Um outro olhar sobre a prostituição | Profissão Prostituta #1



Isabelle Bitencourt, acompanhante de SP. Foto: André Oráculo



Wes Talaveira





Acabamos de sair do Carnaval, época do ano em que "tudo é liberado", onde é permitido beijar na boca à vontade, transar como se não houvesse amanhã sem sequer perguntar o nome, perder a conta de quantas mulheres se "pegou" numa noitada, com uma única recomendação: use camisinha. Desde que o preservativo esteja na carteira, a permissividade é total, e até elogiada por alguns "comentaristas". 

E não, não sou contra nada disso. Você é adulto e livre pra fazer o que bem entende.  

Mas algumas coisas são curiosas: no carnaval, homens se vangloriam de terem ficado com várias mulheres, de terem transado loucamente e levado para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. A quarta-feira de cinzas é o dia oficial de contar aos amigos as "aventuras" do feriado: com quantas saiu, qual delas foi para a cama, como foi o sexo, se ficou ou não com o telefone de alguma, e por aí vai. Por que? Porque o sexo nesse caso é apenas um momento de diversão, serve apenas para relaxar, para se divertir, sem qualquer compromisso de relacionamento. Sexo e amor são coisas completamente diferentes, suprem necessidades diferentes no homem, e essa diferença fica muito explícita no carnaval - aliás, muitas coisas ficam explícitas no carnaval... 

Pois bem, vou pegar uma frase do parágrafo acima pra chegar onde quero chegar: você levou para cama uma mulher com quem não tem a menor intenção de manter um relacionamento. Isso é errado? Na minha visão, não. Mas se essa mesma mulher, essa que aceitou transar com você sem qualquer compromisso posterior resolve cobrar por isso, vira uma "vagabunda", "mulher da vida", "puta", dentre outros vários adjetivos que se queira dar. 

Sim, meus amigos, a prostituição é uma realidade da nossa sociedade. Elas estão por aí, nos flats, nos bares, na internet, oferecendo aquilo que elas sabem fazer de melhor: sexo. Porém ainda carregam um pesado estigma social pelo simples fato de cobrarem por algo que muitas outras fazem de graça: suprir a necessidade sexual de outros.

É interessante: vivemos numa sociedade que se diz "evoluída", "aberta" e sem preconceitos, onde tudo é permitido e o que conta é a consciência de cada um no momento de escolher o que é o melhor ou não para si, mas se uma mulher resolve, de livre e espontânea vontade, sem a pressão de um "agenciador", usar o próprio corpo para proporcionar prazer e cobrar por isso, ela perde completamente qualquer status social que uma mulher "digna" possa ter. Por que? "Nossa, ela cobra por sexo". Tá, e daí? Ela está ganhando o dinheiro dela trabalhando com uma necessidade humana: a necessidade de sexo. 

Todos nós, desde Alexandre Frota ao padre Fábio de Melo, passando por Inri Cristo, temos desejo de sexo. Tesão é uma sensação humana (e tesão é nome científico, tá?) inerente ao nosso biológico, uma necessidade como outra qualquer. Sentimos vontade de rir, de viver aventuras e de transar. Temos os comediantes que nos fazem rir, parques e passeios que proporcionam aventuras, mas se uma profissional resolve proporcionar sexo vira uma vagabunda. Dizem até que a prostituição - nomezinho esse carregado de um estigma pejorativo horrível - é a profissão mais antiga do mundo. Sabe por que? Muito antes da necessidade de jogar vídeo game, de falar no celular, de ver TV, de ir ao cinema, temos vontade de fazer sexo. Sexo é uma necessidade básica. Se uma pessoa percebe que faz os outros rir com facilidade se dedica ao humor e pode inclusive vir a se tornar um grande humorista. Se uma pessoa percebe que gosta de lidar com o corpo humano, gosta de lidar com a saúde das pessoas, estuda medicina e pode vir a se tornar um bom médico. Mas se mulher que gosta de sexo, que percebe ter a beleza necessária para chamar a atenção e não tem qualquer tabu com relação ao sexo resolve fazer disso um mercado a ser explorado, vira "mulher da vida". 

Sim, vivemos num mundo capitalista, onde se cria necessidades para se vender facilidades. Mas, curiosamente, a necessidade que não se cria, se é intrínseca ao ser humano, que vem conosco desde o nascimento, é exatamente a mais reprimida. A série O Negócio, exibida em 2013 pela HBO, mostrou na ficção o que existe na realidade: um mercado de desejo sexual a ser explorado, e mulheres inteligentes e bonitas querendo explorar esse nicho. O sexo, nesse sentido, vira um produto a ser vendido. Totalmente sem romantismo, não? Mas há algum crime nisso? 

O que estou tentando dizer - não sei se consegui ser claro, o tema é mais complexo do que se imagina - é que vivemos numa sociedade hipócrita, onde o sexo serve está presente em tudo (na propaganda, na TV, no comércio, nos esportes), mas se alguém resolve fazer uso profissional dele para viver é tachado de "imoral". Como assim, imoral num país onde o carnaval é recheado de conotação sexual do primeiro ao último dia? Como assim imoral num país que se orgulha de ter as mulheres mais bonitas do mundo? Meu amigo, imoral é usar da boa fé de inocentes para conseguir vida fácil, e se tem alguém que não tem vida fácil são as profissionais do sexo, ou as "acompanhantes", todos os dias expostas aos mais diversos tipos de homens, dos mais diversos tipos de temperamentos e expectativas. 

Alguns vão argumentar que nem sempre as acompanhantes são as mulheres inteligentes e bem resolvidas consigo mesmo como descrevi acima. E é verdade. Existem, sim, mulheres que vivem em regime quase escravo, sendo forçadas por um cafetão cruel a transarem com homens nojentos em troca de um tratamento dentário ou de um café da manhã nos interiores do Brasil. Existem adolescentes que mal menstruam e já entram no submundo da exploração sexual. Sim, isso existe, é crime e deve ser combatido. O que não dá é pra comparar a exploração sexual com o trabalho de moças que optam, por livre vontade, por trabalhar com o sexo. São coisas totalmente diferentes. 

Um dos problemas que surgem quando falamos em prostituição é a visão que temos do sexo. Ainda influenciados pela nossa cultura mergulhada nas tradições cristãs, vemos o sexo como algo super importante, romântico, quase sagrado, e que deve ser respeitado.  Existe toda uma visão romantizada do sexo, uma visão religiosa que o vê como complemento do amor. E acredito nisso também. Não há amor sem sexo, mas há sim sexo sem amor. São coisas diferentes. Se você tem alguém que ama, com quem compartilha sua vida, irá desejá-la e querer transar com ela. Se não tem, irá querer satisfazer sua necessidade de sexo do mesmo jeito. Que seja então com alguém que está lá apenas para isso, que tem a cabeça aberta o suficiente pra entender sua necessidade, assim você não cria expectativas em ninguém, nem machuca o coração de ninguém. Quer amor? Encontre uma companheira. Quer apenas sexo? As acompanhantes estão aí pra isso.

Só tem uma coisa: tanto a companheira como a acompanhante tem o mesmo direito de serem tratadas como mulheres, com o devido respeito à sua integridade. Um cara que é babaca com uma acompanhante provavelmente o será também com namoradas, amigas e etc. Boas maneiras cabem em qualquer situação. 

Mais amor, e mais sexo, por favor!

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