Eu e o Carnaval

Desfile da Unidos do Peruche, em São Paulo

É engraçado como algumas coisas acontecem no Brasil.

Temos o costume de dividir tudo entre os "a favor" e os "do contra". Ou você gosta de tudo ou não gosta de nada. Não existe espaço para o meio termo. Isso se aplica em tudo: na política, festas populares no Brasil, religião, etc.

No momento quero falar do Carnaval. Fui criado no ambiente evangélico que condena o Carnaval. Cresci ouvindo coisas como "o Carnaval é do diabo", ou como "Carnaval é uma festa da carne" e outras. Depois de abrir a cabeça e descobrir que existe um mundo fora da Igreja, repensei muitas das coisas em que eu acreditei durante a adolescência. Repensei meus gostos musicais, minha visão sobre o mundo espiritual e sobre Deus, até. Mas ainda não tinha parado pra analisar o Carnaval com olhos que não os do fundamentalismo religioso.

Por definição eu não gosto de Carnaval. Mas hoje, ao assistir o começo dos desfiles das escolas de Samba de São Paulo pela Globo, comecei a ver que muito do que eu critico no Carnaval ainda tem base nas baboseiras religiosas que eu ouvi durante criança. É, passei a ver o Carnaval com outros olhos.

E me surpreendi com o que eu vi.

O Carnaval é um mundo que desperta paixões. Pessoas dão a vida por isso. Cada uma das escolas de samba de SP trabalham com uma dedicação difícil de ver em outras áreas. Gastam tempo, dinheiro e criatividade pra desenvolver um desfile que agrade. Cada tema é pensado com tantos detalhes que eu penso quanto tempo pesquisaram antes de desenvolver o samba-enredo. A história do Theatro Municipal, que foi o tema da Unidos do Peruche, a cidade de São Bernardo do Campo, que foi o tema da Tom Maior e vários outros, tudo tratado com uma riqueza de detalhes que impressiona. Isso sem falar nas fantasias. Tudo feito com dedicação, muita dedicação. Crianças, velhos, ninguém poupa energia pra levar pra passarela o amor pela Escola que defende.

Além do mais, os desfiles desse ano apresentaram uma coisa que eu sempre defendi: a mistura dos vários estilos artísticos. Companhias de balé clássico, música clássica, orquestra sinfônica, tudo junto na passarela, misturado ao som do samba, pra provar que a música e a arte são uma só, independente do estilo ou público-alvo. Precisamos quebrar um pouco esse conceito de "arte de rico" e "arte de periferia".

Percebo que as críticas que fazem quase sempre são baseadas em preconceitos, ou em uma certa despeita por ver gente tão alegre desfilando. Sim, tem gente que se incomoda com a alegria dos outros! Na verdade o Carnaval acaba sendo o bode expiatório que carrega as culpas de gente que gosta de posar de moralista diante dos outros.



Aí alguns vão falar: "então você gosta das mulheres seminuas que desfilam só com tapa-sexo?". Bom, sou homem e gosto de mulher, então acho que essa pergunta fica automaticamente respondida. Além disso, percebo que as "mulheres seminuas" recebem muito menos destaque nas Escolas de Samba do que o que os moralistas de plantão das igrejas e da internet costumam dar. Para as escolas, elas são um componente a mais, não mais importante que o resto do desfile. Aí vem um grupo de chatos que nunca viram um desfile desprezar todo um trabalho feito pelas escolas pra apedrejar apenas um grupo pequeno de moças que desfilam seminuas - ou nuas, às vezes.

O Carnaval é um mercado duvidoso, onde rola muito dinheiro que nem sempre aparece do jeito mais ético? Sim, mas até aí a política também é, o futebol também, a TV também, e muitos outros.

Outros vão falar: enquanto muita gente está morrendo de fome no Piauí, outros estão alegres desfilando em São Paulo. Mas geralmente esses que falam isso são os que desligam quando as Casas André Luiz ligam pedido doação. E precisamos separar as coisas: parar de organizar eventos porque tem gente passando fome não vai resolver o problema. O que resolve o problema é saber votar em gente comprometida com a distribuição de renda.

Concluindo: ainda não posso dizer que gosto de Carnaval, tanto porque não gosto nem um pouco de samba, nem da muvuca que sempre cerca o samba (lógico, há situações em que o samba cai muito bem). Além disso, só conheço o Carnaval de São Paulo, e muito pouco pra ter opinião formada. Mas estou olhando o Carnaval de um jeito diferente, sem as lentes religiosas que eu usei todos esses anos. Diferente do que me ensinaram a ver a vida toda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique à vontade para comentar, acrescentar ou discordar de algo. Mas lembre-se que que escrevo aqui reflete apenas a MINHA opinião, e essa opinião pode nem sempre ser a mais ideal.

Caso tenha dificuldade de escrever por aqui (o Blogger sempre gosta de dificultar as coisas) envie email para weslleytalaveira@blognovasideias.com