De como eu virei um "marineiro"

Francisco Rossi

Sempre gostei muito de política. Me lembro desde criança acompanhar o horário eleitoral, procurar gravar nome e número de candidatos e conhecer propostas, mesmo sem nem ter idade para votar, sequer como facultativo. Lembro até hoje da campanha de Francisco Rossi à prefeitura de São Paulo, na época pelo PDT, em 1996, e do slogan Rossi: testado e aprovado, de como vibrava ao saber que ele tinha chances de vencer Celso Pitta, do então PPB. Mas o Pitta acabou vencendo e fez a merda que fez em São Paulo.

Por incrível que pareça, conforme fui crescendo e descobrindo a política, me desencantei. Cheguei a flertar com o PT, me filiei, até. E me desfiliei apenas por causa de um engano meu no TRE, que me pediu recadastramento e eu não fiz (isso me rendeu, inclusive, uma convocação para ser mesário...). Mas o que eu via diariamente na política havia me feito desencantar. Quanto mais eu pensava que a política era o instrumento certo para quem quer fazer algo diferente pelo lugar onde vive, mais eu percebia que a política é apenas um meio de ter privilégios e vantagens pessoais e ainda ganhar muito dinheiro com isso, seja com salários altíssimos, seja com propinas, mensalões, dólares na cueca e etc.

Propaganda da Soninha Francine em SP em 2008

Cheguei a flertar também com o PPS. Na campanha municipal de 2008, vesti a camisa popular socialista e participei da campanha da Soninha Francine à prefeitura, distribuindo materiais, falando com pessoas. Gostei da imagem descolada dela, que aparecia na TV mal arrumada e sem nenhuma maquiagem, da clareza dela em falar sobre política e das propostas contextualizadas dela para São Paulo, achei que o que ela falava batia muito com o que eu acreditava ser a política. Foi no slogan da campanha dela (Soninha: quem disse que não tem mais jeito?) que me inspirei para o slogan do Blog Novas Ideias. Mas ela perdeu as eleições de 2008 e foi trabalhar como subprefeita da Lapa, à convite do prefeito Kassab. Daí em diante ela se rendeu à tucanada paulista. Tá, ela já explicou quinhentas vezes porque saiu do PT, porque apoia o Serra e trabalha na campanha dele, e eu entendo isso. Também não tenho nada contra o Serra e o acho um cara legal. Mas a Soninha virou uma coisa chata. De uma mulher cheia de ideias legais, simples e eficientes, ela virou um simples cabo eleitoral tucano. Mais uma vez me desencantei com a política.


Em 2008, enquanto o PT se contorcia feito peru bêbado procurando alguém que pudesse suceder o Lula, surgiram rumores de que Marina Silva poderia ser a sucessora. Ainda conhecia pouco a Marina, devido ao meu desencantamento com a política, mas o pouco que ouvia falar era bom. Ela era sempre citada como mulher de pulso firme, que preferiu perder o Ministério do Meio Ambiente do que fazer concessões que fossem contra o que ela acreditava ser o melhor para o Brasil. Em 2009 veio a notícia de que ela havia saido do PT e se filiado ao PV para se candidatar à presidêcia. Com  isso culminou todo meu desencatamento pelo PT, que aceitou perder um nome ético como a Marina, apesar de já vir perdendo gente boa há anos, como Ivan Valente, Hélio Bicudo e outros. Estive na convenção do PV em São Paulo que recebeu Marina Silva, e lá decidi que ela seria minha candidata.


 
Com o passar do tempo, e das eleições, cada dia confirmo que estou certo ao dar meu voto à Marina Silva. Ela conseguiu algo que eu considerava quase impossível: me fazer encantar novamente pela política. Na Marina vi a política como instrumento eficiente para transformação, para lutar pela justiça e igualdade. Ela me inspira a lidar com a política como uma coisa legal, divertida, até. Na Marina vi uma política séria, inteligente, antenada com o que há de melhor no mundo, mas com a cara brasileira de uma Silva que nasceu pobre e veio se alfabetizar apenas aos 16 anos no Acre, e virou uma das 50 pessoas capazes de salvar o planeta, de acordo com a The Economist. Marina é inspiradora. Ela desperta em quem a ouve os sentimentos mais nobres, os melhores sonhos. Marina é cativante. Ouvi-la falar sobre sua família, suas irmãs que ainda hoje vivem no Acre como empregadas domésticas mostra a mulher que venceu todas as adversidades, mas não esqueceu de onde veio e sabe que, assim como ela, muita gente nesse país ainda está lá. Ouvi-la falar com muita propriedade sobre questões ambientais despertam em qualquer um o desejo de trabalhar pela sustentabilidade do planeta - foi oque aconteceu comigo. Marina, com sua voz irritante de taquara rachada e cara de crente da Assembleia de Deus, nos leva a acreditar que ainda dá pra sonhar com um país justo, sustentavel, onde crescimento e preservação ambiental sejam parceiras, onde as ideias estejam acima do pragmatismo, onde propor conjunto de ideias esteja além de prometer "salário mínimo de R$ 600,00. Marina sensibiliza a todos nós a continuar acreditando que ainda existe gente séria, comprometida com a política, não apenas no seu partido, mas em todos os partidos.

Por isso, abro aqui meu voto. Dia 3 de outubro, vou de Marina Silva, e em toda a legenda dela em São Paulo: Fábio Feldmann Governador 43, Ricardo Young Senador 430. Sim, eu sou um "marineiro".

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