Bazar do Zé



Era uma vez um homem comum, desses que a gente tropeça na rua e nem repara no rosto. Esse homem era dono de um bazar, um bazar simples de vila, desses que você só percebe que existe quando usa o toldo para se proteger da chuva. Vamos chamar o homem de José e seu bazar de Bazar do Zé.

Há alguns anos, com uma certa folga no orçamento depois de ter se aposentado, José viu que deveria investir o dinheiro que havia juntado. Pensou então em abrir um pequeno bazar na rua de sua casa. Nada muito elaborado: um simples bazar de vila, onde crianças pudessem comprar lápis, borracha, caneta, onde pessoas tirassem cópias de documentos, onde desesperados por presentes de última hora encontrassem algo charmoso e ao mesmo tempo não muito caro. Sabia como fazer isso.

Resolveu, fez seus contatos e abriu o bazar. Sem inauguração nem nada disso. José era discreto demais para essas festas. Além do mais tinha a consciência de que seu bazar não era nada de mais, apenas um simples estabelecimento que as pessoas só notariam que existia quando precisassem dele. Num dia comum como qualquer outro abriu a porta de bar e colocou a placa: bem-vindo ao Bazar do Zé. As pessoas, que estavam acostumadas a verem ali nada mais que um salão fechado viram uma lojinha bonita, bem cuidada, com produtos bonitos. Veio o primeiro cliente: um homem que voltava da padaria de manhã com o pãozinho no saco marrom e um embrulho, talvez com presunto e muçarela. Entrou apenas para conhecer a pequena loja, e acabou comprando um jogo de canetas bonito, e não muito caro. E fez amizade com José, o proprietário do bazar. Depois desse homem, várias outras pessoas vieram, movidas pela curiosidade do novo bazar no bairro. Aos poucos, umas iam avisando as outras e com alguns dias o Bazar do Zé era referência no bairro. As pessoas passavam por lá para ver o que havia de novo. Compravam, conversavam, levavam panfletos para as amigas. Os alunos do colégio do bairro já haviam adotado o Bazar do Zé como seu ponto de socorro quando as canetas do material escolar sumiam, talvez roubadas por algum aluno inescrupuloso. O bazar ia bem. A vida de José, sem muitos luxos, ia bem, também. O faturamento já era o suficiente para manter o bazar sempre abastecido de mercadorias e José já conseguia sobreviver com o lucro do bazar.

Como as coisas iam razoavelmente bem José pensou, certo dia: nunca estudei para ser empresário e consegui um pequeno comércio de sucesso no meu bairro. Devo realmente ser muito bom. Sua esposa o alertou a tomar cuidado, para que o sucesso do seu comércio não afetasse sua personalidade. José, num ímpeto de raiva por ver seu sucesso ser questionado, mandou que a mulher calasse a boca. Essa foi a primeira de uma série de discussões que culminaram numa crise no casamento de José. Os filhos, que nunca tinham visto os pais brigarem, estavam cansados de verem os dois todos os dias discutirem por motivos bobos: a toalha de banho que estava com cheiro forte, o sabonete que era de uma marca barata, um cantinho empoeirado na sala. José passava mais tempo no bazar do que de costume. Mesmo sem clientes, ficava até tarde com as portas abertas, enquanto sua esposa jantava com os filhos em casa. José se afastou da família. "Quem precisa deles? Tenho meu comércio, meus clientes fieis, meus amigos. Estou bem", pensava ele.

A crise no casamento de José se agravou. Sua esposa, cansada de ser cobrada em coisas ridículas e das intermináveis brigas, resolveu sair de casa com seus filhos. José ficou sozinho. Não tão sozinho. Ainda tinha o bazar.

