Velha, Eu? | Crônicas #23




Luna Andrade


Li um texto comovente sobre as reflexões de uma senhora que se deu conta da própria velhice depois de ser questionada por uma jovem sobre como era ser velha. No dia seguinte, uma pessoa, que também não era tão jovem, me perguntou no ônibus: “A senhora vai descer no próximo?”. 

Acho que sofri o mesmo choque sofrido pela autora do texto. As amigas da minha filha adolescente me chamam de “tia”. Tenho que ser realista, já não sou mais a mesma de outro dia. 


No entanto, quando me olho no espelho e vejo umas marquinhas de expressão na testa, no contorno dos olhos, penso em todos os sorrisos e até mesmo lágrimas que contribuíram para o aparecimento dessas ditas “imperfeições”, pois há controversas quanto a serem imperfeições. As marcas do meu rosto são uma fração do que sou. Tenho algumas sobrinhas adiposas no entorno do tronco, umas poucas rachaduras na pele formadas pela rapidez com que ela se expandiu durante minhas duas gravidezes, mas isso é tão natural. Também faz parte do que sou. 

Lembro que minha primeira gestação foi tão esperada que eu só conseguia pensar naquele pequeno ser se desenvolvendo dentro de mim. Não havia espaço para outras preocupações, tomei os cuidados que tinha que tomar com meu corpo, mas o meu ser todo se envolveu completamente com a minha cria. Nada mais importava. Nem mesmo uma ou outra estriazinha. 

 A segunda gestação veio de forma inesperada, mas quando soube, imediatamente já estava tão envolvida quanto da primeira vez. De modo que penso que se tivesse dez filhos me envolveria novamente com todo aquele turbilhão de emoções que é poder gerar um ser dentro de si, com cada uma delas. E gerar, é só o começo. Tantas preocupações e envolvimentos, sabores e dissabores vêm depois disso. 

O cabelo pintado é pura e simplesmente porque gosto de brincar com a cor deles, não para cobrir possíveis imperfeições. Não pinto o rosto, não gosto da sensação de ter uma camada de qualquer coisa cobrindo minha pele. Não ando na moda, prefiro conforto e roupas baratas. Não me entendam mal, não sou uma mulher relaxada, sou naturalmente Eu. Gosto de ser prática. Isso me deixa feliz e não vejo outra maneira de ser aceita pelos demais se não nos aceitamos como somos. Você pode estar se perguntando como posso me preocupar em ser aceita, sendo assim tão desprendida das convenções estéticas do ser humano? 

É uma delícia ser importante para os seus e se com isso vierem agregados alguns amigos, jovens, velhos, bichos, crianças... é maravilhoso! 

Não quero com isso ferir a opinião de quem opta por esconder as marcas do tempo. Acredito que tudo é válido quando a pessoa não está se ferindo emocionalmente. Se há algo que incomoda a ponto de mexer com sua autoestima, então deve ser resolvido da melhor forma possível, mesmo que isso envolva uma cirurgia plástica ou algumas camadas de maquiagem. 

Assim, me pergunto. – Velha, Eu? – Talvez, acho que estou quase lá! Mas isso não importa de fato. O importante mesmo é que consigo perceber os presentes que a vida me deu e cada imperfeição do meu corpo conta uma parte dessa história, portanto seria um crime contra minha memória tentar apagá-las.

3 comentários:

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  2. Kkkk é muito bom quando nos identificamos com algo, esse texto parece ter sido escrito pra mim.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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