Olhando o Regime Militar com os olhos de Jarbas Passarinho

Sim, esse blog é altamente confuso. Vai de mulheres sexy à história política em apenas uma semana... rs

Enquanto Morfeu me dá uns minutos de crédito para esperar começar Two and a Half Man no SBT  (combinei com a @radgravato de tentar esperar o começo, mas tá difícil), assisti a entrevista do Geneton Moraes com o ex-Ministro da Educação e da Previdência Jarbas Passarinho, que atuou no governo federal durante o Regime Militar, e que agora está com 90 anos de idade.

Com o alto nível intelectual de sempre, Geneton consegue arrancar do ex-Ministro declarações impressionantes sobre o Regime. Ao mesmo tempo em que diz que Jarbas Passarinho diz que se rebelaria contra o regime na época se tivesse a cabeça que tem hoje, faz mea-culpa com os demais generais e afirma: "eu participei do Regime, e não posso ser visto como bonzinho". Diz ter avisado pessoalmente o General Médici sobre as torturas que eram praticadas pelas ruas e foi o primeiro membro do Governo a chamar o Regime de ditadura.

Jarbas Passarinho ficou conhecido quando, ao assinar o AI-5, pronunciou a frase que ainda hoje é repetida, quase sempre por humoristas: "às favas com os escrúpulos". Afirma também que os atentados de 64 foram um "golpe preventivo", que visava proteger o país de um outro golpe, mas o comunista. Nesses atentados, membros do Partido Comunista do Brasil morreram no Aeroporto de Recife-PE. Vale lembrar que o Partido Comunista Brasileiro foi extinto em 1989 e refundado com o nome de PPS.

Enfim, a entrevista é muito esclarecedora, dá uma outra visão sobre a ditadura, diferente da visão dos livros escolares. Pra mim, que nasci 4 meses depois do fim do Regime, foi uma oportunidade de ouvir declarações de gente que esteve nos bastidores, que estava do lado dos que "mandavam".

Se ficou interessado, veja o vídeo:

Consciente Coletivo, por @institutoakatu


Apartir da próxima semana, o Blog Novas Ideias trás os vídeos da série Consciente Coletivo, do Institudo Akatu.

Em 10 episódios, a série Consciente Coletivo faz reflexões, de forma simples e divertida, sobre os problemas gerados pelo ritmo de produção e consumo de hoje. Entre os assuntos estão sustentabilidade, mudanças climáticas, consumo de água e energia, estilo de vida, entre outros, que permeiam o universo da consciência ambiental. O projeto é uma parceria entre o Instituto Akatu, Canal Futura e a HP do Brasil.

Todas as quartas, um vídeo novo estará aqui no Blog Novas ideias. Se você já viu os vídeos no site do Instituto Akatu ou no Canal Futura, reveja, pois são bastante interessantes. Se ainda não viu, eis a oportunidade de conhecer esse trabalho interessantíssimo.

Corazón Iluminado

Cena de Corazón Iluminado

Ainda estou sem palavras para o filme Corazón Iluminado, que acabei de assistir na TV Cultura, no Cine Brasil. Sim, estou emocionado, trêmulo, tamanha a magia e a intensidade como a paixão e a interioridade humana é tratada.

Juan (o argentino Valter Quiróz) é um adolescente argentino que vive um relacionamento conturbado com Ana (a brasileira Maria Luísa Mendonça). Movido pelo sonho de ser um cineasta e tentando provar que era possível fotografar a alma humana, decide fazer um experimento e tentar fotografar Ana com um aro de luz, mas a experiência é forte demais. Ana já tinha problemas mentais, e com o experimento, ela tem uma crise que faz com que os pais a internem num manicômio.

Um tempo depois Juan vai visitar Ana e os dois fogem para ter sua primeira noite de amor e recomeçar uma nova vida longe dali, mas acontecem coisas que os separam para sempre. Anos depois, agora morando em Nova Iorque, Juan (agora vivido pelo argentino Miguel Angel Solás) volta a Argentina para rever o pai e descobre que Ana ainda está viva. Tenta reencontrar Ana, mas acaba conhecendo Lilith (a brasileira Xuxa Lopes), uma mulher misteriosa que desperta em Juan sentimentos da adolescência que ele nem lembrava existirem mais.

