Sim, eu havia vencido

Eu estava ali em pé, junto aos outros dois competidores.

Éramos três finalistas do maior concurso musical do continente. Eu havia me preparado por dois anos para fazer uma apresentação impecável. Aulas intensas de canto, muito dinheiro investido. E agora eu estava ali, num palco com iluminação azul montado no maior ginásio do país, sendo aplaudido por mais de 1 milhão de pessoas que se expremiam para esperar ansiosamente o nome do vencedor. O Presidente da República e toda a equipe de governo estavam sentados na primeira fileira, me olhando e torcendo. Nas ruas, por todo o meu país as pessoas gritavam meu nome, erguiam faixas com minha foto e frases como "nós te amamos". Torciam por mim, pois afinal eu era o unico competidor do meu país no concurso. Minha vitória seria uma vitória do país. Durante todo o concurso, marcas de bebidas haviam feito várias campanhas na TV torcendo pela minha vitória. Na internet, sites e blogs trocavam banners com mensagens de boa sorte. As pessoas comentavam no metrô, no trabalho.

Eu usava uma camiseta preta, com calça jeans comum, e tênis preto. Nada muito extravagente, queria manter a imagem do simples competidor que sonhava com o prêmio de US$ 2 milhões. Pela TV, o país inteiro e mais 19 países acompanhavam a transmissão do concurso. Junto com os outros dois competidores, eu aguardava ansiosamente que a estrela prata que se destacava no fundo preto do telão se virasse, e mostrasse o nome do vencedor do concurso que nos levaria ao sucesso absoluto e, com certeza, eterno. As pessoas tremiam, olhavam atentamente. Muitos até roíam as unhas de aflição. Havia muita tensão no ambiente. Eu estava branco. Meu coração parecia querer parar de tanta ansiedade. Nós três nos abraçamos no palco, aguardando os segundos que pareciam demorar décadas.

Então a estrela do telão se virou, e mostrou meu nome em letas brancas, maiúsculas. Sim, eu havia vencido. As pessoas começaram a aplaudir, a gritar meu nome. Começavam a cantar a música que tinha me levado à final do concurso. Luzes brancas iluminaram meu rosto. Eu fiquei imóvel por alguns instantes. Meus colegas de palco, que teriam de amargar o segundo e terceiro lugar, me abraçaram e parabenizaram pela vitória. O apresentador surgiu no palco com o cheque milionário que me era por direito. A audiência da TV foi às alturas. Sem nem perceber, comecei a gargalhar de alegria. Ria feito criança que brinca de esconder o rosto com os pais. Eu estava em êxtase. O coração batia descompassadamente.

Sim, eu havia vencido. Eu era a nova sensação musical do planeta. Comentaristas de TV diziam que meu nome tinha o potencial de superar todo o império que Michael Jackson construiu ao longo de anos de carreira. Rádios em todo o planeta tocavam minha música. Gente de lugares que eu nem sabia existir falavam meu nome. No meu país eu virara orgulho nacional. O Governo decretara ponto facultativo pela minha vitória. As TVs mostravam pessoas pulando, soltando fogos, gritando alegres por eu ter vencido. Naquele momento, eu era a pessoa mais popular do planeta.

Os dias que se seguiram foram intensos. Milhares de convites para entrevistas em todo o mundo. Jornalistas se digladiavam para conseguir cinco minutos comigo. As pessoas usavam camisetas com minha foto pelas ruas. Minhas músicas haviam virado toques de celular, minha foto se transformara em emotions do Messenger. Revistas falavam da minha atuação durante o tempo do concurso. Livros com minha curta biografia haviam sido escritos. Eu tinha muito dinheiro. A mídia me retratava como alguém que tinha vindo de baixo, e com muito sacrifício tinha vencido na vida.

Sim, eu tinha vencido. Vencido a infância pobre. Vencido a doença que quase me levara à morte quando criança. Vencido as circunstâncias. Eu era um modelo para os mais jovens que sonhavam com um futuro melhor. "Se ele venceu, você também pode", os escritores de autoajuda diziam.

E o tempo passou. Meu nome, aos poucos, saiu das páginas das revistas. As TVs se ocuparam de noticiar outras coisas, como mortes em trânsito e maridos que bebiam muito. As pessoas nas ruas deixaram de falar no meu nome para torcer pelo meu país na Copa. Meu nome havia caído várias posições na lista dos mais influentes do meu país que um jornal fazia todos os anos. Eu estava sendo trocado aos poucos pelo Técnico da Seleção. Eu já não era mais visto como o que havia vencido na vida, pois os jornais haviam encontrado um garoto de 16 anos que havia sobrevivido a um incêndio. Algum tempo depois, eu era uma pessoa comum.

Passaram anos, e eu sempre tentava dar um jeito de me manter na mídia. Aos poucos eu percebia os cabelos branquearem e as rugas aparecerem. Mas eu corrigia isso tudo com tinturas e cirurgias plásticas. Eu ainda aparentava ser bem jovem, mas as pessoas não me queriam mais. Haviam arrumado outros herois. Outras pessoas para amar. Haviam encontrado outra pessoa que havia vencido.

Sim, eu havia vencido, mas ao vencer não me avisaram que a vitória é passageira. Que o sucesso se vai com o tempo. E eu, que havia me agarrado com unhas e dentes noa minha vitória, me vi sem nada. Junto com minha vitória, foi-se embora meu dinheiro, minha fama, minha juventude, minha saúde, minha vida.

Hoje estou aqui, sentado nesse banco de praça. Não, não estou mendigando, não. Meu orgulho não me permite fazer isso. Estou aguardando uma pessoa que disse que viria até aqui me trazer uma ajuda. Eu poderia tentar arrumar um emprego, mas minha vitória me impediu de pensar no plano B, em algo que eu soubesse fazer além de vencer. Agora aguardo simplesmente a ajuda de outras pessoas, pois o câncer que me foi diagnosticado há alguns anos se espalhou por todo o estômago, e não sei quanto tempo de vida tenho. Quando eu tinha dinheiro fiz tratamentos, mas o dinheiro acabou. Essa foi outra coisa que não me avisaram: o dinheiro acaba. E eu que pensei que o fato de ter vencido me faria alguém bem sucedido pelo resto da vida...

Pelo resto da vida. Eu achava ter vencido o resto da vida. Mas ninguém vence a vida. Ela passa, inclemente e impaciente, sem esperar nem dar conselhos. Eu que não soube olhar a vitória com outros olhos, e me dediquei simplesmente a vencer.

Sim, eu havia vencido.

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