Vida Passageira

Por duas únicas vezes, vi pessoas muito próximas a mim deixarem esse mundo.

Uma delas foi o Sr. Sidney, meu primeiro patrão que me ensinou boa parte do que sei hoje na vida profissional. Trabalhar com Sr. Sidney e a Silvana era melhor que qualquer faculdade: ou se aprendia ou "limpava o beco", como ele mesmo dizia. Sr. Sidney era mal humorado, carrancudo e botava medo em muita gente, mas o coração que se escondia por trás da barba cerrada ganhava a admiração de todos que o conheciam, mesmo levando "gritos" todos os dias... Sr. Sidney tinha algo especial: era cativante, mesmo colocando medo. Poucas vezes ria, mas quando ria era sincero, torcia pelo sucesso do outros, queria ver seus funcionários se darem bem na vida. Me lembro da vez que me pagou o primeiro salário, proporcional aos dias em que eu tinha trabalhado. Como eram apenas 3 dias, recebi uma quantia em torno de R$ 50,00. Ao me pagar o salário, ele me disse com sua voz grave e amedrontadora: "Aê, Weslley! O menor salário, hein? Podexá, logo o seu vai ser o maior salário daqui". E não é que isso aconteceu mesmo? Mas ele não viu. Sempre comentava com meus colegas que o Sr. Sidney e a Silvana eram modelo de casamento perfeito, mesmo sendo tão diferentes. Ela era sorridente e brincava com todo mundo. Era a "Sil". Ele... bem, deixa pra lá. Os mais chegados o chamavam de "barba". Os funcionários o chamavam de "seu Sidney". Sr. Sidney deixou a vida no dia 16 de fevereiro de 2005, vítima de um infarto fulminante.

A segunda pessoa resolveu nos deixar hoje. A Zenaide, com quem convivi durante meu tempo na Igreja Assembleia de Deus, foi amiga, ótima saxofonista de Banda de Música, componente exemplar quando fui maestro, pessoa especial. Era daquelas que cativam sem pedir muito, apenas a companhia dela era o necessário. Tímida, falava pouco, mas falava coisas certas. Dedicada, dava o sangue naquilo que se propunha a fazer. Sonhava em ter sua família. Zenaide nos deixou hoje, dia 18 de junho de 2010, vítima de falência múltipla de órgãos.

Não, não vou no enterro. Primeiro porque agora já não faz mais sentido. Ela não vai saber que eu estou lá, nem que eu torci o tempo todo pela recuperação dela, muito menos que planejava visitá-la no hospital, quando estivesse melhor. Além disso, não vou suportar o discurso dos crentes tentando achar uma "explicação" para a morte. "Deus sabe o que faz", "Deus preparou e levou", "Deus recolheu", "Deus poupou desse mundo" e por aí vai, sempre atribuindo a um suposto deus controlador a causa da morte. Prefiro lamentar de onde estou.

Sim, a vida é passageira. Eis a única coisa que nos diferencia dos animais: temos consciêcia de que vamos morrer. O pior: não sabemos quando; se será aos 130 anos, rodeado de tataranetos tricotando sapatinhos de bebê, ou aos 32 anos com os pulmões cheios de vida e no início da realização dos sonhos pessoais.

Como diz a música do Ira!, "chorar eu sei que é besteira, mas meu amigo, não dá pra segurar".

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