Meu templo é o Shopping


Galerianki, filme polonês de 2009, praticamente desconhecido no Brasil mas disponível legendado pra quem se interessar, retrata um lado da vida dos poloneses - e de outros países pobres da Europa - pouco conhecido no resto do mundo: adolescentes pobres, sem qualquer perspectiva de vida, que sonham com produtos caros que nunca poderão comprar, e para manter esse sonho vivem de perambular em shoppings centers. No filme, algumas dessas garotas chegam a se prostituir em pleno estacionamento do shopping por um celular ou por um tênis, comprado pelo "cliente" como pagamento. 

O país é distante mas a realidade é a mesma. Os shoppings centers no mundo inteiro são verdadeiros templos do consumo, um lugar onde ricos e pobres se dividem claramente: ricos compram e pobres observam os ricos comprando. Shoppings são a fonte da ostentação, da demonstração pública de vida de luxo. Andar em um shopping é sentir-se parte de um mundo diferente, glamuroso, onde o dinheiro é quem dita as regras. 

De um lado temos os que tem dinheiro para consumir nos shoppings. Pessoas abastadas, que trabalham duro para manter um padrão de vida alto e gastar seu tempo livre para comprar e comprar. Gente que tem dinheiro para tomar Chandon, vestir Louis Vuitton, andar de Camaro. Do outro temos pessoas pobres, moradores de periferias, sem o mínimo de conforto que sonham em comprar, mas não tem recursos para isso e tem de se contentar com a champagne barata do supermercado e andar de ônibus - muitas vezes por baixo da catraca, pois não tem o dinheiro da passagem. Fazendo a ponte entre um mundo e outro temos o funk ostentação, que incute nos jovens pobres o consumismo, o glamour de usar coisas coisas caras para mostrar aos amigos e o consumo como forma de ser poderoso no meio onde se vive ("gosto de ostentar e essa é a minha vida / mulher do poder, assim que eu sou conhecida", diz uma dessas músicas). Veja bem, não sou totalmente contra o funk, nem contra o tal funk ostentação. Outro dia falo sobre isso. 

O que temos quando juntamos essas três variáveis? O tal rolezinho, que virou notícia nas últimas semanas. Jovens de periferia que desejam fazer jus às músicas que cantam e escolhem os shoppings como local de passeio, para sentir-se poderosos. Os ricos, os que realmente compram, se assustam com a legião de "pobres" que invadem seu "habitat". 

A mídia viu nisso uma oportunidade de ouro para ganhar audiência. "Especialistas" acharam aí um gancho para "analisar" e posar de inteligente nas TVs assistidas pela grande massa de analfabetos funcionais do Brasil. Mas o que irritou mesmo, muito, foram os movimentos sociais vendidos e partidos de esquerda de aluguel que aproveitaram o acontecimento para mostrar sua burrice esquerdoide, criando polêmicas baratas (rico faz flashmob, pobre faz rolezinho, ouvi a semana toda! tsc tsc) e tentando politizar um movimento que não tem qualquer conotação política. Aliás, nem dá pra chamar de movimento. É apenas um grupo de garotos que marcam um passeio no shopping. 

Sim, é isso que o tal "rolezinho" é: um grupo de jovens que marcam de se encontrar para se conhecer. Só. Isso ficou muito claro no vídeo feito pelo UOL. O que assustou foi na verdade a quantidade de pessoas - num desses rolezinhos mais de 6 mil jovens apareceram. Pense em seis mil pessoas dançando e cantando funk, vestidos como "maloqueiros" numa cidade que vive assustada como SP, onde uma moto com dois homens já é motivo para se desesperar. O resultado não poderia ser outro: o tumulto. Talvez os organizadores dos tais rolezinhos deveriam ter pensado apenas nisso. Houve arrastões e assaltos em alguns desses passeios? Sim, houve. Aí eu pergunto: e os protestos que tem acontecido Brasil afora, são todos pacíficos? Infelizmente, num país que ruma à barbárie como o Brasil, qualquer ajuntamento de pessoas sempre trará consigo gente mal intencionada, seja num rolezinho, num protesto ou num congresso de partidos políticos (bom, nesse caso vai ser difícil achar gente bem intencionada). 

Penso que os "rolezeiros" estão perdendo uma chance de ouro de mostrar que seus passeios não tem qualquer conotação negativa. Como? Organizando rolezinnhos para doação de sangue, para visitas a orfanatos e asilos. O que tem de velhos esquecidos nos asilos no Brasil que dariam de tudo para dar seus conselhos de vida a um jovem não é brincadeira. Já que os organizadores descobriram essa força para ajuntar pessoas, façam isso para causas nobres. E também para passear, seja em shoppings, parques, feiras, exposições. A melhor forma de acabar com o preconceito é a coexistência. Coexistência é diferente de tolerância. O tolerante se acha superior ao tolerado, mas o aceita contanto que não invada seu espaço. Quem coexiste vive junto, sem qualquer problema. 

Menos #mimimi, mais amor. Por favor!

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