Uma peça com defeito | Crônicas #24




Luna Andrade


A pessoa que empurra e grita com uma criança, desdenha da dor dela quando ela se machuca, pode ser a mesma pessoa que eu ouço dizer que sua visão de coordenação pedagógica é a de um coordenador que tenha o olhar voltado para a criança? Estou confusa! Para que tanta demagogia? Deixa o faz de conta para a criança! Afinal, se não a destruirmos, ela é a mais bem qualificada para isso. E disso senhoras e senhores, qualquer ser vivente o sabe. 


O discurso não tem nada a ver com a prática. Mas por que deveria ter? Já estamos tão acostumados a ser massa, que massificamos sem o menor escrúpulo o nosso cliente. O perigo mora em saber que o nosso cliente é hoje um pequeno cidadão de dois ou três anos de idade e que será o cidadão de amanhã. Qual será o resultado? Pode piorar? Eu pergunto. 

Semana passada ouvi o relato de uma colega que estava na fila de um supermercado e observou uma jovem mãe que falava para a filhinha e apontava uma idosa em sua frente: ¨Está vendo essa velha, filha. Ela era a professora que me batia na creche!¨. E havia tanto ódio nas palavras daquela mãe, que ela mudou de fila para não fazer uma besteira. Reflito a minha prática por sobre esses pequenos relatos que escuto e as coisas que observo no dia-a-dia. Oh não! Não presencio agressões físicas às crianças, mas o descaso dos equipamentos de educação para com eles dói tanto quanto apanhar de alguém que deveria proteger. 

E você caro leitor, deve estar se perguntando o que eu, como agente concreto desse sistema engessado e transgressor do progresso e cidadania, faço para mudar isso? - Nada! 

Pasmem, eu não faço nada para mudar isso e tenho a impressão de carregar um luminoso pendurado no pescoço, piscando: CULPADA! 

Sou parte da engrenagem desse equipamento. Me sinto uma peça com defeito. Não funciono sozinho ou mesmo com umas duas ou três pecinhas junto a mim. Professor não deveria nem ter singular, porque a prática docente é tão plural ou pelo menos deveria ser. 

Mas eu explico, apesar de achar que covardia seria a palavra perfeita para tal explicação, vou tentar fazê-lo ver sob meu ponto de vista. 

A docência no nosso país é geralmente a profissão que sobra para a população menos abastada, isto é, não tem grana para fazer Medicina, então faz Pedagogia porque ser professor é tão banalizado nesse país que é a opção mais acessível financeiramente na maioria das Unis da vida. 

E desse quadro surgem ex-futuros médicos, engenheiros, dentistas etc., enfim, pessoas infelizes na profissão e que não conseguem se envolver com o cerne educacional de fato. Apenas defendem o direito de estar trabalhando para sustentar suas famílias e correr rumo a aposentadoria. 

Gestão omissa e fraca. Isto é, desde que a criança não se machuque, está tudo bem. O gestor, geralmente está tão envolvido com as burocracias do equipamento escolar que não percebe o tamanho do problema que é gerir uma escola. 

Supervisão quase inexistente. Está ali para cumprir um protocolo. Não importa se as salas estão cheias demais ou se o prédio não tem manutenção adequada. ¨A professora está dando conta? Então está tudo certo.¨ 

Minha Avó dizia que não adiantava eu querer colher abacates quando plantava apenas tomates. Os tomateiros jamais me dariam abacates. A Educação Infantil ainda não aprendeu essa lição. Quer ser vista como escola, mas age como assistencialismo (depósito). O Professor de Educação Infantil quer ser reconhecido como Professor, mas age como a boa e velha ¨Tia¨. 

Ainda assim tem tanta gente com a sensação de dever cumprido quando a Educação no país está tão massacrada.


***

Luna Andrade é paulistana e professora da rede pública.

4 comentários:

  1. Ana Maria dos Santossexta-feira, 18 setembro, 2015

    Olá,
    Nada de novo colega, infelizmente. Sou professora aposentada da rede municipal e vejo com desgosto os mesmos e velhos problemas. Nem parece que refletimos e pusemos em andamento algumas mudanças (especialmente nas década de 90) há mais de 20 anos. Cada troca de administração querem inventar a roda mas no fundamental nada muda.
    Atualmente só vejo esperança nas chamadas "escolas democráticas". Ainda tem quem pense a educação. Se puder informe-se sobre estes grupos de discussão que estão até no facebook.
    Ana Maria dos Santos

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  2. Gostaria muito que fosse mentira, mas infelizmente é a mais pura e cruel realidade. Existem poucos, mais tão poucos que têm vontade de fazer algo para mudar essa realidade, que eles nem aparecem .

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  3. Gostaria muito que fosse mentira, mas infelizmente é a mais pura e cruel realidade. Existem poucos, mais tão poucos que têm vontade de fazer algo para mudar essa realidade, que eles nem aparecem .

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  4. Gostaria muito que fosse mentira, mas infelizmente é a mais pura e cruel realidade. Existem poucos, mais tão poucos que têm vontade de fazer algo para mudar essa realidade, que eles nem aparecem .

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