Precisamos Falar Sobre Gordofobia | Precisamos Falar #3

Paola Torrente, modelo italiana

Por Wes Talaveira


Paola Torrente é modelo, tem 22 anos e está disputando o Miss Itália, concurso de beleza mais importante do país. Mas a participação dela não tem sido tranquila, por um motivo simples: apesar do corpo perfeito e sem qualquer marca ou sinal, apesar da beleza acima da média inclusive para a já desejada mulher europeia, ela vem sofrendo com o preconceito das demais participantes que a “acusam” de ser gorda, por vestir o manequim maior que a maioria das outras concorrentes – ela usa manequim 46, enquanto todas as outras usam 34 ou números próximos. 

Carlos não é famoso nem sua história passou na TV. Aliás, Carlos nem é seu nome verdadeiro. Mas seu caso é. Aos 32 anos, Carlos pediu demissão da empresa em que trabalhava, uma pequena agência de propaganda, e tentou suicídio. Motivo para os dois acontecimentos? A pressão que sofria no trabalho por ser gordo. Com 119 kilos e 1,74m de altura, era conhecido na empresa como Petter Griffin – o pai de família obeso de Family Guy – além de todos os dias ter de ouvir coisas como “lá vem o rolha de poço”, “não tenho o dinheiro do aluguel, Seu Barriga”, “E aí, Leôncio” e etc. Mas a gota d’água foi saber que perdeu uma promoção na agência por ser gordo – seu futuro coordenador não queria uma “equipe esteticamente desfavorável”, tendo um obeso entre os colaboradores sarados. 

Paola não se encaixa nem de longe no perfil de “gordo” que temos em nossa mente. Carlos sim. E ambos podem ser símbolos de um problema que vem crescendo silenciosamente a cada dia no Brasil: a obesidade, e com ela a gordofobia. 

Por um lado, nunca se falou tanto em alimentação balanceada, em estilo de vida fitness, em dietas das mais diversas; as academias nunca estiveram tão cheias, as lojas de produtos naturais nunca lucraram tanto, as nutricionistas nunca apareceram tanto na TV dando as mais variadas dicas de alimentação; ser “modelos fitness” no Instagram é garantia de muitos seguidores. Mas por outro os números da obesidade não param de crescer. O Brasil é hoje um país de obesos. 51% da nossa população está acima do peso, e perdemos apenas para os EUA em número de gordos. Por que essa discrepância tão grande? Arrisco dizer que o mundo “fitness” hoje afasta as pessoas acima do peso, pois só se comunica com quem já faz parte desse universo. Algo como se as academias e as nutricionistas só aceitassem em seu público pessoas já no peso ideal, e que queiram apenas manter esse peso. 

Essa pode ser uma das fontes da gordofobia: o gordo não se enquadra no padrão “fitness”, mas também não é aceito no lugar onde poderia tentar perder peso. 

Gordofobia, apesar do termo ainda não existir oficialmente, pode ser definida como a pressão social sofrida por uma pessoa única e exclusivamente por seu excesso de peso. Dentro dessa pressão pode se incluir piadas, ofensas, segregação e violência. Não sei se já existem números, pois o assunto é escasso de informação oficial, mas imagino que todo mundo conheça uma pessoa acima do peso que sofreu algum tipo de ofensa. Ou talvez você seja essa pessoa. 

A gordofobia é uma realidade. 

Tudo começa com a forma com que o gordo é visto na sociedade. Logo de cara o gordo é taxado como um doente, como uma pessoa que não soube se controlar com a alimentação, que comeu demais e não se exercitava; as vezes é isso mesmo, mas nem sempre obesidade é resultado de descontrole alimentar: algumas pessoas têm sim predisposição genética a ganhar peso, a famosa “tendência a engordar”. Facilidade em acúmulo de gordura, metabolismo lento e outras coisas podem estar por trás da obesidade. Mas a rotulação vai além da questão da doença. Ao gordo são anexados outros estereótipos como o “cara que não pega ninguém”, “a menina que ninguém quer”, o que deve ser sempre o “divertido da turma”, o “gente boa” e etc. E esses rótulos quase sempre acabam em segregação, em separação da sociedade entre sarados e gordos. 

Falamos muito no Brasil sobre a violência contra homossexuais, contra mulheres, mas pouco se fala na violência contra gordos. Porque o gordo é o tipo de pessoa que sofre pressão de todas os outros, seja gay, seja mulher, seja negro. Ninguém defende o respeito a uma pessoa acima do peso, pois o gordo é visto como alguém que não merece ser levado a sério. Isso precisa acabar. Mas como? Primeiro com o básico discurso do respeito. Não interessa a ninguém se uma pessoa se alimenta mal, se tem tendência a engordar ou qualquer outra coisa. Esse é um assunto que diz muito respeito a ela própria, e os demais não tem com o que se incomodar, muito menos que criticar. Além disso, o peso não é critério para nível intelectual nem moral, assim como a religião e a sexualidade não são. Gordos também podem ocupar os mesmos espaços que os demais. 

Só teremos uma sociedade realmente justa quando todas as pessoas tiverem suas garantias protegidas, seja ela negra, branca, gorda, magra, homem, mulher.

A gordofobia precisa acabar!

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