Medos Privados em Lugares Públicos


Olá, amigos!

Hoje - finalmente - assisti Medos Privados em Lugares Públicos. Já vinha falando há tempos aqui da minha vontade de ver esse filme, tanto pelos trailers que vi como pelas críticas que li. Coeurs (nome francês do filme) é o filme que está há mais tempo em cartaz no Brasil: desde julho de 2007 no cinema mais tradicional de São Paulo: o Belas Artes. Isso, num país onde o máximo de tempo que um filme fica em cartaz é um mês, pode ser considerado uma vitória.

Longe de ser um blockbuster, o enredo de Medos Privados gira em torno de seis personagens. Thierry (André Dussollier) é um corretor de imóveis - irmão da jovem solitária Gaëlle (Isabelle Carré) e que trabalha com Charlotte (Sabine Azéma), a secretária religiosa. Thierry tenta encontrar a casa ideal para Nicole (Laura Morante) e seu noivo, Dan (Lambert Wilson). Mesmo desempregado, Dan quer um dormitório a mais no apartamento para ser seu escritório. E em vez de procurar um emprego, prefere perder as tardes no bar onde Lionel (Pierre Arditi) é barman. À noite, Charlote faz um "bico" cuidando do pai de Lionel. Ao mesmo tempo em que cada personagem tem uma história particular, as histórias se entrelaçam, todas tendo como fundo a neve charmosa do inverno parisiense. Como todo bom filme francês, há muitos diálogos e relações bastante complexas.

(SPOILERS) Coeurs não é um filme que faz o tipo vilões X vítimas, bandidos X mocinhos, muito menos um filme romântico com final feliz - na verdade podemos dizer que Coeurs é um filme sem final, como a maioria dos filmes franceses; é um filme sem ação, que gira em torno praticamente dos diálogos intensos e dos detalhes das cenas. Coeurs é um filme altamente introspectivo, que se propõe a retratar a vida particular, a expor medos, sentimentos, decepções.

A mensagem do filme pode ser percebida não em cenas específicas ou em narrações bonitas, mas nos diálogos e nos detalhes, ou até mesmo em cenas pensadas com todo o cuidado para que pudessem passar mensagens profundas mesmo sem nenhum diálogo, como o momento em que Charlotte e Thierry trabalham, cada um em sua mesa, vistos pelas costas, separados apenas por uma baia de vidro, ou na cena em que Charlotte e Lionel conversam debaixo da neve imaginária que cobre a mão gelada de Lionel, ou ainda nas cenas finais, com Lionel indo embora de casa, Charlotte trabalhando sozinha no escritório e a cena que encerra o filme, com Gaëlle e Therry sentados no sofá, juntos. Essas cenas mostram a mensagem principal do filme: independente da vida que levamos e das pessoas que temos, cada um de nós é uma pessoa individual, e nos momentos cruciais da vida não teremos ninguém ao nosso lado. As maiores decisões da nossa vida deverão ser tomadas apenas por nós mesmos e por ninguém mais. E essa vida na qual vivemos solitários, mesmo em meio as festas das baladas, como vivia o garçom Lionel, pode ser um ceu ou um inferno, dependendo do ponto de vista e do estilo de vida que se leve. Na verdade todos nós temos momentos de ceu, e momentos de inferno. A diferença é qual desses momentos nós alimentamos para que aconteçam com mais frequência. 

O nome francês do filme, Coeurs (corações), retrata bem o que o filme mostra: corações confusos com o que o rumo que a própria vida tomou, gente que se perdeu no meio do caminho e nem percebeu, e só acorda quando é tarde demais. Um oficial do exército que foi destituído, perde a noiva e nem se dá conta. Um corretor de imóveis que descobre um lado de si, do homem pervertido sexualmente, que até então estava adormecido e que é despertado exatamente pela secretária feia que se mostra religiosa e fiel aos preceitos da Bíblia. Uma jovem bonita que percebe que o tempo está passando e está ficando sozinha e inventa amigas e histórias imaginárias para justificar as saídas que dá todas as noites, par tomar café sozinha e ler enquanto espera os pretendentes que encontra na internet e que nunca aparecem. O garçom que vê todos os dias pessoas fingindo felicidade, rindo e bebendo, enquanto ele mesmo tem seus problemas particulares, mas precisa passar por cima de todos e ser o amigo de pessoas que nem conhece direito todos os dias no trabalho. Pessoas comuns. Corações.

Já o nome brasileiro, Medos Privados em Lugares Públicos, mostra outro lado do filme: gente que vive, trabalha, bebe, se diverte, namora, mas guarda dentro de si tanta coisa. Aos olhos dos outros podemos ser pessoas comuns, mas nós mesmo sabemos o quanto há dentro de nós que muitas vezes fica totalmente invisível aos outros. Daí surge a solidão, mensagem do filme: por melhores que sejam os amigos e parentes, somos seres solitários que não conseguem expressar realmente o que se passa em nosso interior. Estamos sozinhos quando colocamos a cabeça no travesseiro e começamos a refletir no que somos de fato e no que nos tornamos. Somos pessoas particulares, individuais, com medos privados, internos, imperceptíveis aos olhos dos outros, vivendo em público, no meio de amigos, parentes.

Digo, sem sombra de dúvidas, que foi um dos melhores que já vi na minha vida. é o último filme que vejo em cinema em 2010, e não poderia terminar melhor. Medos Privados em Lugares Públicos, com certeza, vai estar na lista dos que quero ver novamente em 2011.

Veja o Trailer:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique à vontade para comentar, acrescentar ou discordar de algo. Mas lembre-se que que escrevo aqui reflete apenas a MINHA opinião, e essa opinião pode nem sempre ser a mais ideal.

Caso tenha dificuldade de escrever por aqui (o Blogger sempre gosta de dificultar as coisas) envie email para weslleytalaveira@blognovasideias.com