#Especial: O desafio de ser ateu num país cada vez mais religioso





Weslley Talaveira


Sim, somos um país religioso, e disso ninguém duvida. Quase 87% dos brasileiros se dizem cristãos, independente de frequentarem ou não uma igreja. A religião está presente em nossas raízes. Pensamos, educamos nossos filhos e enxergamos o mundo sob os óculos da ética cristã, seja isso bom ou mal. Fomos colonizados por padres católicos, que aqui impuseram sua fé aos índios nativos. A maior e mais importante cidade de nosso país ostenta o nome do mais conhecido apóstolo de Jesus Cristo, o ex-fariseu e pilar da fé cristã São Paulo. Por aqui a visita do Papa é motivo de festa e de horas e horas de coberturas "exclusivas" por todas as emissoras de TV. Nossas notas de dinheiro trazem louvor a Deus. Pastores são consultados para manifestar sua opinião sobre assuntos da sociedade. A igreja e sua força estão presente nas ruas, nas escolas, na TV - que ainda dependem dos horários vendidos à igrejas para compor sua receita. Agradecer a Deus por alguma conquista trás um peso maior a qualquer comemoração. Falar em Deus agrega valor a uma conversa. Dizer que crê em Deus abre portas em qualquer ambiente.

Aí fica a pergunta: como é ser ateu num ambiente desses?

Tayhnar Petrovna tem 22 anos e mora em São Paulo. Trabalha durante o dia e estuda Publicidade e Propaganda a noite numa das melhores faculdades do Brasil, além de administrar um blog de variedades. Faz academia aos fins de semana e curte baladas. Tem um poodle e um gato vira latas aos quais dedica boa parte do amor que tem para dar. Tayhnar é uma garota como qualquer outra, e tem espaço em qualquer ambiente como qualquer outra pessoa comum teria. Mas ela mesma conta que não é sempre assim, por um simples motivo: ela está entre os 8% da população brasileira que assume publicamente seu ateísmo. Publicamente porque, para ela, há muito mais ateus no Brasil do que os números mostram, mas boa parte deles escondem sua opinião por medo das represálias.

Represálias? Sim, isso mesmo, e ela já sofreu algumas. "Já perdi amigos e deixei de ser convidada pra festas de aniversário por ser ateia", diz ela. Como ela reage? "Nem ligo", mas confessa que já se sentiu constrangida em conversas de amigos por ser a única a não crer em Deus. "Sempre me associam ao demônio. Pensam que por eu não crer em Deus creio no diabo. Qual a parte de 'não crer em divindades' essas pessoas não entendem?", questiona ela?

Glaucia Mantoan mora em Curitiba-PR e sempre se declarou ateia, mas por convenções sociais frequentou a Igreja Católica na adolescência (época da qual a única saudade que sente é o tempo em que roubava morangos no pomar da casa das freiras!) e passou pela Igreja Mórmon, além do Espiritismo e Budismo. Conta que, apesar de sempre questionar os ensinamentos que recebia, convivia bem com católicos, até que as igrejas pentecostais e seu fanatismo dominaram os espaços religiosos brasileiros. "Eles agem de forma criminosa para arrebanhar fieis", diz ela. Só aí sentiu a necessidade de se denominar ateia.

Gláucia não perdeu amigos por conta de seu ateísmo - pelo menos que ela tenha percebido - e conseguiu criar seu filho Mateus, hoje com 19 anos, sem a influência de nenhuma religião, apesar do forte apelo cristão a que as crianças brasileiras são submetidas diariamente nas escolas. "Ensinei meu filho que algumas pessoas tinham a necessidade de acreditar em alguma coisa para fazerem o que era certo", diz ela.

Assim como a Glaucia, Tiago Malafaia também cresceu entre católicos, mas conviveu mais tempo com a religião. "Tentei o catolicismo, várias igrejas evangélicas, espiritismo, mas depois percebi que procurar Deus nesses lugares seria como procurar sorvete em Júpiter: posso morrer de procurar, mas não vou encontrar porque ele não existe". Perdeu amizades e um namoro de 3 anos quando anunciou que estava abdicando de sua religião e de todo o conforto social que ela lhe trazia - Tiago era líder de jovens e diácono da Igreja Assembleia de Deus. Apesar de carregar consigo o mesmo sobrenome do mais famoso pastor brasileiro, a única coisa de que sente falta do tempo em que era religioso é a falta de congregar. "Ter um espaço onde encontrar gente legal, que pensa as mesmas coisas, cantar músicas legais, ouvir mensagens positivas, isso me faz falta. E foi esse o motivo que quase me fez voltar pra igreja", conta ele. Mas não voltou. "Seria uma desonestidade comigo e com as pessoas do lugar".

Se todos tem o direito de ter a religião que deseja ter, o direito a não ter religião nenhuma também deve ser preservado. Somos um país que a cada dia mais, vem aprendendo a aceitar as mais diversas formas de crenças, mas ainda não aprendemos a entender quem não tem crença nenhuma. Ser ateu, pelo menos no Brasil, é ser associado à falta de sentimentos, à frieza e à crueldade. Quantas vezes já não reagimos a uma notícia de algum crime horrendo com a frase "isso é falta de Deus no coração", ou suas equivalentes?

Enfrentar a força da religião pode ser muito mais difícil do que se imagina. Infelizmente quem se declara ateu é vítima de um preconceito socialmente aceito num país onde crer em Deus parece ser condição para ser respeitado como ser humano. Quem assume sua descrença é tratado como diferente, como alguém mau, de quem se deve manter distância.

Se isso vai mudar algum dia? "Espero que sim", diz Tayhnar, mas ela não espera mudanças para o presente. "Quem sabe meu filho, que será criado sob o ateísmo, se sinta mais a vontade do que eu", completa ela. 

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