Com a cabeça quente pelos problemas no casamento, José se esqueceu de repor as faltas do bazar. Aos poucos começava a faltar canetas, lápis, embrulhos de presente e essas coisas bobas que ninguém sabe que é necessário até precisar de fato. Quando corriam ao Bazar do Zé recebiam um "não temos" como resposta. Com o passar dos dias o faturamento caiu. As pessoas, antes clientes fieis, cansaram de ir até o bazar e não encontrar o que precisavam. Sem o mesmo volume de vendas de antes José não tinha capital suficiente para repor as faltas. O dinheiro começou a faltar. José decidiu que deveria diminuir sua retirada mensal e aumentar o capital do bazar. "Estou sozinho mesmo, nem estou gastando tanto em casa".

Ao diminuir sua retirada mensal, usou o dinheiro a mais para encher sua loja de enfeites de natal. Um dos amigos alertou José que enfeites de natal não eram algo muito interessante de se vender em vilas porque a Rua 25 de Março vendia o mesmo produto por um preço 90% menor. Mais uma vez José mandou que calassem a boca, pois ele era o empresário e ele sabia muito bem o que estava fazendo. Em vez de repor as faltas do bazar encheu sua loja de produtos de natal. O resultado foi o esperado: a mercadoria ficou nas prateleiras do mesmo jeito que chegou, pois as pessoas viam o preço e achavam melhor esperar mais um pouco para comprar no centro de SP. Passou o Natal (dia em que José ficou sozinho em casa, pois a esposa viajara ao interior do estado com os filhos) e a mercadoria sobrou. Em janeiro veio a fatura da mercadoria comprada. José teve de pagar o que não havia vendido. Mais uma vez teve dificuldade de fechar o caixa. Sua loja continuava sem mercadorias. As pessoas, antes clientes fieis, riam ao ver a loja cheia de festões, papais noeis e estrelas douradas em pleno mês de janeiro.

José só se deu conta da situação em que seu comércio havia chegado no dia em que um outro bazar abriu no mesmo bairro. Agora, além da dificuldade financeira, enfrentava a concorrência. José chegou a passar um dia inteiro sem fazer uma venda. Um lápis sequer José não vendia. Foi obrigado a atrasar pagamentos. Demitiu a única funcionária que tinha, uma mocinha de 17 anos que não recebeu nada como indenização, mas saiu agradecida por ter recebido pelo menos o salário do mês, que José havia pago com o dinheiro que economizara do próprio convênio médico que ele havia cancelado.

Num dia comum, antes de dormir, José se sentou na cama e assumiu pela primeira vez que havia errado. Errado muito. Errara quando mandou sua mulher calar a boca. Errara quando pensou que era competente o suficiente para se virar sozinho. Errara quando pensou que não dependia de ninguém.

José não via outra solução a não ser fechar o bazar. O faturamento da loja já não era suficiente sequer para pagar o aluguel do estabelecimento. Mas, por teimosia, resolveu que continuaria aberto. Resolveu negociar com o proprietário do imóvel uma redução no valor do aluguel, em torca da antecipação de pagamento. Com aluguel menor, já tinha um dinheirinho a mais no orçamento. Não era muita coisa, mas era o suficiente para tentar uma negociação com seus fornecedores. José Sabia que tinha poucas chances de ver seu bazar se reerguer, mas não tinha outra alternativa a não ser tentar. Era teimoso demais para desistir.

José tinha todos os motivos para jogar tudo para cima e desistir de tudo, inclusive da vida. Mas achou melhor dar mais uma chance a si mesmo. Mesmo sabendo que era quase impossível se reerguer, continuou tentando. Abria as portas do bazar pensando: "se não vender nada hoje fecho as portas amanhã". Não vendia nada, mas ao invés de fechar as portas no dia seguinte ele pensava que poderia tentar mais um dia. E assim se seguiam as segundas, terças, quartas. Vivendo um dia de cada vez.

Mesmo tendo motivos para desistir e decretar falência, o pequeno bazar recebia uma nova chance. Todos os dias. O pequeno bazar, uma estrutura física sem vida própria, recebia uma chance de continuar existindo. Mesmo sem saber.

No atual momento da minha vida, eu sou esse bazar.

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