No filme, Hector Babenco faz quase uma autobiografia. O próprio autor carrega consigo a culpa de não ter dado atenção à morte do pai, em 1984, por causa das gravações de O Beijo da Mulher Aranha. Corazón Iluminado trata do amor, da dificuldade das pessoas em lidar com esse sentimento tao complexo e quase sempre maluco. Nos faz pensar que "os homens sempre gostam das mulheres malucas, mas no fim acabam casando co as certinhas" (frase do filme). O filme noe leva a relfetir sobre nossa interioridade, sobre coisas que se passam em nós e muitas vezes nós mesmos não conseguimos explicar. Enfim, Corazón Iluminado só reforça a tese de que arte e vida real nem sempre estão separadas. Aliás, na maiora das vezes elas estão intimamente ligadas.

Microconto: Peça

Sabia que precisava urgentemente decorar seu texto e representar o papel que lhe fora designado, pois logo mais as cortinas iriam se fechar, a peça acabar, e ele corria o risco de passar despercebido.

#microcontos

Microconto: Estômago de Pobre

Estava tão acostumado a comer mortadela que no dia em que comeu presunto parma, passou mal do estômago.

#microcontos

Microconto: A criança que cresceu

Odiava ser visto como a criança que cresceu. Era um tal de "menino", pra lá, "menino" pra cá. Até que um dia resolveu mostrar a todos que havia virado adulto. Fumou seu primeiro cigarro de maconha, oferecido por um colega do colégio. Desse dia em diante tinha a certeza: nunca mais seria visto como uma criança.

Dez anos depois, estava internado numa clínica para tratamento de dependentes de drogas, num estado crítico de vício em crack. Já havia perdido tudo: familia, amigos, dinheiro, mulheres, dignidade.

E teve saudades de quando era visto como uma criança.

#microcontos

Microconto: A Lua

Gostava de olhar a lua. Por mais iluminada e evidente que esteja, a lua sempre tem um lado oculto, escuro, que ninguém pode ver. Assim como as pessoas.

#microconto

Microconto: Mediocridade

Julião irritava-se com a mediocridade abundante na TV. Por isso considerou o controle remoto uma das maiores invenções da humanidade.

#microcontos

Microcontos

Entrei na onda de escrever microcontos, textos curtos com temas específicos. Com poucas palavras, vou usar a ficção para expor um pouco do que se passa em mim em momentos específicos.

Não sou poeta muito menos escritor, mas quem sabe um dia venha a ser? Por isso começo escrevendo microcontos. Se quiser me acompanhar, fique a vontade!

Pra quem pretende ser poeta, escritor ou algo do gênero algum dia, vale a pena ver as dicas da Anna Tamaio, aqui.

Bái

Mini - Talaveira

Já que todo mundo entrou na onda do Children Day e colocou fotos da infância no Twitter, coloquei também a minha, com apenas 6 meses de vida, tirada em fevereiro de 1986. Se não conseguiu fazer as contas, eu nasci em agosto de 1985. Se não conseguiu fazer as contas de novo, eu tenho 25 anos... haha

Aí vai o Mini - Talaveira, versão original de fábrica...

Detalhe para a TV no fundo. Não tem como não me sentir um velho... hahaha
Segundo a mãe Neuza, eu estava cantando nessa foto. Ou tentando cantar.

Bái!

Teatro de graça, ou quase, em SP


Tem muita coisa boa pra acontecer por esses dias em SP. E de gtaça, ou a preços muito baixos. Vale a pena conferir:


Hell, com Bárbara Paz:
Com estreia marcada para dia 07/10, em cartaz até 19/12, a peça, com Bárbara Paz é uma adaptação do livro de Lolita Pille, feita por Hector Babenco e Marco Antonio Braz. Em 2003 e com apenas 21 anos, Lolita estreou na literatura com "Hell", um livro revelador sobre a rica juventude francesa e suas aventuras com sexo, drogas, grifes e álcool.
Teatro SESI
Av. Paulista, 1313 Bela Vista
Quinta a domingo, 20:00
R$ 10,00 (quinta e sexta grátis)


 
Música para Cortar os Pulsos:
Estreia dia 07/10, até 17/10. Com Mayara Constantino (de Tudo que É Sólido Pode Derreter). Em dez cenas curtas, as histórias amorosas de três jovens se desenrolam com a intensidade (e ao som) das músicas para cortar os pulsos. Isabela sofre porque foi abandonada, Felipe quer se apaixonar e Ricardo, seu amigo, está apaixonado por ele.
Sesc Pinheiros
Rua Paes Lemes, 195 Pinheiros
Quinta a domingo, com sessão extra no dia 12 de outubro
Quinta, sexta e sábado, 19:00
Domingo, 18:00
Sessão extra dia 12, 18:00
R$ 8,00 inteira


