Sobreviver em Tempos de Guerra


Todos nós temos nosso tempo de guerra. Não a guerra propriamente dita, com armas, mortes, prisões, tumulto, mas uma guerra silenciosa, imperceptível aos olhos dos outros, que acontece no maior campo de batalha do mundo: nosso psicológico. Todos nós travamos batalhas internas intensas, sangrentas mas sem sangue, contra nosso maior inimigo: nós mesmos. Ou talvez não. Nosso maior inimigo não somos nós mesmos. Nosso psicológico, sim, é nosso maior inimigo, às vezes mortal. O psiquê, nosso interior, é um campo de batalha que pode ser comparado aos maiores palcos de guerra já vistos na história da humanidade. E arriscaria dizer que nossas guerras internas são ainda mais crueis do que as grandes guerras mundiais, pois se essas chamam a atenção do mundo, que faz de um tudo para encerrá-las, nossas batalhas psicológicas são imperceptíveis aos outros, que nem sempre as entendem quando resolvemos falar o que se passa conosco. Todos nós alternamos na vida momentos de paz e momentos de guerra E nessa gangorra psicológica todos nós temos momentos em que parece que a solidão resolve se instalar de vez em nossa vida e nos acompanhar - olhe o paradoxo! - por onde formos. Tempos em que vemos pessoas nos abandonarem, amigos faltarem, amores sumirem. Tempos em que falta uma companhia para ir a um cinema, sequer. Tempos em que vemos todos terem seus motivos para recusarem qualquer convite nosso, e nos acostumamos tanto a isso que paramos de convidar. Tempos em que a única coisa que lhe resta é você mesmo, sozinho, e esse maldito coração arrasado por uma depressão horrível que insistem em martelar dia e noite avisando que você é um fracassado, inútil, derrotado e um ninguém, imprestável que não serve para nada à sociedade e que não faria a menor falta se sumisse. Aliás, são em tempos assim que sumir se torna uma opção bastante plausível. Mas sumir definitivamente. Encerrar de vez seu campo de batalha e embarcar rumo ao desconhecido no pós-vida. Vai que o Paraíso com ruas de ouro e cristal do Apocalipse realmente existe, pelo menos as coisas seriam um pouco melhores! Tempos em que tudo parece seguir caminho contrário ao seu, em que vê seus sonhos irem ralo abaixo, em que nada dá certo na vida, em que parece correr em cima de uma esteira: por mais que corra e canse, não sai do lugar. 

E o que fazer em momentos assim? Como encerrar essa guerra? Como chegar ao tratado de paz que encerra com a batalha mais longa da história da humanidade, a que se passa dentro de nós mesmos?

Não sei. Se soubesse, já teria encerrado a minha faz tempo! Mas sei o que fazer para sobreviver em tempos de guerra. Quando vivemos em guerra conosco, é imprescindível desenvolver recursos para se manter íntegro, com o coração inteiro, mesmo em meio ao turbilhão de pensamentos que rodeiam nossa cabeça todo dia. Todo o cuidado é pouco para que não "percamos a alma". 

Antes de tudo, entenda que nada nesse mundo é definitivo. Nem sua guerra interna é. Sim, por mais que não pareça, ela irá acabar em algum momento. Nossa vida é feita de fases, e uma fase ruim sempre acaba. Em algum momento você enfrentará uma fase boa, em que tudo dá certo, em que você tem alguém para compartilhar as coisas boas que você vive. Se você ainda não está nessa fase, tenha certeza de que ela virá em algum momento. 

Mesmo em tempos de guerra, há dias em que você se sente bem. Há um, dois dias na semana em que você acorda bem, feliz consigo mesmo e disposto a ser o melhor do mundo. Agarre-se nesses dias. Foque no dia em que você está bem, feliz, rindo com todos e feliz com a vida que tem. Quando o dia ruim vier, você terá uma lembrança mais forte do dia anterior bom e terá mais facilidade em focar num futuro mais tranquilo. 

Entenda que você não é o que seu psicológico lhe diz ser quando está mal. Nossa tendência é nos desvalorizarmos e nos sentirmos um lixo quando estamos nos nossos tempos de guerra. Mas saiba que você não é nem tão bom como acha ser quando está bem, e nem tão mau quanto pensa ser nos dias maus. Você é literalmente um "meio termo". Mas nos dias maus foque no seu lado bom. Lembre que há pessoas que, por mais que não pareça, gostam de falar com você e sentem sua falta. Mais: percebem quando você não está legal e se preocupam com isso. 

Dê espaço para as pessoas participarem da sua vida. Sim, há pessoas interessadas em conhecer melhor o que se passa com você, ou pelo menos conversar sobre sua rotina. Fale de você, o que você gosta, sua preferência musical, de que tipo de livros gosta, enfim, essas trivialidades poderosas para engatar uma conversa que pode se estender por horas. 

Afaste a amargura. Quem nunca se sentiu o injustiçado do mundo? Quem aí nunca pensou que o mundo conspira contra você e que todas as outras pessoas não passam de aproveitadores que usam de barganhas com a vida para conseguirem o que querem, enquanto você fica para trás por não se dobrar a tudo isso? Sim, isso é amargura. E amargura é mato, meu amigo. Cresce sem você ver e só percebe quando está alto, no meio do seu caminho impedindo sua passagem. Afaste pensamentos amargurados. As pessoas não são todas iguais e nem sempre quem se aproxima de você quer se aproveitar de algo e depois ir embora. Existem sim pessoas sinceras, por mais difícil que seja encontrá-las. 

Enfim, a única coisa confortante numa guerra é saber que num momento ela acaba, seja a Guerra Fria, a Segunda Guerra Mundial (bom, a das duas Coreias ainda não acabou, mas... Deixa pra lá!) ou a guerra que você trava o dia inteiro dentro de você. Tente se manter firme. Ouça músicas que gosta. Procure uma terapia com uma psicóloga de sua confiança e se abra.

E viva bem. 

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