A crueldade e a falta de indignação

Acabei de assistir a um episódio de Cold Case, o 5° episódio da 3° temporada, e mais uma vez me peguei refletindo sobre uma das características humanas que aparentemente é inexplicável: a crueldade. Para resumir, o episódio conta a história de Betty, uma moça que havia sido internada em um hospício em 1954, e depois de assumir a culpa de Carmen, a colega pintora, por um erro que todas cometeram junto com Aston, o enfermeiro do hospício, fez uma lobotomia no lugar da colega, e foi liberada do hospício para seguir na vida sozinha. Ao ser encontrada na rua e devolvida ao hospício, o médico chefe mandou que ela fosse morta antes que alguém descobrisse o erro do hospital, e o mesmo enfermeiro que cometeu o erro com as internas foi o responsável por abandonar Betty num parque escuro à noite coberto de neve, onde ela morreu congelada, como indigente. Tá, contei o fim do episódio, mas são tantos que só um spoiler não vai fazer diferença, e o que chama a atenção nesse episódio são os detalhes, que não contei. 

Enfim, o episódio trás uma reflexão complicada: a crueldade humana. Aston, o enfermeiro, matou Betty para evitar ser julgado em um processo de abuso sexual e continuar provendo o sustento das irmãs mais novas. O médico dono do hospício mandou matar Betty para manter a boa reputação do hospital diante dos clientes. E a enfermeira sabia de tudo, mas não fez nada para omitir.

Até onde pode ir a crueldade humana? Sim, é apenas um seriado, mas casos assim estão presentes todos os dias nos noticiários da TV. Um bom exemplo disso é o caso da adolescente de Santo André, que foi morta sem nenhuma explicação dentro da própria casa, por alguém que tinha acesso à casa, pois ao sair ainda trancou o portão. Nada foi roubado, e a menina não tem sinais de violência sexual. Alguém a atacou pelo simples prazer de matar. Aliás, a vida ultimamente tem sido algo tão banalizado e nós estamos quietos. Todo dia ouvimos falar que uma mulher foi morta pelo marido, namorado, ex-qualquer-coisa, ou que um estudante foi morto na porta da faculdade, ou alguém morreu em acidente de trânsito. Pessoas morrem. E o que dizemos? "Morreu? Antes ele do que eu". Isso é uma forma de crueldade, também.

A vida não vale nada. Pelo menos para quem tem nas mãos o poder de matar. Como alguém consegue tirar a vida de uma pessoa e dormir? E a família da pessoa que morreu, como fica? Perder alguém querido não é simples como vemos na TV. Doi muito. Mas infelizmente essa indignação só atinge as pessoas quando a tragédia chega em casa. Para usar uma linguagem bíblica, eu diria que perdemos a alma. Nada mais nos choca. Como diz a música da Pitty, "nenhuma verdade me machuca, nenhum motivo me corroi". Nos chocamos mais com a eliminação de fulano no reallity show do que com a morte de uma adolescente. O ser humano perdeu a sensibilidade. Qual foi a última vez que você chorou pela morte de um desconhecido? Esse é o choro de indignação, quando choramos pelo simples fato de não se conformar com a crueldade.

Não, eu não perdi ninguém querido, graças a Deus. Mas não preciso esperar que alguém morra pra me indignar com essa sociedade que mata aleatoriamente. O verbo "morrer" virou uma palara como qualquer outra. Para brincar com a gramática, eu diria que "morrer" dixou de ser verbo para ser substantivo. Não nos afeta mais, não nos choca, não nos incomodamos mais. Ouvimos uma notícia da morte de alguém enquanto comemos e continuamos a comer normalmente. A morte está banalizada. Ou melhor, a vida está banalizada.

A única coisa que peço a Deus é que me dê lágrimas para chorar e a indignação para não aceitar a morte como algo normal.

Um comentário:

  1. Tem razão mais uma vez meu anjo, não é a morte que está banalizada e sim a vida. Faltam objetivos, perspectivas, o menino que é usado como "avião" pelos traficantes, sabe que sua vida não vai durar muito, então, por que se importar, o outro até vai à escola, mas acha que nunca vai conseguir um bom emprego, então porque se dedicar.
    Nós somos a exceção, consegui criar um filho que fica indignado e se emociona, que bom né?
    O Lulu Santos nos definiu assim:
    Nós somos muitos
    Não somos fracos
    Somos sozinhos nesta multidão
    Nós somos só um coração
    Sangrando pelo sonho
    De viver...

    ResponderExcluir

Fique à vontade para comentar, acrescentar ou discordar de algo. Mas lembre-se que que escrevo aqui reflete apenas a MINHA opinião, e essa opinião pode nem sempre ser a mais ideal.

Caso tenha dificuldade de escrever por aqui (o Blogger sempre gosta de dificultar as coisas) envie email para weslleytalaveira@blognovasideias.com