 
Por um Triz, com Grupo de Teatro CIL
Leitura de pequenos textos de Harold Pinter, Dorothy Parker, Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes.
Teatro Vivo
Avenida Chucri Zaidan, 800 Morumbi
Sábados, 16:00
Gratuito


 
Kean - Letras em Cena
Leitura dramática de peças de teatro. Com Clarisse Abujamra, Nelson Baskerville, Fabio Herford, Luciano Chirolli e convidados.
MASP
Avenida Paulista, 1400 Bela Vista
Dia 18/10, 19:30
Gratuito

Obrigado, Marina!



Infelizmente, o Brasil mostrou nessa eleição que ainda não está preparado o suficiente para escolher pessoas comprometidas com a sustentabilidade, com o crescimento ordenado e responsável, com o debate de ideias, a discussão de temas importantes para o Brasil. A oportunidade que o Brasil tinha de dar um passo além, de romper com o plebiscito do "a favor X contra" foi perdida nas urnas. O Brasil ainda prefere pessoas que tenham cara simpática, discurso que agrade a gregos e troianos, subcelebridades, pseudo-humoristas, gente que usa e abusa dos clichês para parecer convincente. O Brasil mostrou estar muto longe da imagem de povo civilizado e moderno que as propagandas mostram. Talvez isso seja resquício do Brasil da Ditadura, formado por gente que ainda não sabe se posicionar para coisas que não sejam o eliminado do Reallity Show.


Como você deve ter acompanhado, aqui mesmo no blog eu abri meu voto à Marina Silva, do PV, por me identificar com o projeto dela. Participei, com muito orgulho, da #ondaverde que tomou conta do Brasil e foi assunto de revistas e até de estudo sociais em importantes universidades. Marina conseguiu envolver em sau campanha gente totalmente avessa e alheia ao discurso político. Conseguiu reunir à si gente totalmente oposta. Conseguiu fazer ateus falarem sobre religiosidade, e evangélicos reverem posição sobre aborto. Trouxe para sua campanha gente que nunca sequer se imaginaria apoiando uma mulher feínha, missionária da Assembleia de Deus, de voz irritante e vinda do Acre.  Isso porque a forma como a Marina pensa o Brasil, sua cabeça aberta para o novo, a forma como ela encara temas polêmicos sem usar nenhum clichê, sua visão da religião e como conseguiu conciliar tão bem a fé a temas polêmicos foram simplesmente encantadores. Marina conseguiu cumprir a única promessa de campanha feita por ela: resgatar o sonho. Talvez pessoas como a Marina sejam, mesmo, apenas um sonho num país de Sarneys. Isso e mais algumas coisas me levaram a votar 43 nessa eleição. Nao só nela, mas também na legenda dela para São Paulo: @Fabio_Feldmann e Ricardo Young @RYoungSenador, além de ter apoiado as campanhas de @AleYoussef para deputado federal e @ClaudinhoGaspar para deputado estadual, ambos do PV. Todos eles gente comprometida com o novo, com o mesmo perfil da Marina. E, respondendo ao senador Álvaro Dias, do PSDB, que disse na Band que a campanha da Marina existiu apenas para levantar bandeiras e não para ganhar, afirmo que a certeza do segundo turno era visível entre os militantes do partido. Todos tinham sim o desejo de ver Marina Silva como a primeira mulher presidente do Brasil. Todos acreditaram na Marina. E continuam acreditando, tamanha a empolgação que vi entre os membros do Movimento Marina. Eu também continuo acreditando na Marina. Pra mim, ela vai continuar sendo um modelo de gente que vence as adversidades, sejam elas uma pobreza e analfabetismo no seringal do Acre, seja uma contaminação por mercúrio. Marina ainda é pra mim quem representa o verdadeiro "país do futuro", um país desenvolvido, mas com cara de Brasil, com cara de "Silva".


Com o cenário que se formou no segundo turno, não vejo a menor perspectiva de que as ideias sustentáveis de desenvolvimento possam ser aplicadas no Brasil dos próximos 4 anos. Estamos fadados a ver novamente o modelo desenvolvimentista que vem arrastando o Brasil para um caminho retrógrado, baseado no trabalho braçal e na exploração do petróleo. Como se não bastasse isso tudo, a campanha do segundo turno vai ferver, com emoções à flor da pele. Tucanos X petistas vão se digladiar como "nunca anres na história desse país".

