"Fica comigo essa noite"

O texto abaixo não é meu. É de uma querida amiga, a Beatriz, que está passando por um dos momentos mais difíceis que o ser humano pode passar: a morte de alguém querido. Ela encontrou nas palavras uma forma de expressar o que se passa no seu coração, e como ela não tem blog ou outro espaço pra escrever, cedi o espaço para ela.

***

Na sexta feira a noite minha vó me deu um susto. Começou a passar mal em casa com dores no peito. Chamei meu tio que mora na mesma rua e levamos minha vó ao médico. Lá disseram que ela teve uma ameaça de infarto, mas que estava tudo bem, que ela deveria apenas repousar no fim de semana e na segunda feira iniciar uma bateria de exames pra passar a cuidar do coração, que sempre tinha sido muito forte. Aliás, "forte" sempre foi uma das maiores qualidades da dona Margarida, minha avó com quem cresci, aprendi a ser gente e voltei a morar desde o fim de 2009, em Belo Horizonte. Pra quem enfrentou a morte do marido nos próprios braços, perdeu filhos durante a gravidez e mantia sempre sua vaidade impecável e seu bom humor contagiante, minha vó era o modelo da força.

Voltamos pra casa. Meu tio se certificou que estava tudo bem e foi embora. Isso eram já quase 3 da manhã de sábado. Minha avó estava até cantando. Ela foi se trocar e colocar o pijama para deitar, enquanto eu ainda via um pouco de TV. Antes de ir, ela me disse: "vou descansar, tá minha linda?". Quando levantei pra beber água, ouvi um barulho forte no quarto da minha avó, com se algo tivesse caído no chão. Quando entrei lá, minha vó estava caída do lado da cama. Tentei chamá-la, mas nada. Eu não sei identificar pontos vitais e nada disso, mas eu sabia que minha vó tinha morrido. Dei um grito e corri para o telefone, chamando meu tio. "Tio, a vó morreu!"

Voltamos ao hospital só pra constatar o que eu tinha percebido no quarto de casa: minha vó estava morta. Um infarto fulminante tirou a vida da minha vó as 2:54 da manhã de sábado, 21 de maio de 2011. O motivo? Não sei. Ela não teve nenhuma preocupação por esses dias, nem vinha se queixando de dores nem nada disso, a não ser a crise que ela teve na sexta a noite, o que tambem tinha nos pegado de surpresa. Até minha vó tinha se espantado por ter passado mal. "Uai, e esse coração vagabundo querendo pregá uma peça nocês, hein?", ela tinha dito quando voltamos pra casa, usando a letra da música do Caetano Veloso que ela tanto amava.

Enterramos minha vó no domingo de manhã. As 9:30 da manhã de domingo, 22 de maio, descia à cova o corpo da mulher mais fantástica que eu conheci na minha vida. Margarida Beatriz Vasconcelos, minha vó, minha heroína, minha motivação.

Os meus poucos amigos que conhecem a minha história sabem que, se não tivesse sido a luta da minha vó, eu nem estaria vivinha aqui. Não fosse ela ter lutado, brigado, insistido, a gravidez que me gerou teria sido interrompida no terceiro mês. Minha gestação aconteceu num ambiente de total indiferença com a criança que estava sendo gerada, tanto que ninguém se preocupou sequer de pensar num nome pra menina que ia nascer. Novamente minha vó estava lá, pedindo quie colocassem na menina o nome dela, e decidiu-se chamar a menina de Beatriz Vasconcelos, sem sobrenome de mãe nem nada.

Minha vó lutou pela minha vida, brigou, criou inimigos na família para que eu viesse à luz e no momento em que ela morreu eu não estava lá, estava vendo TV. Eu deveria ter acompanhado minha vó no quarto. Sei lá o que eu deveria ter feito, mas eu não estava lá quando minha vó morreu. Minha vó estava lá quando eu nasci, e eu não consegui retribuir isso.

O que vai ser de mim agora? Não sei. Tenho condições financeiras pra morar sozinha aqui em BH mesmo, mas esse não é o problema. Pra quem eu vou dizer "a benção" quando ir dormir? Nunca mais vou ver minha vó se arrumar, se maquiar e virar a "velha poderosa" como ela dizia. Nunca mais vou ver minha vó cochilar na cadeira de balanço da varanda no domingo a tarde, enquanto eu e meus amigos vemos jogo na TV. Não vai ter mais cadeira de balanço. Não vai ter mais cafezinho com bolo de fubá pra receber minha prima. Não vai ter mais vó. Nunca mais. Eu estou me sentindo órfã.

A dor é muito grande. Ainda não acostumei com a ideia de dormir sozinha em casa. Não consegui entrar no quarto dela. Não consegui cozinhar em casa. Cada vez que eu olho pra o fogão eu vejo a minha vó cozinhando e cantando "fica comigo essa noite" do Agnaldo Timóteo. Eu lembro que um dia eu disse pra minha vó que essa música era feia, porque era triste demais. E agora eu queria poder ter dito isso pra ela no sábado passado: fica comigo essa noite, vó.

Está doendo muito. Mais ainda porque a família já me pediu pra desocupar a casa onde eu morava com minha vó, pois vão vender. Os filhos - inclusive meu pai - já estão discutindo o valor. Tudo isso numa pressa que me machuca, parece que já estavam apenas esperando que ela morresse pra venderem a casa e embolsar o dinheiro, sabe? Não perguntaram onde eu vou ficar. Um parente apenas me disse que eu sou "bem grandinha" pra depender da ajuda da família. Mas isso não me importa. Sem minha vó, o lugar onde eu vou morar não vai fazer diferença. Na verdade eu nem queria estar aqui. Tá doendo muito.

Vó, a vida segue para mim. Vou continuar vivendo, trabalhando e planejando meu futuro. Mas faça o que fizer, por onde quer que eu vá a senhora vai estar comigo. Sabe por que? O que a senhora representou pra mim foi muito mais do que lembranças. Foi uma forma de ver a vida. Ver a vida com os olhos da dona Margarida (lembra da dona Edith dizendo isso? rs). E é assim que eu vou ver a vida. Já carrego seu nome no meu, e mais do que isso, carregarei sua vida comigo e prometo honrar sua história. Eu, Beatriz Vasconcelos, quero ser pelo menos um pouco do que foi Margarida Beatriz Vasconcelos, a pessoa mais fascinante que já conheci nesse mundo.

Pedi pra o Wesley corrigir alguns erros meus aqui nesse texto, porque ele lida muito melhor com as palavras do que eu. E não estou com muita cabeça pra fazer textos perfeitos. Agora eu só quero chorar a morte da minha vó. E seguir em frente, vou ter que aprender a conviver com essa dor pra sempre. Nunca mais vou ver minha vó.

Nunca mais.

Adeus, vó.

Beatriz Vasconcelos @beavasconcelos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique à vontade para comentar, acrescentar ou discordar de algo. Mas lembre-se que que escrevo aqui reflete apenas a MINHA opinião, e essa opinião pode nem sempre ser a mais ideal.

Caso tenha dificuldade de escrever por aqui (o Blogger sempre gosta de dificultar as coisas) envie email para weslleytalaveira@blognovasideias.com