunto, dá trabalho ser garota de programa? Sim, muito. No meu caso ainda mais por causa do sigilo. Não anuncio em site nenhum. Não divulgo fotos minhas. Eu seleciono meus clientes pelo Twitter, apenas. Peço foto antes, pra ver se não conheço nenhum pessoalmente...

E já aconteceu de algum conhecido te procurar? Sim, três vezes. Dois colegas de trabalho, inclusive um dos diretores da empresa, e um era um amigo do meu pai. Já pensou? (risos). Rejeitei os três, e eles nem viram minhas fotos, então não sabem que sou eu.

Mas há o risco de alguém te identificar, não há? Sempre há, mas eu tento me proteger de várias formas.

Se algum conhecido seu soubesse do que você faz, como reagiria? Depende muito da pessoa. Você mesmo, me conhece desde bem antes de eu ser garota de programa, e reagiu muito bem. Além de você apenas outras duas pessoas sabem que faço programas. Tenho poucos amigos, exatamente pra ficar mais fácil esconder. Minha família não reagiria muito bem, eu acho... (nesse momento para um pouco e começa a olhar para o copo de cerveja, passando os dedos pela borda do copo).

Rita, você é feliz? (Continua olhando para o copo) Odeio essas suas perguntas filosóficas (risos)! Depende, na maioria das vezes sou sim. Tem horas que não sou, mas aí um chocolate resolve (risos). Mas no geral sou sim, me sinto satisfeita com a vida que tenho. Tenho saudade de algumas coisas, mas sou feliz sim.

Saudades de que, por exemplo? Do meu tempo de igreja, cê acredita? Era gostoso, o ancião da minha igreja era um fofo; eu cuidava dos meus veus como quem cuida de um filho! (A Congregação Cristã no Brasil exige que as mulheres cubram a cabeça com veu em seus cultos). Eu amava tocar na orquestra, era violoncelista. Participar de alguma coisa que não me dá retorno financeiro nenhum, mas me faz sentir parte. Isso faz falta, as vezes. Pena a igreja ser tão careta e não aceitar pessoas como eu, que curtem a vida da forma como querem. Eu amaria fazer parte de algum grupo, conjunto, sei lá! A Igreja aceita apenas quem se enquadra no padrãozinho formatado por alguém há muitos anos atrás.

Que coisa... Maluquice, né?

Bom, já falamos muito, então vamos encerrar a conversa? Apesar que você já disse, mas como você gostaria que as garotas de programa fossem tratadas no Brasil? Como profissionais que são. As pessoas pensam que profissão é aquela que você obtém depois de frequentar faculdade. Eu tenho duas faculdades e digo: profissão é aquilo que você faz bem e investe dinheiro para melhorar. Toda profissão é válida. Por isso adorei sua iniciativa de conversar com garotas de programa, e num ambiente informal como esse, sem pressão nenhuma. Toda iniciativa de quebrar o tabu sobre o sexo pago deve ser apoiada e aplaudida.

***
Nesse momento desliguei o gravador. Já tinha material o suficiente. Mas a conversa foi ainda mais longa do que o publicado acima; muito do que conversamos foi retirado, pois tornaria fácil a identificação dela. A conversa durou mais de 2 horas. Depois disso, ela ainda me ofereceu carona até parte do caminho, já que não tenho carro. Ao descer do carro dela, saí com a sensação de, assim como sempre que encontro a Maria Rita, ter tido uma das conversas mais incríveis da minha vida.

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