E eu prefiro ficar de fora dessa guerra. Tenho motivos (?) pra votar no PT e no PSDB. Conheço gente boa no PT e no PSDB. Tenho amigos bons que apoiam Dilma e que apoiam Serra, e prefiro não me indispor com nenhum deles. Na internet, principalmente, conquistei muitos amigos bons, gente que se tornou especial pra mim, e que agora pode se dividir. Não quero me indispor com eles (principalmente por política!) então prefiro me ausentar um pouco dos assuntos políticos durante essa nova eleição que se formou.

Por isso, prefiro não revelar meu voto, nem posicionar o Blog Novas Ideias a favor de qualquer das duas candidaturas. Nao vou anular, pois não acredito ser esse o melhor meio de exercer democracia. Prefiro fazer do meu voto o que ele realmente deve ser: secreto.

E bola pra frente, porque ainda tem muito chão pra se caminhar.

Quem disse que só tem um jeito?

Entrevista com Ivan Valente (@dep_ivanvalente)


Ivan Valente, 56 anos, é professor, engenheiro e deputado federal pelo PSOL de São Paulo. Iniciou a carreira ainda jovem em movimentos estudantis, foi atuante contra a Ditadura Militar. Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, e foi eleito deputado estadual em 1987 e 1991. Em 1994, substituindo Florestan Fernandes, foi para a Câmara Federal. Em 2005 mudou-se para o PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade), partido do qual fazem parte nomes importantes como Heloísa Helena, Chico Aencar e Luciana Genro, e se elegeu deputado federal em 2006 com mais de 83 mil votos. É conhecido pela sua oposição ao governo Lula, pricipalmente na política econômica.

Em meio a uma campanha movimentada, Ivan Valente reservou um tempinho para falar ao Blog Novas Ideias sobre sua atuação na Câmara, suas ideias sobre política, imprensa, e suas propostas de campanha.

Por Wesley Talaveira


O Sr. iniciou sua militância política num momento da nossa democracia ao mesmo tempo delicado, por causa da ditadura, mas também um momento em que muita gente de ideias firmes manteve-se atuante. Comparando aquele tempo com o atual, acha que nossa sociedade ainda continua atuante, militante como nos tempos da ditadura, ou acredita que o brasileiro tem se alienado das discussões políticas? Por que?
É difícil comparar o envolvimento da população na militância política em contextos tão diferentes. Naquela época, lutávamos pela liberdade e pela democracia, valores que naturalmente atingem um número maior de pessoas do que, por exemplo, a luta pela desigualdade social, que tanto defendemos hoje. Por outro lado, hoje as pessoas tem mais acesso à informação e podem, se assim desejarem, encontrar uma infinidade de instrumentos de luta para defender seus ideais. O problema é que, num país como o nosso, de grande concentração de renda, terra, riqueza e poder, políticas sociais de baixa intensidade têm um efeito considerável de conformação social, e é isso o que vemos neste momento eleitoral, em que o governo aposta no mote continuísta. A falta de um forte movimento social e a desmobilização da força social de mudança, que ocorreu no último período, aliadas à fragmentação e ainda pouca expressão de outras candidaturas de esquerda, realçam o quadro de dificuldades de uma alternativa verdadeira de esquerda acumular rapidamente na direção da real transformação social – e de envolver o povo nesta luta. Ou seja, apesar da dura realidade das condições de vida da maioria do povo brasileiro, não há um processo de indignação organizada em marcha. Os partidos políticos não têm dado conta desta tarefa, ou por opção ou por falta de condições objetivas e também erros de avaliação. É preciso levar em conta o nível de organização e consciência real dos trabalhadores, se engajar nas lutas que movimentam o povo em torno de direitos e, num processo pedagógico de luta, mobilização e organização, atingirmos um patamar de pressão social capaz de viabilizar mudanças sociais sempre prometidas e nunca realizadas em nosso país.


