Só mais uma vez


Ah, se eu pudesse...

Se eu pudesse, te daria mais uma vez o beijo que te dava todos os dias antes de sair de casa. Se eu pudesse, queria ver mais uma vez sua cara desconcertada cada vez que recebia um elogio. Se eu pudesse, mais uma vez iria deixar você me trazer leite quente na cama antes de dormir. Se eu pudesse, gostaria de ficar resfriado mais uma vez só pra receber aquela atenção que sempre recebia. Se eu pudesse, fingiria que estava esquecendo o agasalho em casa só pra te ver de novo falando "pega a blusa!" Se eu pudesse, queria mais uma vez brigar com minha irmã pra ouvir o seu sermão repetido anos a fio sobre respeitar e proteger a irmã mais nova. Se eu pudesse, queria mais uma vez ver sua cara de preocupada por eu não ter atendido o celular quando você tentou falar comigo. Sim, eu gostaria de ver de novo sua emoção quando aprendi a escrever. Queria de novo que você me levasse à escola, que me comprasse doces, que me levasse pra passear. Queria ver de novo sua emoção quando consegui o primeiro emprego e sua cara de ciúmes quando levei em casa a primeira namorada. Ah, eu daria de tudo pra te desejar boa noite de novo, antes de dormir. Queria tanto poder acordar tarde no sábado e te encontrar já cuidando de tudo em casa. Poder ligar em casa da rua e ouvir seu "alô?".

Só mais uma vez. Uma única que fosse.

Mas eu sei que não terá mais uma vez. Pelo contrário, sua presença foi substituída pelo maldito "nunca mais", esse ser que tem o poder maléfico de tornar a ausência um fardo quase insuportável, que nos faz entender na prática o que significa a tal sensação de vazio que os psicólogos tanto falam, que transforma a saudade numa angústia terrível que nos faz ter vontade de sair na rua gritando seu nome feito loucos, te procurando em todas as portas e becos, na esperança de te ver de novo, assim como quando eu me perdia no supermercado e saia desesperado e te encontrava em alguma seção tranquilamente olhando produtos que nunca comprava, lembra? 

Sabe o que doi? Não ter um refúgio. Pois uma coisa era certa pra mim: se tudo na minha vida der errado, se todos me virarem as costas, se todos meu amigos me abandonarem e eu virar persona non grata onde antes era querido, eu poderia bater à sua porta a qualquer hora sem medo, pois seria recebido com um sorriso. Mas não terei mais isso. 

Me sinto como se estivesse descendo uma escada íngreme sem corrimão. Dá pra descer, mas é bem mais difícil, o medo de cair é grande. Não tenho mais sua mão pra segurar. Ou como se estivesse numa corda bamba sem qualquer equipamento de segurança. Não tenho mais conselho pra receber. Tenho que caminhar com meus próprios pés. Assim tem sido minha vida.

Mas uma coisa é certa: vou seguir em frente mesmo sendo difícil, mesmo na corda bamba, mesmo na escada sem corrimão, pois é isso que você iria me dizer, se pudesse. Eu sei disso. Se pudesse, iria me mandar parar de lamentar e ir à luta, pois a vida segue pra mim. E segue mesmo. Com um vazio enorme, mas segue. Vou continuar, agora colocando em prática cada um daqueles conselhos que você me dava e eu nem prestava muito a atenção. Vou honrar seu nome e sua história. 

Nunca mais vou te ver. Mas eu queria.

Pelo menos mais uma vez.

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