Minha "descrentalização"



Nasci e cresci no ambiente evangelicalista da Igreja Assembléia de Deus, ou em "berço evangélico", como os crentes gostam de dizer. Nesse tempo, aprendi muita coisa referente a fé, bons costumes, moralismo e como agradar a Deus, sempre através de muita renegação e sacrifícios. Sim, algumas das coisas que aprendi na igreja me foram úteis, mas hoje, com a cabeça que tenho e já fora do movimento evangélico (expliquei aqui os motivos) confesso: quase nada do que aprendi na igreja me serve para alguma coisa na vida. Sim, digo com todo o respeito aos vários pastores que já conheci e que me acompanharam durante minha vida: o que vocês me ensinaram não serviu pra quase nada.

Quando lembro de minha infância e de minha formação cultural formada exclusivamente por conteúdos evangelicalistas penso quanto tempo de minha vida perdi. Ao lembrar que me era "permitido" cantar apenas as músicas "gospel" que até hoje são repetidas nas igrejas imagino como perdi em ser proibido de cantar - ou sequer conhecer - músicas maravilhosas. O que antes me era apresentado como "pecado", como "obras do diabo" hoje é beleza e arte para mim. Hoje descubro diariamente muita coisa boa no mundo musical. Aprendi a ouvir e apreciar a voz de Chico Buarque, Elis Regina e Caetano Veloso. Descobri a brasilidade de Garota de Ipanema de Vinícius de Moraes - como eu queria ter sido contemporâneo dele! Descobri que tenho forte tendência a gostar de cantores desconhecidos do povão, como a voz fraca e delicada da Tiê, o sotaque mineiro e a língua levemente presa de Érika Machado, o timbre firme da Lara Rossato e outros mais. Simplesmente amo a voz de Fernanda Takai quando canta "se alguém perguntar por mim diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço", ou a sensibilidade de Renato Russo cantando "és parte ainda do que me faz forte". Aprendi sobre o rock brasileiro, canto Raul Seixas, Los Hermanos, Skank. Até a Mallu Magalhães eu canto às vezes - tchubarubaaaa!!! haha Aprendi a chorar com a forma como Mercedes Sosa coloca a alma em suas canções. Descobri Cat Power e seu jeito melancólico, ao mesmo tempo perturbador e encantador de fazer música, além de virar fã incondicional da Avril Lavigne. Me emociono com Frank Sinatra cantando Yesterday e Elton John cantando Imagine (quem não se emociona?). Ouço Bon Jovi, O' Jays, Goo Goo Dolls, Pearl Jam, The Fray, e muitíssimos outros bons nomes da música.

Hoje posso ler bons livros. Na minha infância e adolescência assembleiana, até mesmo a literatura brasileira era condenada. Lembro-me de uma vez ter sido criticado por ler "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Só podia ler livros escritos por evangélicos. Quanto tempo perdi lendo livros feitos por tele-evangelistas americanos que escrevem apenas para ganhar dinheiro de gente fútil! Agora aprecio os romances policiais da saga Millenium de Stieg Larson, aprecio toda a literatura brasileira ao ponto de me apaixonar por Clarice Lispector e toda sua obra, leio Humberto Eco, Kundera, Orhan Pamuk, Kafka, Fernando Pessoa, Dostoievski e muitos outros livros. Ainda terei minha biblioteca particular, com livros raros adquiridos de forma singular em várias partes do mundo.

Me descrentalizei". Não acompanho mais o que se passa no mundo Gospel. Parei de acompanhar os CDs cheios de egos superinflados do Diante do Trono, que mais parece um grupo de estrelas da Globo. Não sei quem é o pastor do momento. Ouço falar em Damaris, mas nunca tive o interesse de saber quem é. Deixei de admirar Silas Malafaia - agora sinto nojo dele. Não tenho o menor interesse pelo que o Samuel Ferreira fala. Não sei mais qual é a música gospel que está na boca do povo. Sinto vergonha alheia do que os evangélicos brasileiros produzem. Agora estou do outro lado: do lado das pessoas que ignoram o submundo gospel. Eu digo "não" ao sistema evangélico brasileiro.

Hoje posso dizer que vivo no mundo em que estou. Aprecio boas coisas, sei distinguir o que é bom do que é ruim, sem a imposição religiosa fundamentalista da igreja evangélica. Amo minha igreja atual, a Igreja Betesda, que não me impõe nem proíbe nada. Sinto por ter perdido tanto tempo repetindo refrões vazios de significado, cantarolando músicas que dizem exaltar a Deus, mas na verdade apenas reforçam a característica fundamentalista da Igreja.

Por isso agora preciso recuperar o tempo perdido. Já faz quase cinco anos que saí do movimento evangelicalista e me "libertei" dos "aiatolás de Cristo". Tenho ouvido muita música, lido muito, me atualizado. Venho tentando me "desalienar". E espero consiga fazê-lo.

Dá licença, vou ali ouvir Érika Machado!

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