#Opinião: Toma que o viciado é teu!

Campos Elíseos, em SP, conhedida como Cracolândia



Weslley Talaveira

Surgiu na cabeça da secretária de assistência social de SP Alda Marco Antônio (PSD), que por acaso também é a vice-prefeita da cidade, um projeto curioso para resolver o problema da Cracolândia na capital: mandar os viciados para sua cidade natal para receberem tratamento por lá. Para isso ela parte do princípio de que "toda comunidade é responsável por seu produto social", ou seja, a cidade de origem tem responsabilidade de dar apoio ao seu cidadão, independente de ele morar ou não na cidade natal. Ela diz ainda que na cidade natal, perto da família, essas pessoas teriam mais chances de tratamento do que distante de todos, abandonados numa cidade tão grande como SP.

Num primeiro momento até concordei com a ideia. Concordo que cada cidade é responsável pelos seus cidadãos, e deve prover para eles todo o apoio necessário em qualquer situação, e acho também que é bom que o viciado esteja perto da família para receber carinho, tão necessário em um tratamento contra as drogas.

Mas há alguns "poréns" nessa história toda: se a pessoa saiu da cidade natal, abandonou a família e se tornou viciada em SP, é bem provável que essa pessoa venha de uma família desestruturada, e que talvez até mesmo a família é quem o tenha colocado pra fora de casa. Que apoio essa pessoa receberia num ambiente desses? Segundo: a ideia de devolver pessoas para suas cidades de origem, por mais interessante que pareça, tem um "quê" preconceituoso perigosíssimo para uma cidade que já registra vários casos de atitudes preconceituosas. Ou seja, ao invés de acolher quem vem de fora estamos mandando embora novamente? Mesmo que a intenção não seja essa, isso pode resultar numa situação bastante desconfortável para a administração pública. Algo como "esse viciado não é paulistano, então não é obrigação nossa tratá-lo aqui". Outra: algumas dessas pessoas vem de cidades pequenas, pobres, que não tem como providenciar tratamento para seus viciados. Se SP, a cidade mais rica do Brasil e uma das maiores da América Latina, não consegue tratar seus viciados, porque cidades menores iriam conseguir?

Sou a favor de devolver sim essas pessoas para suas famílias em sua cidade de origem, mas depois de tratadas aqui na capital. Essas pessoas precisam de um apoio clínico, psiquiátrico, e só depois disso devem procurar a família em outras cidades, até mesmo para garantir que essa pessoa não vá voltar à Cracolândia. Mandar um viciado para outras cidades só varre a sujeira para debaixo do tapete, além de contribuir para espalhar o problema das drogas para outras cidades.

Nem que para isso a internação compulsória seja feita (sim, sou a favor de uma pessoa ser internada contra a própria vontade), mas essas pessoas devem ser tratadas aqui em SP. Fica muito melhor para SP ser protagonista de um projeto de recuperação de viciados do que simplesmente mandar essa gente embora e dizer que resolveu o problema. Isso me lembra uma certa "limpeza social" feita há uns anos atrás por um determinado líder mundial que não fez bem para ninguém. 

Mandar gente viciada para suas cidades de origem não resolve o problema, só o transfere para as mãos de outros. Outros que provavelmente não vão resolver, também.

Um comentário:

  1. Acho que não são boas as intensões desa decisão de mandar um viciado de volta para casa. Até porque, muitas vezes, é lá que essa pessoa teve motivos para se tornar um viciado. Outro fato importante é que não existe mais lugar livre do tráfico de drogas. Visito o interior do meu estado constantemente e mesmo lá, em meio à casas simples, algumas até sem água encanada, existe essa atividade ilícita; ou seja, as drogas de abuso e os problemas sociais e pessoais estão em qualquer lugar que esse indivíduo viciado esteja.

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