O Sr. tem historia dentro do PT. Ajudou a fundar o partido e participou da Direção por algum tempo. O que o levou a sair do partido e ir para o PSOL?
Durante 17 anos fui membro da Direção Nacional do PT. Foi em respeito à coerência e ao compromisso com os interesses dos trabalhadores e das maiorias nacionais, que sempre marcaram nossa atuação partidária, no parlamento e na sociedade, que decidi sair do PT. Ainda no partido, combatemos duramente a política econômica do governo Lula. Travamos uma batalha sem tréguas para que Lula cumprisse as promessas de campanha e não frustrasse as expectativas de mudanças geradas na sua eleição. Em 2003, primeiro ano do governo, fui um dos proponentes do Manifesto “Mudanças, Já!”, assinado por 29 parlamentares petistas. Neste mesmo ano, combatemos a Reforma da Previdência pelo seu caráter de ataque aos direitos dos trabalhadores, desfiguração do papel do Estado e abertura de mercado para os Fundos de Pensão privados. Fui punido pela Direção Nacional do PT por não ter votado a favor da Reforma.
Em 2004, organizamos o seminário “Queremos um Outro Brasil”, que reuniu 15 deputados federais petistas em São Paulo e elaborou um documento alternativo de política econômica que foi entregue ao governo. Em junho deste ano, novamente fui punido pela Direção Nacional do PT. Desta vez, o motivo foi ter me recusado a votar na proposta do governo para o salário mínimo, votando por uma proposta de aumento maior e condizente com a necessidade de um esforço pela recuperação do salário mínimo como mecanismo de distribuição de renda no Brasil. Em 2005, um novo Seminário em São Paulo lançou oficialmente o Bloco Parlamentar de Esquerda da bancada petista, criado para ser contraponto às políticas neoliberais do governo. Nos comprometemos a não votar em hipótese alguma propostas que significassem ataques aos direitos dos trabalhadores.
Em maio daquele ano, assinei, acompanhado pela maioria dos deputados do Bloco de Esquerda e pelo senador Eduardo Suplicy, o pedido de instalação da CPMI dos Correios. Vieram à tona as primeiras denúncias envolvendo o governo Lula. O apoio à CPMI partiu da constatação de que um governo petista não poderia esconder os fatos e precisava enfrentar a opinião pública punindo os responsáveis por atos ilícitos. O PT sofreu acusações cada vez mais intensas de atos de corrupção. A militância assistiu desnorteada ao descortinar de fatos envolvendo dirigentes nacionais do partido. Neste ano, fui candidato a presidente estadual do PT de São Paulo, junto com o companheiro Plínio de Arruda Sampaio para presidente nacional – ambos apoiados pela Chapa Esperança Militante. A chapa defendia punição a todos os envolvidos em atos de corrupção e mudanças imediatas na política econômica.
Apesar do expressivo apoio obtido no Processo de Eleições Diretas, os votos não foram suficientes para derrotar o chamado Campo Majoritário do PT, o mesmo setor responsável pelas alianças espúrias, pela condução do partido nos últimos anos e de cujo quadro faziam parte os dirigentes envolvidos em corrupção. Predominaram nas eleições interna o voto de cabresto, as máquinas de prefeituras, do governo e dos mandatos, que condicionaram o voto de parte expressiva dos filiados petistas. Após um amplo debate com os apoiadores do mandato e com setores expressivos da esquerda socialista brasileira, tomamos a decisão de sair do PT e ingressar no PSOL.


No primeiro programa de Governo apresentado pelo PT ao TSE, estava o “controle social da mídia”, e recentemente o ex-deputado cassado José Dirceu disse que o problema do Brasil é o “excesso de liberdade” da imprensa. Como vê a atuação da imprensa brasileira? Seria a favor de algum tipo de controle?
A imprensa brasileira é livre e assim deve continuar. As afirmações feitas recentemente – que, na verdade, repetem um filme que vimos nas últimas eleições – de que há iniciativas autoritárias do governo para controlar os meios de comunicação não passam da manifestação de setores conservadores da nossa sociedade que não admitem a existência de qualquer tipo de regra para o funcionamento da mídia. Regra, no entanto, é muito diference de censura. Respeitar a nossa Constituição está muito longe de restringir a liberdade de imprensa no país. O que tem acontecido é uma distorção proposital do conceito de liberdade de expressão para formar a opinião pública brasileira contra qualquer iniciativa de garantia de que os meios de comunicação cumpram o que estabelece nossa Carta Magna. E é isso o que nós defendemos: o respeito à Constituição brasileira, que estabelece, entre outros pontos, a proibição do monopólio nos meios de comunicação, as prioridades que as concessões de rádio e TV devem seguir, o direito de resposta àqueles que se sentirem ofendidos pela mídia, a existência de um sistema público de comunicação forte, etc. Neste sentido, o controle social é uma bandeira histórica de setores da sociedade brasileira que sempre se sentiram excluídos, estigmatizados ou silenciados pela nossa grande mídia. Este controle não tem absolutamente nada a ver com censura. Trata-se da criação de mecanismos de regulação dos canais de rádios e televisão (portanto, de concessões públicas) que possam agir diante do descumprimento das regras existentes para o setor por parte dessas emissoras. Trata-se de um monitoramento que se faz a posteriori, e que existe no caso de outras concessões públicas no Brasil e também com a radiodifusão em dezenas de outros países, como a Inglaterra, França, Alemanha e também vizinhos nossos da América Latina. Como quem combateu e sofreu na pela as conseqüências da ditadura militar, nunca defenderia a volta da censura em nosso país. Mas o controle social é muito diferente disso. É algo necessário para que a pluralidade e a diversidade de nosso país estejam, de fato, representadas e respeitadas pelas concessões de rádio e TV.

