Amizade X Conveniência



O que é amizade?

Pode não parecer, mas essa é uma palavra difícil de ser definida. Difícil não no sentido gramatical, pois é só consultar o dicionário (alguém ainda usa dicionário?) para se encontrar uma definição teórica da palavra. Falo do sentido abstrato, da forma como definimos na nossa vida o conceito de amizade. O que faz com que consideremos uma pessoa nossa "amiga"? O que o outro precisa ter ou fazer para que faça parte do nosso círculo de amizades? Qual é o perfil de pessoa ideal que traçamos para que ela faça parte de nosso mundo?

Infelizmente, talvez devido à nossa geração consumista e egoísta, temos baseado nossas amizades no conceito da conveniência. Assim como uma loja de posto de gasolina de estrada que serve para suprir nossas necessidades num momento de aperto (comprar algo pra comer, uma bebida, um cigarro) escolhemos nossos amigos à partir daquilo que ela tem a nos oferecer e do quanto ela exige em troca. Ao conhecer uma pessoa buscamos saber, antes de a considerarmos "amigo", qual será a vantagem de conviver com ela. Queremos como amigo pessoas que tenham lugares interessantes para nos levar. Queremos pessoas bonitas, que quando estão ao nosso lado nos fazem pessoas também tão interessantes como elas são. Gostamos de pessoas que tenham os endereços das melhores baladas ou os mais descolados. Buscamos amizade com pessoas "top", que façam com que nossa existência seja um pouco mais interessante. Fazemos amizades com a intenção de formar não necessariamente amigos, mas uma teia de contatos, para que numa hora de aperto eu tenha alguém para pedir ajuda - quando ficar desempregado, tenho alguém para distribuir um currículo, por exemplo. Calma, não estou dizendo que isso é errado. Claro que todos queremos estar bem acompanhados e ter bons contatos. Mas isso às vezes gera relacionamentos superficiais. Quando nos relacionamos com outra pessoa e percebemos que ela não é tão interessante como parecia ser, quando ela não é conhecida nas melhores festas, não tem sempre viagens impressionantes para contar, não tem necessariamente os mesmos gostos, não tem contatos que poderiam me servir numa ocasião de necessidade ou quando a convivência com ela exige mais do que recebemos simplesmente a abandonamos e buscamos outra parceria. Já ouvi pessoas dizerem que deixaram de ser amigas de outra pessoa porque ela "não tinha nada de interessante". E é assim que agimos, as vezes. Buscamos não pessoas de confiança, mas pessoas "descoladas" (ainda se usa essa gíria?). Não queremos compromisso, queremos a eventualidade. Não queremos amizade, queremos conveniência.

Ou há ainda um outro tipo de amigo: aquele que busca no outro apenas um conselheiro - quase sempre amoroso. O amigo é apenas o oráculo que ele consulta quando esta confuso com algo. Recebido o conselho o amigo é desprezado e procurado novamente quando houver a necessidade. Se o amigo também tiver uma dificuldade e, por ser o conselheiro da turma, achar que pode contar com o amigo para pedir ajuda, recebe como resposta as desculpas de sempre: "depois a gente se fala", "estou ocupado, agora", e coisas do tipo.

O sociólogo Zigmunt Bauman chama isso de "relacionamentos líquidos", ou seja, os relacionamentos frágeis, sem compromisso, sem consistência. Aquela amizade que pode ser desfeita com um simples "block" no Facebook. Desfazemos amizades como desfazemos as malas depois de uma viagem. Basta que ela não seja tão interessante como parecia ser no início. Um celular não atendido hoje, um convite não feito e pronto, o recado está dado: sua amizade não me interessa mais.

Qual o resultado disso? Não é difícil encontrar pessoas que tem uma agenda de contatos gigante no celular, mas que quando precisam de um conselho não tem para quem ligar, pois não tem intimidade com nenhum dos "amigos". Gente que tem diversas companhias diferentes para a balada, mas que não tem quem chamar quando precisa ver um parente doente no hospital. Temos amigos para bons momentos, mas nos maus momentos todos desaparecem. Sabe por que? Nós formamos amigos a partir do conceito da conveniência e do egoísmo. Ao escolher amigos pensamos em como o outro pode me ser útil. Não criamos vínculos, criamos contatos.

Entendem como o conceito de amizade é confuso? Eu tento definir "amigo" como aquele com quem gostamos de conversar, estar perto, independente do que ele tenha para me oferecer em troca. Não procuro saber que conveniência pode me trazer a companha do outro, quero apenas estar perto. Amigo é aquele que, mesmo depois de descobrir quem eu sou de verdade, ainda se interessa pela minha pessoa. É aquele que está comigo mesmo sem eu ser tão interessante quanto parecia ser no começo. E quando o outro precisar estarei lá, independente do que ele já tenha me oferecido.

Certo está o Milton Nascimento, quando diz que "amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves", pois sao tão difíceis de se encontrar que quando encontramos não devemos perder nunca.

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