Como vê o papel da internet nessas eleições? Acha que a internet teria força para superar a campanha televisiva?
A internet tem sido um espaço fundamental para a promoção dessa diversidade de idéias e opiniões no momento eleitoral. Nossa campanha, por exemplo, tem feito um diálogo permanente com a população não só nas ruas de São Paulo, mas também através de nosso site, twitter, face book, nossa página no flickr, etc. No entanto, ainda estamos longe de superar, pela rede mundial de computadores, o impacto da televisão no processo eleitoral. Apesar do acesso à internet crescer rapidamente no país, cerca de metade da população ainda não pode ser considerada usuária freqüente da internet. E muitos que têm acesso ainda o fazem privilegiando o acesso a sites de relacionamento e troca de emails. A busca por informação diferenciada e plural ainda é minoritária na rede. Mas estamos avançando. Para nós, que recusamos as campanhas milionárias e não aceitamos doações de banqueiros ou empreiteiras – porque o alto preço dessas doações é cobrado depois dos governantes e parlamentares eleitos –, a internet será cada vez mais importante.

O que o Brasil pode esperar de Ivan Valente na Câmara?

Pode esperar a coerência, a ética na política e a continuidade das lutas que historicamente travamos no Parlamento brasileiro. No último período, por exemplo, nosso mandato atuou prioritariamente na luta pela mudança do atual modelo econômico, que privilegia interesses do capital financeiro, dos monopólios e das grandes corporações, em detrimento do social e das maiorias excluídas do país. Foi nossa a iniciativa de instalação da CPI da Dívida Pública, que investigou contratos que são lesivos aos interesses nacionais, que, só no ano passado, destinaram 380 bilhões de reais para pagamento de juros e amortizações dos serviços da dívida, correspondendo a 36% do orçamento da União, enquanto que para a saúde foram destinados 5% e à educação 3%, ou seja, uma nítida demonstração de que os bancos são os grandes beneficiários do atual modelo. Além disso, atuamos de forma destacada na Comissão de Relações Exteriores, na defesa da educação pública, dos direitos humanos e contra as propostas de rebaixamento da atual legislação ambiental, enfrentando o lobby da bancada ruralista na Comissão Especial que analisou as mudanças do Código Florestal Brasileiro. Em nossa página da internet é possível encontrar outros projetos e iniciativas de nossa autoria: www.ivanvalente.com.br. Daremos continuidade a essas lutas, que estão longe de terminar.

Qual mensagem deixaria aos leitores (e eleitores) do Blog Novas Ideias?
Agradeço muito o espaço e deixo uma última reflexão. Queremos que nosso mandato continue sendo um espaço para aqueles que não se conformam com o discurso do possível. Fizemos uma campanha com o trabalho voluntário e generoso de gente consciente, que concorda com o nosso projeto. Queremos muito continuar este trabalho e fortalecer a luta por transformações. Nossa candidatura tem encontrado grande receptividade, pelo trabalho realizado, pelo reconhecimento de nossa trajetória, pela conduta transparente e coerente. Mas para garantir a conquista de um novo mandato, enfrentando o poder econômico e as dificuldades particulares do estado de São Paulo – onde, para eleger o primeiro deputado, um partido necessita de mais de 310 mil votos –, será preciso multiplicar ainda mais nossa campanha nesta reta final. Peço então o apoio dos leitores do blog. Visitem o nosso site, conheçam as nossas propostas e, se concordarem com elas, dêem um voto de confiança pela continuidade do nosso mandato. O Brasil precisa de parlamentares compromissados com o interesse público, porque, acreditem, pior do que está fica.